sábado, 30 de julho de 2011

As diferentes poesias nos diferentes espaços (Estudo poético sobre a experiência contemplativa em São Paulo e no Rio de Janeiro.)

Foto de Pedro Ogata
Deitado em tua cama me assustei ao perceber que me esforçava muito para tentar guardar teu rosto. Ás vezes, ele me fugia da memória... Ia céu acima, junto com a fumaça dos tantos cigarros amassados que eu colocava para dentro do corpo. Hoje eu percebi que não só consegui guardar teu rosto, mas roubei teu olhar que na cor refletia a franja verde das encostas cariocas. Sinto saudades do seu Rio de Janeiro que foi meu também por pouco tempo... A gente seguia dançando na tua cama, e enquanto a gente rolava para lá e para cá mumunhando nossas mandingas e malícias, teu lençol fazia dobrinhas e desenhos suados. Agente parou o tempo com beijos perfeitos de uma paixão rápida. Paixão que foi suficiente, mas que carregava consigo a vontade de muito mais.
Atento, olhei estrangeiro o Rio carioca e seus máximos detalhes perdidos que eu, “paulistano da gema”, poderia conseguir fantasiar. Tive uma primeira impressão estrangeira da "bela capital", que até agora, mesmo de volta a rotina, não conseguiu ser superada por algo mais consolidado nos meus caprichos racionais: Sigo acreditando que a poesia para o carioca é mais fácil de ser enxergada.
Ao sairmos da Rodoviária, o motorista cortava uma comunidade por umas ruas bem tortuosas, e eu fiquei tentando gravar na cabeça aquele dia amanhecendo de dentro da janela do ônibus. Em seguida, ele entrou em um túnel, e estávamos na cidade maravilhosa. A zona Sul do Rio de Janeiro.  A areia repleta de gente abrasada, o concreto antigo, o concreto restaurado, o andar dos cariocas, a maresia abraçando o calçadão de Copacabana no fim da tarde, o americano loiro que caminha com corpo todo queimado em Ipanema, o menino favelado que segue brincando e sofrendo na areia da praia, o pão de Açúcar que aparece do nada no meio da visão de um passante, um Cristo que abraça, ao mesmo tempo, a maravilha da Zona Sul e as favelas que seguem pencando mais perto do céu e muito longe do paraíso.
Você caminha por uma cidade extremamente urbana, cheia de gente de todo o canto, desigualdade para todos os lados, violência paralela aos takes das novelas globais que, às vezes, só de passar pelo calçadão você já enxerga. O cheiro de esgoto que vem de repente, os bueiros que explodem e etc... Mas ao mesmo tempo, a natureza e muito da história do nosso povo está ali à vista. É você olhar, andar por um lugar e lembrar uma música que você escutou que falava dali, de um poema, de uma fotografia ou de uma história que cheia de lirismo segue contando a vida desse povo. Para aquele que busca inspiração, e for capaz de não passar batido em meio a tudo isso, essa musa está ali o tempo todo. Em São Paulo, a gente tem que lutar por essa poesia, e se forçar a encontrar ela em um céu que a gente não enxerga, mas vai sonhando com ele, porque os arranha-céus são muito altos e impedem a gente de vê-lo, nos trambolhões cheios de gente que são os nossos ônibus e nos trombões que a gente leva quando dá a hora do Rush. 
Rolando sozinho na minha cama, eu não me assusto com nada. Está tudo muito bagunçado para eu tentar guardar alguma coisa. Nada pode me fugir da memória... Vôo céu acima, até o limite anuviado de fora do meu corpo, mas tenho que voltar logo, se não eu não acordo de manhã. Hoje eu percebi que não consigo guardar meu rosto, não sei meus traços de cor. Fui roubado no ônibus, levaram a cor dos meus olhos e por isso eles ficaram assim tão brancos e vazios.
Caminho tranqüilo no encalço das avenidas largas dessa cidade explosiva repleta de olhos frios. Cidade que em meio a suas tantas belezas a principal é a contradição que perfuma o ar em seu estado mais geral e pleno. Contradição que não é dada somente pela questão de classe, mas também pelo formato dos rostos, expressões e vestimentas de seus residentes... Pelos holofotes, pelas poucas árvores, pelo moderno e novo vagando no espaço atemporal cinzento. Sua pressa concreta em meio aos não-lugares desse grande lugar, que reflete essa minha São Paulo porão do mundo. Nervos de aço do Brasil. Maternidade de gente que batendo perna na Praça da Sé segue em rebanho atrás da estrela Dalva da sobrevivência, que até hoje é prometida no nosso salvaguardado muquifo do progresso.

Dedicado a mulher carióca que conhecí. Tão típica...

4 comentários:

  1. Hoje, mexendo nos meu blog, vi um comentário seu , de alguns mêses atrás que começava assim: Queria tanto conhecer o Rio de Janeiro....
    deu um sentimentozinho besta de tempo passando e história correndo....
    Beijo grande

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  2. Pará, aprende a acentuar diferente. sem circunflexo. poxa.

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