quarta-feira, 9 de março de 2011

A busca do herói ninguêm atrás de um nome. (estudo para peça teatral)


Padece empalidecido beirando um espelho.
Nota que não é mais Tonhão
vê que não é mais o Pepeu
não é mais o João
nem mesmo é o Zé
o Floriano não é
muito menos o Amadeu
e nunca há de ser mais ninguém.
Não será mais Isabel

A lembrança da infância
era como ele amava Isabel
sonhava com ela sozinho
no corpo moreno, nos olhos de mel
Se pôs a querer encontrar a morena
o Brasil inteiro seria seu caminho
levou com ele uma peixeira
e um terno azul-marinho.
Mas ele nunca seria ninguém

Começou a rodar a nação
descalço andou no solo rachado
e de sapato nas ruas de pixe
mergulhou no mangue enlameado
e bebeu nos melhores alambiques
Perguntava de Isabel em todo o lugar que ia
mas sempre diziam a ele:
“ Nunca ouvi falar, vá embora Satanás!”
deve ser porque ele dizia:
“Com licença, você conhece a mulher mais bonita desde os tempos de Pero Váz”

E nosso ninguém seguia pela estrada
até topar com um cego avarento
perguntou a ele sobre sua Monalisa
e o cego apontou na direção do vento
mas nosso ninguém voou na direção da brisa
largando a peixeira, e o terno azul de linho
domou todos os cometas, abraçou Jesus Cristo,
na estrela caiu cadente sozinho.
No agreste deitado, pensou em tudo que tinha visto.

Nosso herói ninguém deixa de ser nada
se batiza sozinho de Vitorino
Depois de tudo que viveu, ele se encontrou
não era um homem, nem mesmo um menino
finalmente ele se reformulou
Jogou para o alto toda a sua jornada
e correu nu por toda a terra seca
até topar com uma casa pilada
acolhedora, atrás de uma cerca
Vitorino vê que é a casa de Isabel
e ao achar um pedaço de espelho que comprou na cidade
se penteia todo, pobre narciso
Seus traços agora eram de meia-idade
e considerando os fatos, veste uma camisa.
Caminha até a casa roubando um Girassol de Dona Flor ( a vizinha)
e pensando no fim de sua dor
se prepara para na por bater.

Tóc, Tóc, Isabel! Isabel!

Abrem a porta e Vitorino se derrete
uma criança mulata atende a porta
Vitorino pede para chamar a dona do lugar.
A ansiedade lhe domava o peito
e logo vê uma morena mais nova que ele flutuando no ar
Vitorino corre em sua direção e grita
Isabel!
A morena sem entender nada derruba o homem no chão
“Quem é você? O que quer com mainha depois de que ela foi pro céu”
Vitorino vê que tudo foi em vão.
Mais uma vez ele não era nada.

O herói ninguém, cai em prantos aos pés da morena
ele conta sua história, ela se apaixona
ele se reergue, os dois se beijam
o sexo voraz, um casamento.
Nosso herói esqueceu sua Monalisa
e se batizou de Inácio
Descobre que Isabel antes de morrer
beirava cem anos
a morena que quando ele era criança
já tinha quarenta e tocava xequerê
e como pode ser?
amor de criança
Mais forte não tem.

19/05/2008

Nenhum comentário:

Postar um comentário