domingo, 30 de dezembro de 2012

Os encalços dos amores

"No encalço dos amores
calço o pé que não me cabe.
Amores são como sapatos
e eu sou um homem descalço
que nunca achou um par perfeito
mas que sabe que se um dia encontrar
será preciso mandá-lo ao sapateiro.
-O amor é algo a se consertar-"

José Maurício Prado e Costa; Os encalços dos amores.


      Os encalços dos amores. Amores são como sapatos? Hoje calço uma loura, amanhã um negro, depois de amanhã uma japonesa e, dessa forma, me tomo a calçar os mais bonitos sapatos que me dão. Meu pé não tem tamanho e os sapatos muito menos. Daí caminho pela rota das perguntas. Meu pé se adequa? Ou o sapato que se adequa a meu pé? Sei que ele busca um par pefeito que não existe, pois nem sapato nem amor serve no pé e no coração encaixando direitinho.
      Ai se dão as coisas. É difícil demais... Em casal a gente vive uma loucura de sentir o pé apertado. Em solteiro a gente vive a loucura de pisar nas pedras descalços. Na velhice então, a gente vive o prazer de um pé quase já diminuído, onde não há porque nem sentido algum de se calçar outra coisa (só de já vestir o mesmo sapato velho que quando bate a criatividade a gente reforma no sapateiro).
      Vejo um casal de amigos... Me vejo quando eu era casal, tantas loucuras... Em prol de que? De uma vida junto? Às vezes, penso que tanto os calçados, quanto os amores, quanto a vida, quanto a poesia não tem sentido em si se não o que esses mesmos se dão.
       Felicidade? Se for felicidade são os mesmos estágios do sapato. Uma grande alegria em ter um novo e, quem sabe um dia a sorte de achar aquele par para a vida toda. Mas sempre lembrando que é preciso primeiro lacear para depois usar para sempre.
      É necessário ser um curioso a um extremo violentíssimo para amar. Mas também é preciso não ser só um curioso sedento, é preciso querer ceder... A paciência é necessária.
      Vejo meus amigos solteiros. Lá em casa é uma coisa de louco, moramos em sete meninos e toda vez que algum começa a namorar é quase uma traição para todos:
- Cadê o fulano?
-Tá na casa da fulana.
-EEE viu... Esse negócio já deu no que tinha que dar...
      Ciúmes dos sapatos dos outros? Olha, pode até ser, mas acho que se for ciúme não vem sozinho... Vem também com uma preocupação com o camarada, com coisas que a gente se rebela (como um relacionamento convencional), com o medo do cara perder parte da juventude, estar sendo feito de bobo ou qualquer outra coisa. É ai que a gente esquece como é se relacionar com alguém. O grau de complexidade que essa história chega. Não é fácil amarrar um sapato, não é facil laceá-lo. E na vida a dois, ou a três, ou a quantos preferir, esses que são brancos, pretos ou verdes que se entendam!
     Mas por fim, o pouco que aprendi sobre amores e sapatos, tanto lendo quanto vivendo. Não foi nada. Não há muito como aprender, não há nada o que aprender racionalmente... A gente só tem como vestir o sapato que escolheu. Às vezes o mesmo, às vezes um por noite, ou mais de um... Depende do evento, não é?
     De qualquer forma, meu querido leitor, peço para que não se assuste com a metáfora escolhida (os sapatos), e que me dê o espaço para que eu faça uma pequena auto-correção. No terceiro parágrafo dessa pequena crônica desorganizada, eu falei que os amores, os poemas e os sapatos só tem sentido neles mesmos. Mas nesse ultimo parágrafo acabo de perceber que no meu texto inteiro eu fiz o contrário a esse argumento pois atribui diversos sentidos ao amor usando de algo que está fora do amor como, no caso, os sapatos. Isso quer dizer que de fato as coisas não tem sentido nas próprias coisas, se tivessem, não faríamos nem amor, nem poesia. Nós somos seres de metáforas. Nós somos quase uma alegoria.

Por fim... Procuremos um bom sapato, então!

sábado, 29 de dezembro de 2012

O samba, meu avô e minha cidade.

      Não sei ao certo de onde nasceu minha paixão pelo samba. Não nasci em comunidade, meus pais não são músicos e eu não tinha amiguinhos que gostavam disso. O que eu me lembro é de em minha infância meu pai escutar muitas vezes uma coletânea em disco do grupo vocal Demônios da Garoa. Essa lembrança tem um gosto de encantamento e nostalgia. Era muito divertido escutar aquela italianada cantando.
      Na essência daquelas músicas existia uma boêmia peralta e meio estrangeira. Meu avô Toninho era filho de imigrantes, boêmio e fazia sacanagem com todo mundo. Daí, além de me divertir, na minha inocência de criança eu associava aquilo ao meu avô.
      Mas não foi exatamente pela lembrança do meu avô e pelo divertimento que esse gosto me baixou. Fui crescendo e fui reparando que associar o pai do meu pai ao samba daquela gente não era uma mera inocência de garoto. Digo isso porque o samba em São Paulo no século XX foi uma manifestação popular que cantou o desenvolvimento da metrópole. Isso se deu tanto do lado dos sambas de operários como do lado do pessoal de Pirapora e dos sambas dos engraxates.
       Quando percebi isso, me pegava pensando: Como pode toda essa integração de culturas? Imigrantes cantando música de preto e falando por meio de uma manifestação essencialmente do povo sobre o desenvolvimento da cidade?  No samba paulista há sem a mínima dúvida uma mescla grande de contradições e essas contradições são dadas por meio das crônicas sobre o cotidiano de uma metrópole em que o trabalho e a diversidade foram os pilares de seu crescimento.
       Isso me faz voltar ao meu avô. Ele, assim como muitos, conta histórias que só não deram em samba por que não tinha ninguém com um violão do lado, histórias do seu cotidiano enquanto operário e das saudades dos espaços que foram demolidos ou sobrecarregados por prédios em alto desenvolvimento.
Outro dia mesmo, sentado no banco que ele mesmo construiu, começou a puxar aquele sotaque antigo e carregado do povo da paulicéia, como se começasse a baixar alguma entidade contadora de histórias:
- Essa casa aqui fui eu mesmo que fiz tudo. Depois de conseguir botar as cerca e levantar os muro só me faltava fazer o esgoto. Naquele tempo era assim... Num tinha dinheiro para fazer, fazia a gente memo. Daí chamei o Milton, o Tatu e o Tião para me ajudar, pois eu precisava dos camarada para conseguir mexer naquela fossa cheia de porcaria que tinha antes do esgoto. Foi assim, enfiei o braço na fossa e fiquei com a cara quase no nível da água cheia de sujeira. Eu fiquei mexendo nas coisa com a mão lá embaixo e a única coisa que eu gritava pros camaradas era - NUM FAIZ ONDA, PELAMOR DE DEUS!- Naquele dia eu bebí uma garrafa inteira de cachaça... e não fez efeito!
        Daí dá para a gente ver quase um Joca e um Matogrosso, da saudosa música de Adoniran Barbosa, levantadores de um barracão. Gente que, como dizia Plínio Marcos, "Come da banda podre e só berra da geral sem influir no resultado", gente que foi desabrigada das casas que construiu para uma São Paulo crescer, gente que construiu a São Paulo que a desabrigou. Gente fodida, mas que segue acreditando e contando suas histórias.
       Mas não é sempre assim tão direto que na fala dele bate o progresso da Paulicéia. Outro dia mesmo ele engrenou para outra história:
- Se um dia tava calor, os operários todos deixavam o macacão pendurado na parte de fora da fábrica. Eu pegava lã de rocha, que coça pra caramba, e esfregava no macacão deles... Daí eles ficavam tudo se coçando para lá e para cá e eu fingia que tava me coçando também para ninguém descobrir que fui eu...
       Dá-lhe a peraltice, dá-lhe um jeito de tornar a vida de trabalhador uma coisa mais engraçada, pregando peças e coisas que só eram possíveis em um tempo em que havia mais liberdade. Eu digo liberdade porque apesar de penar demais dentro dos macacões, essa gente tinha uma cidade que de alguma forma era mais entregue aos seus entes. O povo ficava na rua, o céu ainda podia ser visto, o rio ainda podia ter gente nadando... Hoje, quando a gente passa pela rua, na maior parte das vezes, é indo de um lugar onde a gente se sente seguro (como uma propriedade privada, nossa casa ou a casa de amigos) até um lugar onde a gente também se sente seguro (consumindo de alguma forma, como um bar, um shopping ou qualquer outro espaço desses). Do rio a gente quer passar longe, e o céu, para ser visto, é preciso que o cabra se mexa para não ver só a sombra.
       Esse povo, que conta suas crônicas por meio do samba, ou por meio de um banquinho, é uma gente que conta a história dessas mudanças... Mudanças que, às vezes, ouvindo um samba que fala de demolição, a gente acha que ficaram no século XX e se esquece de associar com o que está sendo feito agora com o Largo da Batata, por exemplo, ou com outros lugares que estão deixando de ser espaços democráticos dentro do meio urbano, para se tornarem espaços cada vez mais privados e menos públicos.
       No samba que fala do progresso e do modus operandi da cidade de São Paulo, em meio ao seu crescimento, vejo as histórias do meu avô e em consequência, a história da garoa. Quando percebi isso, passei a escutar mais samba e mais o meu avô, e também passei a olhar mais para o espaço público. Enfim, concluo com um conselho... Não que eu seja grande exemplo para alguma coisa, mas acredito e arrisco dizer a nós, jovens paulistas... Escutemos mais os senhores de idade, escutemos mais os sambas antigos e, talvez, entendendo essas letras e essas histórias, a gente consiga um dia transformar nossa terrinha em um lugar menos turrão e inabitável. Agindo diferente das gerações que nos antecederam e construindo uma cidade mais nossa.

domingo, 23 de dezembro de 2012

São Paulo continua garoando.

      Permance reclamando do excesso de perna que a Gota construiu. Foram bons anos- Ô se foram!- Mas um dia vem a velhice e todas as cachaças, os cigarros e a falta de sono baixam na saúde da gente da forma mais ardilosa que se pode baixar. Esse é o Seu Chico... Com gota, água no pulmão e chinelos que se arrastam em moto contínuo pelo quintal que ele mesmo cimentou.
      Seu Chico começou cedo. Era um portuguêsinho daqueles! Filho do Seu José, o Dono da Quitanda e da Dona Maria que ajudava o marido com as frutas. Seus pais vieram de Portugal depois da segunda grande Guerra com uma mão na frente e outra atrás esperando uma São Paulo que ainda ia ser construída. O Seu José, surdo de um ouvido por causa de um estilhaço de granada olhou os destroços de sua Europa natal e resolveu se mandar para a terra da garoa a onde o progresso e o emprego propagandeavam um futuro promissor. Dona Maria foi com ele. Pegou os quatro filhos e pôs no navio em meio aquele bando de gente fedendo a dias sem banho e a um sol de rachar a cuca. Com o passar dos mêses os quatro filhos não vingaram... Morreram de peste. As condições não eram boas dentro do navio e pouquíssimas crianças conseguiram aguentar a rota de Cabral. No entanto aquela portuguesada batalhadora guentou firme! E para compensar tiveram logo mais quatro bebês ao chegar na terrinha.
      Foi dai que nasceu Seu Chico. Chico era o mais novo e desde que saiu do ventre da mãe se inaugurou como uma peste! O pai queria porque queria que seu filho caçula conseguisse continuar os estudos, talvez, virar um Doutor (oportunidade que não cedeu a nenhum dos outros rebentos), mas Chico preferindo o bate bola, a paquera e a bicicleta mandou os estudos para as cucuias e resolveu trabalhar na fábrica.
      Nunca foi fácil para ninguém apertar parafuso, muito menos para um bom malandro. Não demorou muito até ele ficar de saco cheio e cair na cachaça. Chegava bêbado em casa, pintava o sete e ainda contava piada de português só para irritar o Seu José. Não queria mais aquela dependência. Não tinha saco para cuidar de Quitanda e ficar aguentando um português ex-militar descendo caraminholas nos seus ouvidos. Para resolver o assunto, aos dezoito anos decidiu servir o exército para conseguir se livrar do velho. Mas deu em bola fora... O Sargento o dispensou pela a altura, Seu Chico era nanico demais e não ia vingar no batalhão.
      Daí teve que continuar. Trabalhava em São Miguel, morava no carrão, frequentava os sambas junto aos crioulos e as italianadas que pintavam a fauna paulistana, jogava sinuca, andava de bicicleta e namorava a linda Gertrude, da família dos espanhóis (mas nessa vida puxada namoro nenhum funciona). Seu Chico chegava do trabalho cansado, sentava ao lado dela no sofá e caía direto no sono assustando toda a família da moça com seus roncos. Um dia, brava com toda essa história, Gertrude chamou ele de lado e disse:
-Assim, não dá! se é para ser assim melhor a gente casar de uma vez!
E casaram...
      Nem por isso cessou das bebedeiras. Logo já tinha duas crias e ainda assim infernizava a vida da geral. Chegava fedendo a álcool, quebrando coisas, descendo a lenha na criançada e na esposa sem nem dar boa noite. O trabalho era pesado e a vida era dura. Para aguentar o dia a dia da fábrica só com mais uma dose e outra dose, tornando dose dupla conviver com o carrasco. Mas não era assim sempre, Seu Chico tinha lá suas qualidades. Quando ficava sóbrio mudava literalmente do vinho para a água e se tornava um doce, usando muitas vezes do seu tempo livre para mostrar seu verdadeiro talento o de engenheiro. Eu digo engenheiro por que as coisas que ele fazia em sua casa eram de cair a boca. Uma mesa reaproveitada de uma velha bicama, uma churrasqueira feita de tijolos com chaminé, um esgoto, pias, privadas e até brinquedos. A casa era quase toda de coisas recalchutadas que ele mesmo bolou e construiu com as mãos intuitivas que Deus lhe deu.
      Foi indo na cadência dessa rotina. Passaram os anos e seus pais foram encontrar os filhos que perderam de peste lá no céu, Gertrude foi logo a próxima. Morreu dormindo em uma noite sem lua. Não deu muito tempo e os filhos sairam de casa, tiveram suas próprias crias e suas próprias aventuras, Seu Chico acabou ficando sozinho... Já não trabalhava mais (viveu um acidente que até hoje ninguém sabe se foi intencional ou não e conseguiu um dinheiro de renda dado pela empresa até o resto de sua vida). Permanecia sentado no botéco que fica na esquina da casa em que ele sempre viveu, bebendo mé e contando piada.
      Paralelo a isso uma São Paulo crescia. Conforme foi perdendo as pessoas, foi perdendo também os hábitos. Não podia mais pescar no Rio Aricanduva, não dava mais para caçar rã, os lampiões viraram lâmpadas fluorescentes e as casas que não foram demolidas cresceram para cima... Até sua velha vila, onde sempre morou já não era mais a mesma. Ali existia um Largo a onde a criançada brincava de bola a tarde inteira, esse Largo hoje só tem carros estacionados e quem chutar bola ali vai se ver com quem estacionou. Ali existiam famílias de japoneses, de italianos, de negros, de espanhóis e de portuguêses. Todos se conheciam, a maior parte era comerciante ou operário. Hoje tem um shopping ali perto, as fábricas se mandaram para o interior por falta de espaço e ninguém mais se conhece. O Seu Chico é o único homem de mais de setenta anos morando na mesma casa. Nada permaneceu igual, nada se manteve nas tradições. Só ele... Só ele e o Botéco.
      Mas um dia, sentado na mesa do bar, Seu Chico viu passar um filhote de vira-lata. O bicho andava sozinho bebendo água do esgoto, morrendo de fome e sem ninhada que o acompanhasse. De alguma forma o velho se reconheceu. Foi andando até a valeta, virou a dose que ele guardava, pegou o bicho e pôs para dentro de sua morada. O nome dele ficou Roberto. Fez uma casinha de madeira com uns materiais que encontrou em uma caçamba e começou a criar o bicho. Só os dois se entendiam. Roberto latia, Seu Chico falava e os dois no decorrer de doze anos contaram um para o outro diversas histórias da Paulicéia, vivendo em uma boa felicidade, repleta de calma e carinho.
       Depois desses doze anos nem o Roberto nem o Seu Chico morreram. Os dois continuam vivos, Seu Chico arrastando os chinelos pelo quintal, com gota, água no pulmão e saudades. Roberto o acompanhando, meio manco mas ainda expressando uns latidos desafinados. O problema é que no quintal a onde Seu Chico arrasta as sandálias não bate mais sol. Brotou um prédio enorme que faz uma sombra danada. Esse prédio, como todos os outros, eu tenho a certeza que indiretamente Seu Chico ajudou a construir. Digo isso, pois nessa terra de progresso tudo foi feito pelas mãos dos operários, dos quitandeiros, das donas de casa, dos bons malandros e até dos Robertos. Esses entes, feitos de bicicletas, paqueras, botécos, lampiões e rãs continuam atravessando as sombras hiperbólicas do progresso. São eles as fachadas antigas vivas no centro velho, são eles os vira-latas que sobraram nas ruas, são eles que encostam como fantasmas em jovens que permanecem tocando samba nas calçadas (vencendo a lei do psiu e a burguesia decadente dos bairros altos). São eles que construíram as histórias que a garoa conta, usando da ordem, do progresso e da libertinagem.
       São Paulo está com Gota e água no pulmão, mas está viva! Seu Chico está vivo!  Roberto ainda uiva para um resto de lua, as fachadas estão ai, a garoa ainda cai na nossa cabeça. O problema é que não há ninguém escutando as histórias do Seu Chico, ninguém olhando as fachadas, ninguém sentindo a garoa... São Paulo é uma terra sem tradição.
      Por fim, de algo eu tenho certeza. Enquanto os velhos arrastarem suas chinelas escondidos dentro de suas casas, enquanto as fachadas antigas ainda se esconderem em cima das vitrines coloridas, enquanto os botécos vencerem a lei do psiu botando a banda geral para dentro e fechando as portas. Seu Chico continuará vivo e a cidade de São Paulo vai continuar garoando. Pois quando o céu fica cinza e o ar fica úmido pode ter certeza que a garoa veio nos contar uma nova história.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Independência

No baixo-ventre das fachadas antigas
há sempre uma vitrine colorida
e em qualquer sombra de vida
que hoje existe em Vera Cruz
nos encosta o fantasma suicida
de Dona Maria, a Louca,
com os presentes que nos deu a Coroa:

Falange das Lights,
das Nikes,
das High Societies
e até dos Gatos Blau
Eu evoco os regalos!
eu evoco o enfarte
que ei de ganhar de Natal!

Fico com meu semblante cafeeiro
um Hamlet na multidão
mas me perco ao pé dos letreiros
proclamando como um cavaleiro
a independência da Avenida São João

Mas sem mais hipocrisias!
Fiquemos com a morte:

A República sou eu!
A Alforria sou eu!
A Inconfidência sou eu!
                                                           [Só eu...]
Pregado na cruz da igreja da Sé
ouvindo, respirando e vendo.
Mas principalmente gritando:

- Por que me abandonaste pai Tietê?
Por que me abandonaste?

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

A passada

As procuras,
os encontros,
as passadas...

- Vamos dar uma passada?

Minhas vinte luas
meus vinte milhões de cigarros
meus vinte mil copos de bebida
meus vinte e cinco amores
que na mesma espelunca
me pentearam as crinas

-Até quando será?

Até nunca...

Me bate uma brisa na nuca
um encosto mesclado de culpa
um espectro de pureza divina...

Até culpa?

Me veio o éter, a cocaína,
as tentativas de alegria...
Restou melancolia.

-A solução deve estar na doutrina...
Ou na terapia!

-Mais um cigarro?

Bem que eu queria parar...

-Mais um copo?

Bem que eu queria parar

- Mais um amor?

Bem que eu queria casar!

Logo eu que jurei
te negar por três vezes
até o galo cantar?

Eu quero parar!
eu quero parar!
eu quero parar!
                                                   


-Canta logo Galo! Faz mais um dia raiar!

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Poema de primavera

Toda mãe é uma primavera

-Nasce do ventre um botão de rosa-

Há de crescer
com pétalas e espinhos
colorindo todos os caminhos
com teu corpo de alma formosa

Toda mãe é uma poetisa

-Olha o mundo com alma gulosa-

Há de vencer
com seus estribilhos
brindando na graça do vinho
as mais velhas mazelas da prosa

Todo o filho é uma conquista

-Das guerras mais ardilosas-

Há de viver
entre o azevinho
armado de dor e carinho
com sorriso de alma ditosa

Por isso quando conheço uma mãe
meu coração se aquieta
Não há artista maior
pois é de seu sangue e suor
que hão de nascer os poetas

Mas pai também é mãe
e é também primaveril
tenho em mim essa certeza
pois carrego a eterna tristeza
da minha rosa que nunca se abriu

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Estátua de Drummond

                                                                                                Em homenagem ao bebado
                                                                                                da clássica foto da estátua de Drummond


Meu Carlos de Copacabana,
solitário e dominical
sentado na mesma bancada,
os olhos sobre a calçada
e as costas na Pedra do sal

Carlos,
poeta das Rosas,
sempre na mesma posição
os dedos cruzados
a cabeça de lado
vivendo em total solidão

                                                            [Ora, mas agora tu tens companhia!]


Lá vai de alcool o falador,
que só quer ouvir os teus versos
Por que você não responde?
Por que não recita alguma coisa?
Vamos Carlos! Anda!
Anda com a falange dos Lázaros!
levanta-te mineiro calado!
Pois esse homem sentado ao teu lado
só quer olhar por trás dos teus óculos
de pacato funcionário do estado

Sentou pois apareceu uma estátua de pedra em seu caminho!
Sentou porque uma flor nasceu na sua bancada!
Sentou por que Fulana não lhe deu atenção!
Sentou por Stalingrado!
Sentou por Mariquita!
Sentou pela repartição!
Sentou pela passagem do ano!
Sentou pelo teu coração...

Mas sentou.
e não foi para ser fotografado...

Sou esse homem, Carlos,
só quero te olhar escrever
sou teu Sebastianista
sou o bêbado que te clama conquistas
e uma flor a esperar para nascer

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Três da tarde

Na Avenida Latina
o relógio do Unibanco
digitaliza três da tarde

É futurismo, menina!
é puro turismo...
É a tal da tropical melancolia
que exala das Ilhas de Calor
escondidas nas mais altas latrinas

É turismo, menina!
é o meu velho turismo nativo...

Dia após dia me surpreendo
com a cidade que aparece no espelho
dos olhos dos seus tantos filhos

Bote néon, fumaça, buzina, estribilho, boiada,
bicheiros, bicheira, bitucas, pastores, privadas,
repentes, serpentes, perucas, parentes, cambadas
e bichas ensanguentadas...
e pretas ensanguentadas...

Mas deixe para lá!
Não há tempo para sangrar...
Faça assim, menina mimada,
Bote chão pelo centro
e me dê uma moeda trocada!

-Ah não quer dar?
Apelemos para a poesia:

É tão bonita minha amada
ao vê-la tenho um lampejo
Seus olhos tem a cor do azulejo
que enfeita a Ponte Estaiada

-Nem assim deu...

-Já são três e cinco na capital!
disse o Mosteiro da São Bento
gritaram as bichas ensanguentadas
me avisou a menina mimada
pintou o relógio do Unibanco
e o sol bateu nas fachadas

-Pare de vaidade
Já são três e sete!

Não há tempo para turistas
não há tempo para sangrar
não há tempo para a poesia
não há tempo para os olhos de ninguém...

Azulejos da ponte Estaiada?
Ora, pare de vaidade, vá trabalhar!
ou escolha melhor a metáfora

Tá bom... Vou tentar:

Bote chão pelo Centro!
Pé ante pé pela Ipiranga
São João, Botuporanga
até a morada do cão!

Boto meu pranto que é tanto!

É nada...
É só a garoa calada.
Vai molhando as fachadas das casas
os namorados e as namoradas...
os poemas e as proezas...
os turistas e as tristezas...
de minha alma ensanguentada!

É turismo menina?
-Não, é só futurismo...

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Vini, Vide, Vici.


Vide a vida!
solidão perpétua
só lido de perto
com meus metros de ego
e meus quilometros de dividas

Vini a vida!
hiato de encontros
se nasce
se morre
se larga
se chega
eterno confronto
etérea proeza

Vici a vida!
habemus ela
apud esta
idem aquela
paleta que resta
uma velha aquarela

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Água na boca

Rasgo meus lábios
carentes de água
desejo cumprir o desejo
de tornar do meu beijo
a mais imensa das cataratas

Naveguei na ilusão
enfrentando a tempestade
hoje sou um sertão de saudades
seco no meu coração
e vermelho de tanta vontade

Adeus enxurro das águas!
se despeça de minha boca virgem.
Tornei-me um homem deserto
com um coração de concreto
flanando na mais densa vertigem

domingo, 25 de novembro de 2012

Poesia Culpada

Sinto culpa por roubar
sou culpado por trair
me culpo por matar
e até por iludir.
Torno a pagar me ferindo
criando chagas
vestindo espinhos
Mas não vou seguir permitindo
sentir culpa pelo que tenho sentido

Da masmorra dos meus pecados
enxergo as tochas dos meus fantasmas
carregam consigo um fruto cortado.
                                                                                    É meu coração fincado em espadas

Mas eu não me entrego!
continuo em cativeiro
o amor tornou me cego
e repleto de furos nos seios

Amei, e de fato amei
mas feito poeira o amor se danou
restaram poemas borrados
versos de pé quebrado
e rimas que o vento levou

Até que ponto
devo culpar-me
e responsabilizar-me
por quem eu cativo?
se o amor se foi
com ele vou eu
e mesmo que eu jure
perante a Deus!
só juro enquanto ele é vivo.

sábado, 24 de novembro de 2012

Conclusão

                                                                                                   A meu eterno enigma de olhos azuis...
                                                                                                         (Para ler escutando "Regra Três)


         Espero... É claro que eu espero! Ainda não cheguei ao nível de me sentar a toa em mesa de bar sem ninguém, vendo desfile de mulher calçadeira... Estou aqui em uma boa missão: Aguardar alguns amigos para comemorar um aniversário e relembrar os tempos de colégio e puberdade. Beberemos que nem porcos, tocaremos um samba daqueles e, por fim, tenho a certeza que vamos terminar a noite mais cedo do que antigamente... Hoje em dia as coisas mudaram. As namoradas, os namorados, o trabalho, a lei do psiu, a vida atual e o tédio que ela virou chamam mais alto do que a saudade dos companheiros. 
          Mas enquanto esses amigos não chegam me pego sozinho olhando a tradicional esquina a onde passei boa parte de minha adolescência. Sentado aqui, na mesma cadeira de plástico, na mesma mesa, no mesmo boteco, sinto-me velho olhando em frente aos meus olhos uma espuma quente de cerveja. Uma cerveja igualzinha a mim morrendo de braços dados a temperatura da rua.
          Eu já estava aqui antes dessa longa espera. Eu sempre estive aqui... Percebo que por esse motivo a cerveja ficou quente; O que fazer com ela? Dadas as circunstâncias, chego a uma conclusão- O negócio é mandar para dentro!- Viro o restinho do líquido e me pego divagando confuso sobre o que me ocorreu a cinco minutos... Algo que imaginária?  Olha, pode até ser que eu imaginasse... Mas imaginar antes de acontecer podia gerar muitos machucados e confusões e eu, no auge dos meus vinte anos, já me sinto velho para sofrer por amor. Pois nessa vida, ai... Como sofri por amor! E principalmente pelos amores platônicos.
          Veja você...  Na tarde de hoje sai de casa sem esperar mais nada. Ia encontrar uma amiga de tempos de escola no fim do dia. Não tinha reais pretensões, seria naquele mesmo bar, beberíamos uma cerveja, conversaríamos, ela iria embora e eu ia acabar comemorando o aniversário que me esperava junto com o pessoal das antigas, com o mesmo tédio e desesperança de sempre... Que coisa não é? Não havia passado pela minha cabeça a possibilidade do que me viria a acontecer. Uma faísca de esperança? Uma conclusão? Enfim... Estou sendo egoísta, deixem me contextualizar:
          Aos quinze anos eu era a peste em um corpo púbere. Cometi Deus lá sabe quantos pecados e perversões. Usei tudo quanto era droga, bebi do ralo podre, comecei a fumar, não ia na aula, me deitava sabe se lá com quem, reclamava de tudo, enfiava os pés em cima da mesa, comia de boca aberta, vivia grandes paixões e terminava tudo isso cruzando as pernas temperado de uma prepotência digna de colunista da Folha. Concluindo, dei trabalho! Em justa causa recebi de troco uma bela de uma repetência para ficar esperto. Resolvi insistir, continuei no colégio a onde eu estudava e refiz de cara amarrada o enfadonho primeiro colegial.
          Daí ocorreu o inesperado. Lembro que ao entrar na minha nova sala, avistei de longe essa minha velha amiga. Na época não era velha e nem amiga... Era somente uma loura, pititica e provinciana. Ficava toda bonitinha rabiscando umas pinturas nos papéis de caderno.Eu me encantava, mas achava ela muito pititica para mim.  Sentia-me na época um homem cheio de experiências e valores e, nunca (por orgulho de macho burro) assumiria essa minha paixão escondida. Com o passar do tempo viramos amigos. Daqueles amigos com "coisinhas". Quando digo amigos com "coisinhas" quero dizer que nós brincávamos dizendo um para outro que um dia casaríamos,  que bláblá e blablá e mais outras caraminholas sufocadas... Como bons amigos de "coisinhas". Nunca passamos dos blábláblás.
          No decorrer de um ano ela mudou. Cortou seu cabelo, deixou a cor natural, passou a beber e a sair por ai. Em consequência não demorou muito e ela estava namorando. Era um menino bonito, alto, cheio de opinião, um aninho mais novo. Eu, do lado de fora,  dizia que achava bom, que ficava feliz, que era tão bom encontrar alguém...Mas o meu orgulho de "macho burro"  me impedia de mostrar que no fundo eu remoia as dores de todo um amor que menosprezei por ela ser pítitica... Mas venhamos e convenhamos, acho que já deu para perceber que não era ela que era pititica. Mas sim eu, que era pititico de alma.
          Comecei então a jogar pelo mal de novo, dizia a ela para largar o imberbe, clamava que ela casasse comigo, que seriamos um casal lindo juntos, que tudo daria certo, blá, blá, blá e outras caraminholas, agora, mais pesadas. Enfim, a infernizei... Não passou muito tempo e recebi de troco o silêncio. Fui ignorado durante alguns meses e sofri pela primeira vez. Um tempo depois ela me perdoou. Pois bem, ficamos amigos! Voltamos a conversar, ela tinha crescido, estava bonita, altiva! Tinha virado uma ótima desenhista. Ia prestar Artes plásticas no vestibular e eu Artes cênicas, ficávamos conversando sobre os cursos, sobre os sonhos, sobre sair de casa e viver a vida, enfim, essas coisas de fim de colegial. E como um bom fim de colegial, em tradição, fomos viajar para comemorar a formatura.
         
Nessa viagem, talvez, pela beleza dela, talvez, pelo fulgor do momento de formatura acabei me apaixonando de novo. Em meio aos dias de curtição, ela se juntou com um colega nosso de sala. Fiquei inconformado ao saber. Meus ciúmes nasciam do pedaço mais negro da minha alma e a vontade que eu tinha era de pegá-la no colo e fugir dali! Resolvi, então, largar a macheza burra e falar tudo de uma vez. Em um momento depois de beber bastante, em meio a um samba que puxamos em um boteco, a chamei de lado e comecei a falar coisas em seu ouvido. Dessas coisas eu nem gosto de lembrar! Só sei que passei das sacanagens mais sujas até as mais dóceis declarações de amor. Ela refutava. Meu colega de sala, a meu lado, ficava ali observando a minha falta de ética e respeito.
          Para concluir, obviamente a minha tentativa violenta não deu certo. Mais uma vez, de troco, ela parou de olhar na minha cara e voltou a me odiar. Cego de orgulho escrevi uma carta apaixonada.  Eu falava que a queria e que eu tinha certeza de que ela me queria também. Escrevi poesias, fiz desenhos e no finalzinho da carta dizia para ela me encontrar em um café, às três horas da tarde de uma quinta-feira caso ela sentisse algo por mim. Ela foi, sentou na minha frente, me olhou com aqueles olhos azulados e disse:
-Você é louco, não sei da onde você tirou essa história toda! Eu nunca senti nada por você! Você não tem respeito algum! Quem você pensa que é para ficar dizendo o que os outros sentem? Só passei aqui porque tenho compromisso aqui perto...
          Não lembro se chorei. Devo ter chorado... Tudo o que ela disse era verdade mesmo e, clichês a parte- A verdade dói- Saí dali e encontrei um amigo de poesia e dor de corno. Sentamos em um boteco, eu pedi um conhaque e ele temperou a história cantando regra três do Vinicius de Moraes. Agora o negócio era seguir com a vida. Fiz isso, sai vivendo outros amores platônicos ou concretos. Passou um tempo, me falha a memória quando ou como, mas a vida e os amigos levaram a gente de volta um ao outro.
          Nessa história de idas e vindas eu e essa menina nunca nos tocamos. Foi de fato um platonismo só meu. Meu jeitinho patético de ser e meu orgulho foram juntos os néctares que me embebedaram e impediram a possibilidade de um dia vir a conquistar essa menina. Criei confusões e mais confusões, algumas nem contadas aqui e dessa forma, construí essa história na minha cabeça.
          Nessa tarde sai de casa para encontrá-la... Como já disse, no mesmo bar que estou agora, na mesma esquina de sempre (onde já já vamos comemorar um aniversário). Cheguei atrasado, sentei na cadeira de plástico vermelha, a onde continuo sentado, conversamos, falei coisas bonitas para ela e bebemos cerveja. Eu olhava aquela esquina, as cervejas, a menina... O tempo escapando entre os nossos dedos, o passado e as memórias se apagando nos nossos furacões de maturidade e só me vinha uma emoção. Paz... Por algum motivo hoje foi uma das primeiras vezes em que senti paz olhando aqueles olhos azuis. Uma paz de amigo, uma paz de gente que se entende. Difícil botar em palavras.
          Por fim, deu onze e meia, o ônibus já ia parar de passar. Ela ainda sentada me disse então que ia embora, falou para mandar lembranças ao aniversariante, levantou da mesa, olhou nos meus olhos, se aproximou e me deu um beijo na boca. Dobrou a esquina e sumiu entre os bares.


          Agora continuo esperando. Confuso e marcado pelo enigma eterno que são esses olhos azuis. Será que todo esse romantismo foi e sempre será só de minha cabeça? Será que não? De qualquer forma, sei que essas respostas não existem. Prefiro assim, permanecer nessa caldeira de plástico olhando esse beijo na boca tão carinhoso e tão delicado como um ponto final de uma história onde o autor não é verborrágico. Aquele beijo me foi um beijo de carinho. Um cobertor que acarinhou uma confusão platônica de quatro anos. Um perdão dado por ela... Uma conclusão.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Glória ao Passado

O que gorjeia a iminência das massas?
O que celebram os dias de glória?
Olhando os marcos da historia
me torno flutuante no espaço
Não quero caminhar pelas praças 
nem levantar os meus punhos de aço
somente insisto em clamar no encalço:

Abaixo a família!
Abaixo a carola!
Abaixo o imperador!
Abaixo o operário!
Abaixo o torturador!
Abaixo o alforriado!
Abaixo o vagabundo!
Abaixo o pacifista!
Abaixo o republicano!
Abaixo o ser humano!
E seus tantos mantos de horror...

-Mas ora diacho!
Quando digo abaixo... Não me rebaixo?

Olhando a vasta andança do gado
se aproximando no vão dos meses
enxergo todos como velhos fregueses
e dou graças ao feriado:

Evento de Dezembro
na terrinha de frigideira
que se queimem seus pinheiros
que falte pão na nossa ceia!

Novembro,
Te proclamo a "rés pública"!
que te trepem! que te urinem!
Será a sua serventia única...

Candeia Outubro branco
mês derretido em sete dias
as beatas te levam nas mãos
em torno da Aparecida

São largos os bigodes Setembrinos
que erguem a espada do imperador
são verdes os capacetes da pátria
que levantam os fuzis do senhor

Agosto,
És imenso e negro
não mereces muitos versos
mereces um descarrego!

Julio Cesar,
fizeste algo que presta...
tua maior conquista de guerra
foi proclamar um mês de férias

Chora meu Junho quilombola
a melanina de seus guerreiros
sob a áurea do dia da raça
vejo um eterno cativeiro

Maio,
Suas semanas só tem um dia
são as veias abertas de sangue
são as mãos de martelo feridas

Abre alas herói vazio
o estandarte da república é sua cabeça
segue fincada no primeiro de Abril
o verdadeiro dia da inconfidência

Março,
por onde tuas águas me levam?
Para um golpe de tortura em seu ultimo dia?
Quero ficar cego em sua vã poesia...

Fevereiro mascarado de três dias
mostra seu rosto e eu rasgo a fantasia!

Confraternize universo
desejando a paz em Janeiro!
que o próximo mês está perto
e depois dele o ano inteiro.

E na passagem de ano volta a boiada...
Volta o gado, volta o feriado,
Conjugam um brinde de glória ao passado
e erguem suas taças repleteas de nada

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Tremor Essêncial

Minhas mãos resmungam...
Não cansam de clamar caraminholas!
Querem cobrir-se nos bolsos
querem cruzar se entre as pernas
Desejo mostrá-las mas elas se escondem
Desejo entregá-las aos mais vastos amores.
Mas minhas mãozinhas inquietas
ansiosas e envergonhadas
se assumem mãos de mau poeta

Ai, como tremem minhas patas!
se cobrindo do resto do mundo
Ponho a culpa no cigarro, culpo mais bebida,
não desculpo os amores que me roubaram a vida
Imploro ao metacarpo- Calma!
Mas ele não para de sacudir...
e sai espalhando por ai
que a culpa desse tremor
é a essência de minh'alma

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Matéria Prima

Há algo que não entende
a maquineta veneta de vento
-É impossível medir o lamento,
a correnteza de amor, o tormento
quando deveras teu peito os sente

Foste em mim a enxurrada
tornaste meu sangue demente
hoje sou o navegante perdido
na maré de um pranto carente

Sou um crente excomungado
teu modo de amor provou-se ateu.
Para iluminar a saborosa escuridão
usaste do fogo de Prometeu

Dai-me Senhor o amor de cada dia!
e o pão virá em conseqüência...
o coração é minha matéria-prima
Faço poemas e não consciência

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Medida

Nascí preso a uma circunstância:
"O milagre da consciência"
Nos idos de minha infância
com a áurea da inocência,
assim como toda a criança
comecei a fazer ciência

Media passos e polegadas,
o nível da água, a cor do céu...
No meu empirismo de criança calada
descobri com as abelhas o gosto do mel

Fui medindo pelo vasto do mundo
e minha medida aumentando
Tornei-me homem, tornei-me curto,
tornei-me um etéreo pensando

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Sangue Azul



                                                                                                                 Para aquele menino louro

       
          Naquele dia eu estava bem vestido. A barba estava falha, mas isso só deixava mais latente meu jeitinho de romântico burguês. Me vestia de calças pretas, sapatos pretos, malha da mesma cor e em oposição um blazer verde que uma amiga antiga tinha me dado de presente. Punha-me meio poético e errante na grande Avenida Sumaré. Tragava um cigarro e andava por entre o lusco-fusco daquela tarde gelada de Junho, porteira de um inverno danado. Uma amiga me esperava em um bairro próximo e já tinha passado da hora combinada (não sou de me atrasar) morria de ansiedade e pressa. De algum jeito eu precisava atravessar a rua para pegar um ônibus mas me impedia o fato de não encontrar a bendita faixa de pedestres para resolver meu problema.
          Não estava alcoolizado. Permanecia na infelicidade sóbria das seis da tarde de um sexta-feira de trabalho árduo, mas carregava a sede de uma esperança boêmia naquela noite. Precisava tomar um ônibus na outra calçada mas de jeito algum a grande avenida me permitia atravessa-la. Parei , olhei os carros correndo, esperei o sinal fechar, tateei e analisei.
          Lembrei-me então de Agnes Heller. Na época eu tinha lido alguns textos da filosofa sobre alienação (coisa pouca, mas o suficiente para procrastinar por ai). Em algum deles, havia um exemplo sobre o conceito dizendo que se a gente analisar demais buscando ao máximo não nos colocarmos distantes de nossas ações não seria possível atravessar uma rua, pois calcularíamos e chegaríamos a conclusão de que não vale a pena tomar essa atitude, afinal de contas, imaginem só a quantidade de riscos presentes nisso. Concordei com a pensadora. Na vida concreta é preciso atravessar a rua, e resolvi executar a ação.
          Fui andando despretensioso, levantei o nariz e sai por entre os carros na Avenida. Tinha muito transito e o dia escurecia. Passei a primeira faixa, a segunda, a terceira, contornei um ônibus e quando eu estava chegando na outra calçada me deparei com a curiosidade de uma quarta faixa, bem menos larga e vazia; Pensei- "Ué... o que é isso?" até que ouvi lancinante uma buzina. Olhei para a direção do som, enxerguei um foco de luz redondo que se aproximava e senti de supetão um impacto violento que batia contra o meu joelho esquerdo. Pisquei. Quando abri os olhos novamente eu estava voando e girando ao mesmo tempo, vi as luzes dos carros no trânsito que se tornava uma grande pintura impressionista pela fotografia de minha piscadela. Pisquei novamente. E quando abri os olhos meu rosto se aproximava da guia da calçada. Estava a uns dez centímetros, tentei reagir gritando, mas choquei de cara com o pedaço de concreto. Rolei para um dos lados e no ímpeto tentei levantar, mas percebi que minha perna não aguentava. Finalizei o drama despejando-me no chão enquanto tentava me rastejar até o canteiro da avenida.
          Notei então que meu rosto formigava. Toquei meu nariz e o reparei diferente; Ele estava inchado e com um formato esquisito perto do normal. Daí percebi que eu sangrava muito, o blazer verde que minha amiga tinha me dado estava tingido de vermelho e um dos meus sapatos já tinha se perdido em meio aos carros. Reparei então que aquele lugar a onde meu corpo jazia era o "fantástico" corredor de motos fundado na gestão Kassabina da prefeitura de São Paulo; Mais um dos desenvolvimentismos do imperador. Lembrei da Agnes Heller e a culpei.
          Olhei para o lado, vi uma moto caída e um motoqueiro que começava a se levantar. Olhei para o outro lado e vi umas pessoas que corriam dos carros em minha direção. O primeiro a falar comigo foi um homem branco, magro e de cabelos negros:
-Por favor! Não se mexa!-Dizia isso pois eu tentava me rastejar em direção ao canteiro -Eu te vi sendo atropelado, trabalho com justiça. Vou já ligar para o SAMU!
Minha cabeça andava em círculos e eu já não tinha mais tanto discernimento das coisas. Não lembrei o que era o SAMU... Fiquei imaginando um homem imenso que vinha me bater, o Samuel, Sei lá! Morri de medo, disse para o homem não chamar o SAMUCA, insisti dizendo que a culpa era minha. Eu que tinha atravessado no lugar errado e etc. O homem me olhou com uma cara de interrogação... Fui percebendo que não tinha Samuel nenhum... E lembrei que era só o serviço público de ambulâncias.
          De qualquer forma haviam sim alguns Samucas por ali, e vieram mais rápido que o socorro paulistano. O Advogado tinha saído de perto para ligar, cinco motoqueiros aproveitaram a brecha e surgiram de não sei onde para tirar satisfação:
-Se sabe que a culpa foi sua, né mano?
-Sei sim... (Eu dizia amedrontado)
-Se alguém perguntar a culpa foi de quem?
- Foi minha...
E de fato era mea culpa; Mas ainda assim fiquei assustado com aqueles cinco caras em volta de mim me olhando com os olhos em fogo. Quando me deixaram em paz percebi o homem que me atropelou subindo na moto e se mandando sumaré abaixo sentido Parque Antártica. Não liguei para a fuga, era um problema a menos. Hoje não o culpo, sou eu mesmo o culpado, mas me intriga o fato de não ter nem sequer olhado a cara dele. Até hoje ele só me foi um foco de luz redondo e uma buzina.
          O véu da noite já tinha abraçado meu corpo estirado na grande Avenida. Era uma sexta-feira, sete horas da noite, o alvoroço da cidade era imenso e meu sangue se alongava devagar pelo asfalto frio. Começou a garoar e eu comecei a garoar pelos olhos junto com o céu. O advogado voltou ofegante, disse:
-Pronto, o SAMU já está chegando- Percebeu meu choro- Não fique assim não, eu sou advogado, trabalho com atropelamentos e acidentes... Nós vamos pegar aqueles caras, você vai ver!
-O que?- falei saindo da transe
-É, vamos processar esse cara!
- Mas a culpa foi minha oras!
-Mas ele não podia fugir, você tem que processa-lo.
Na hora eu não sabia, mas depois descobri que aquele advogado exercia uma função de abutre, no Brasil tem poucos, mas é muito comum em outros países da América-latina. São advogados que quando vêem um atropelamento tentam botar lenha na fogueira para conseguir tirar uma cascata de um cão ensanguentado.         Enrolei o cabra dizendo que ele podia deixar seu cartão no meu bolso e eu em breve o ligaria.
Ao invés de ligar para ele cometi uma breve ingenuidade de menino de dezessete anos. Liguei para a minha mãe:
-Oi mãe, tudo bom? Não se assuste tá?
-O QUE ACONTECEU? A ONDE VOCÊ ESTÁ? VOCÊ FOI PRESO MEU FILHO? O QUE HOUVE?
Demorei em torno de quinze minutos explicando o ocorrido. Paralelamente ouvia berros, gritos, broncas e gemidos de desespero. Aprendi então que os pais e mães quase sempre dão um jeito de piorar o piorado, mas não digo isso os culpando... O desespero de entender que sua choca foi acidentada é capaz de fazer tremer o coração de uma corujona.
          Em seguida chegou o Samu. Cortaram o tecido preto da minha calça, me encheram de gaze no nariz e por fim me imobilizaram em uma maca. Me despedi do advogado enquanto me colocavam para dentro da ambulância e por fim escutei uma conversa vinda da boca dos enfermeiros:
-Esse ai ta mal hein...
-É, e é só o primeiro, hoje é sexta-feira...
Nesse momento senti um embrulho doloroso no estômago. Era verdade. Fiquei imaginando a quantidade de pessoas que iam ainda se acidentar naquela noite e mais, fiquei pensando a quantidade de gente que aqueles dois enfermeiros iam carregar de um lado para o outro de São Paulo, banhando as mãos de tédio e sangue.      
          A dor que eu sentia era tanta que eu percebi o verdadeiro significado da expressão "sentir na pele". Muitos pensamentos passaram como cavalarias na minha cabeça enquanto eu olhava o teto branco do carro fúnebre. E se eu estiver com algo interno? E se amputarem minha perna? E se cortarem meus dedos fora? Será que eu vou ter que ficar no hospital muito tempo? Eu tenho aula... Eu tenho o teatro...Será que eu vou ficar com cicatrizes permanentes no rosto? Ai meu Deus!  Será que eu vou ter que parar de fumar? Enfim... Pensei tanto que na hora que vi já estava no hospital... A Santa Casa, no centro da Paulicéia. Os médicos me tiravam da maca rumo ao pronto socorro de Traumas e meus pais surgiam quase ao mesmo tempo. Estava entrando na sala e meu pai, me olhando sorrindo disse constrangido:
 -Poxa hem... Bem que você podia ter feito a barba...
          Ri. A risada doeu. Em seguída entrei no hospital e parei de me lembrar de muita coisa... Um enfermeiro negro e alto injetou algo no meu sangue que me chapou terrivelmente... Em diante, somente fotografias: Alguns mendigos passavam mal, meninos de rua machucados, homens amputados, homens com enfisema, senhoras em coma, crianças escorrendo o nariz, paredes  brancas, salas escuras, raio X, barulho de tosse, cheiro de morfina- Gosto de lágrima e sangue de gente fodida. No meio de toda a sinestesia há uma lembrança menos fotográfica. Em algum momento da noite surgiu no TRAUMA um menino de rua louro, cara de Pedro Bala e idade igual a minha.. Naquela madrugada ele tinha escolhido dormir em cima do COPAN por causa do perigo das ruas do centro; Deitou na marquise e acordou espatifado no chão. O menino gritava e olhava para mim. Eu com meu blazer verde, ele com suas roupas rasgadas, eu com meus pais,  ele com o diabo, eu com minha cama, ele com a marquise do COPAN, eu indo encontrar minha amiga, ele tentando fugir do perigo, eu com meus cigarros, ele com seus cachimbos, eu culpando meus pais, ele querendo os dele; Eu e ele juntos, na mesma cidade, no mesmo hospital, na mesma sala de pronto socorro, no mesmo vermelho do sangue... Mas sem outras mesmas coisas... Senti dor e apaguei. De manhã, Pedro Bala não estava mais lá.
          Nessa história toda a onde, por fim, me recuperei em uma semana, levei no corpo somente uma pequena cicatriz na altura do bigode e o resto acabou por sarar em pouquíssimo tempo. Recordo-me das dores no rosto, das dores na perna... Mas todas elas parecem pequenas perto da dor no coração que eu ainda carrego. Dor em ver os olhos daquele menino, dor de classe, dor de fé, dor de Ser humano... Dor paulistana que a gente nem repara mais andando pelo grande turbilhão urbano.

Ontem andei pelo Anhangabaú e toquei minha cicatriz, olhei o cinza do céu e pensei meio abobado... As janelas do COPAN são os olhos dos meninos de rua.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Amor, Insuficiência do Ego.

        Deixo de ser Leonardo, deixo de ser o Noivo e me torno hoje a Noiva, macia e com pescoço de dália, fácil de se cortar.... Só com essa pele de pétala pude entender no corpo as palavras de Garcia Lorca saídas da boca da Noiva em Bodas de Sangue. "Eu não queria, escuta bem! eu não queria! Teu filho era o meu fim, e eu não o enganei; mas o braço do outro me arrastou como um golpe de mar, como a cabeçada de um mulo e teria me arrastado sempre, sempre, sempre (...)". Nessa manhã novembrina, após fundar a lápide de um relacionamento me senti a mulher abrasada cantada pelo poeta espanhol. Isso porque na maior parte das vezes eu não queria estar com " o outro". Sabia, aliás que  era melhor não estar. As vezes pensava- Oras, mas ela tem muitas travas! deve ser só amor de ocasião- Mas percebi no meu jeito de noiva posteriormente que  não era amor de ocasião, o que eu sentia era amor... Amor de verdade. Por mais que eu não quisesse, aquela menina era " o outro", sentia dela a cabeçada de um mulo, o golpe de mar que levou a noiva, o imã equivocado que atrai os opostos e eu, não passava de um cão que abaixava as orelhas e aceitava voltar, lambia os pés e me punha patético perto de minha "dona". Mas nem assim funcionou. Nem eu nem ela suportamos a tempestade dos nossos olhos... Mas eu me pergunto: Será que suportaríamos uma só gota de lágrima? Pois no fundo, sei que o que gostamos mesmo é de emergir de uma maré salgada.
       O amor existe, mas não funciona. Temos o combustível mas a máquina está quebrada... Daí não vai para frente, afinal de contas  um carro não anda só com seu combustível. Fico pensando... Logo eu que não acredito direito em Deus! Logo eu que não acredito direito em Marx! Logo eu que só acreditava no amor. Fui traído pelo destino que mais uma vez não me foi carinhoso. Só amor não basta? Talvez não baste. Enchi meu peito de cicatrizes sorridentes, tornei-me contínuo e perpétuo arrastado entre as brasas que arrancavam minha pele no labirinto de um amor menino (amor impossível). Degustei da sensação dolorosa de perder-me entre os dentes do afeto sem suportar o que é concreto em um relacionamento e me entreguei mudando meus hábitos pueris. Não funcionou. A máquina não funcionou. Hoje entendo- Só amar basta pouco.
       O que será que será essa coisa que não sei botar em palavras? Nós abríamos a boca e o mundo se desmoronava, mas a bandeira luminosa celeste regia nosso corpo sobre o corpo do outro e nós finalmente nos entendíamos. Nosso entendimento existia em um âmbito que fazia o milagre divino da consciência incapaz de torna-lo possível. Pois é... Nada basta para nós... Percebi que o ego é capaz de sobrepor esse sentimento. Pois nem eu nem ela cedemos ao amor e, talvez, seja mesmo o certo a ser feito. Mas ainda assim, mesmo sendo certo acabar, sendo certo sofrer pelo ego... Eu, na minha ingenuidade apaixonada ainda me percebo a noiva. E garanto que, se em em meu casamento ela surgir, eu mesmo vou preparar os cavalos para corrermos juntos até a floresta escura a onde a morte nos chama.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Paixão de Imã

Os opostos são pontas da ferradura
e não pontos distantes em uma reta
Por exemplo:  Frieza e candura
formas distintas de uma mesma meta

Hoje amo entre polos iguais
se me aproximo, foge o outro
Me acostumei aos eternos umbrais
dos encontros e dos desencontros

Ainda assim me sinto pequeno
ao assumir uma paixão polarizada
pois meu amor não vive no extremo
meu amor é uma bússola calada

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Ares de Segunda-Feira

Na regra sudestina
O Domingo é mineiro
O Carioca está pela Sexta
e o Capixaba, no meio termo,
fica entre a Quarta e a Terça

Vou pé ante pé pelos não-lugares
da cidade avoada em besteiras
sinto tédio de nós paulistanos
temos ares de Segunda-feira

Paulicéia porão do mundo
é sério teu olhar financeiro
invocaste o pranto da besta
que garoa em teu povo ermo

Livrai-te São Paulo do mal
Livrai-te da Light Pai Tietê!
Usas teu ódio mais profano
mas eu torno a rezar por você

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Marco Zero

Praça da Sé,
Marco Zero de minha história
impõe tua fé, impõe tua glória
para quem repousa aos teus pés

Cruz da catedral,
não foste feita de vitória
tua madeira é o corpo sedento
pintada de sangue e tormento
dos que dormem em tuas solas

Coma vagabundo!
O pão que o padre amassou
dormirá na saída da missa
coberto de culpa e preguiça
das pragas que o rico rogou

Praça da Sé,
Sobre o Marco Zero das horas
O Barão de café e a Carola
entopem-se de canapés

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Poema moderno/eterno.

É eterno ser moderno
essa é a perpétua prisão
algemado pela linha do tempo
entre as grades da contradição
e o cárcere do argumento

Sou o sujeito.
Póstumo a Deus e a Galileu
com o livre-arbítrio em meu tormento
nego meus dogmas de ateu

Busco um corpo vitruviano
que gire em torno do meu peito
por isso me proclamo um coracêntrico
nas batidas do meu ritmo humano

Sou o sujeito.
Sou Dante, Raskólnikov, Quixote
Sou o Príncipe da Dinamarca
e o eurocêntrico inferno
catequizado pelo monarca



Agora entendo!
O quão moderno é pretender ao eterno...

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Olhos de progresso.

                                                                                                                 Para o Pedrão; Trovador de Pinheiros


          Em nostalgia as batidas de perna pelo bairro de Pinheiros, na Zona Oeste de São Paulo, resolvi em um sábado dar voltas por aquelas ruas de minha vida, acompanhado pelo meu velho companheiro de caneta, prosa e mesa, Pedro Augusto Pinto (patriota nativo do distrito). Flanamos como o nosso velho costume dita, percebendo as atrocidades que o "novo" é capaz de provocar e observando a saudade das histórias que existem em cada tijolo demolido do velho bairro. Progressismos à parte, sei meu leitor, que pode soar de um conservadorismo burguês e cristão, mas atentem-se ao nosso pranto sincero e humano- Dói demais ver um bairro mudar! Tuas figuras se apagam na solidão dos apartamentos, teus lugares tornam-se não-lugares e tua fantasia se torna a realidade cinzenta de um urbanismo descartável.
          Pedrão parafraseou Caetano e Torquato sabiamente em uma das suas ultimas crônicas "Ai de ti Largo da Batata!" Ai de ti Pinheiros! Ai de ti São Paulo! Ai de mim... Onde estão suas mesas na calçada? A onde estão seus poetas de viaduto? A onde estão seus boêmios vendo a rua passar? A onde estão seus padeiros? Seus floristas, suas vizinhas fuxiqueiras, suas carolas, sua feira, seus estudantes, a onde estão? Na feira não se pode mais gritar e seus estudantes hoje tem os corações batendo no ritmo da música eletrônica, imperialista, enfadonha e repetitiva. As casas se tornaram obsoletas, os bares muito antiquados; Nascem prédios como se fossem trepadeiras, nascem boates como se fossem capim santo e de súbito, em menos de uma década um belo bairro é esmagado como se fosse um Pernilongo, ou melhor, não é esmagado... É verticalizado.  Ai de ti minha São Paulo! Ai de ti pai Tietê! Ai de mim... Acabaste com teu horizonte e tornaste teus poetas obsoletos.
          Naquela tarde de nostalgia eu e meu parceiro resolvemos resistir fazendo exatamente como sempre fizemos, procrastinamos filosofia moderna e poesia caminhando pelas calçadas do "novo" bairro. Em meio ao bate perna, Na Fradique Coutinho entre a Cardeal Arco-Verde e a Rua Teodoro Sampaio encontramos um botequim simpático, com mesas na calçada. Sentamos e olhamos o movimento... Aos poucos o Pedrão começou a cantar um samba de Noel Rosa e eu com um isqueiro e a garrafa de cerveja fui marcando o ritmo da música:
"O Amor vem por princípio, ordem por base
o progresso é que deve vir por fim
desprezaste essa lei de Augusto Comte
e foste ser feliz longe de mim"
          Mais um e outro gole de cerveja, duas ou três gargalhadas, algumas olhadas pela rua e a tristeza dos meus olhos que vagavam pela saudade. Na mesa do lado dois sujeitos conversavam. Um deles vestido de novo-rico, cabelo batido, cara de árabe... O outro bem simples, feições de nordestino, camiseta regata, e  sorriso na cara. Bebericavam cerveja, mas ao ouvir o samba o sujeito mais abastado de repente interrompeu nossa música e falou para o Pedrão:
- Ê rapaz! você gosta de samba? Sabia que meu pai ganhou o samba enredo da Rosas de Ouro há um tempo atrás?
- É mesmo? Que bacana! Não entendo muito de samba enredo, gosto mais desses sambas antigos...
Daí o papo se engrenou, o sujeito mais simples só murmurava uma e outra palavra, o mais abastado era mais sério, conversava com grandes ares sobre o samba de seu pai. O nível da bebedeira foi crescendo e lá pelas tantas nós todos já estávamos um pouco bamboleando. Como um bom bêbado, o figura que tinha jeitão de novo-rico,  resolveu reforçar há quanto tempo vivia naquele bairro e o quanto o conhecia:
- Meu pai tem loja aqui há mais de vinte anos! Temos uma loja de móveis na Teodoro Sampaio!
Lembrei que loja que era. Umas dessas construções riquíssimas e violentas que tomaram a Teodoro. Me preparei, apontei e agulhei:
-Pois é... As coisas mudaram muito aqui, né?
O homem me olhou, o álcool parou na garganta, ele sabia do que eu estava falando, mas não ficou agressivo e em um tom professoral, começou:
- É... Veja bem... A coisa funciona assim...
          Nessa hora eu não ouvi bem o que ele falava. Tinha a ver com o preço do aluguel da loja de móveis e com o salário de seus funcionários, algo a ver com a ascensão que o progresso tinha lhe causado, enfim, não lembro direito... Fiquei somente admirando o modos operandi daquele bêbado novo-rico. Repare, meu caro leitor, o quanto é incrível  esse trejeito dos bêbados, toda a vez que algum assunto de maior polêmica ou seriedade surge na mesa do bar, o ébrio é sempre o primeiro a se impostar com ares de professor e dizer com uma propriedade academicista o como “a coisa”  funciona, desde o sentido da vida até o funcionamento de uma mera loja de móveis.
-Hmmm... Entendi- Respondi sereno; Mas o homem não parou, continuou contando e contando do salário de seus empregados, do quanto eles ganhavam, o quanto ele conseguia tirar de um e de outro e etc, etc, etc.
De repente, o sujeito que estava murmurando ao lado do novo-rico soltou- Libanês é fogo! Vocês acreditam que além de fazer isso com os empregados dele esse filha da puta tem três mulheres!?
O outro se enraiveceu, mas se segurou no seu tom formal:
-É veja bem... A coisa funciona assim... Meu pai sempre me ensinou que eu posso ter quantas mulheres eu quiser é só dar a mesma vida para todas. O Corão permite.
O sujeito mais simples disse:
- Mas você está no Brasil pô... Já sei! Eu quero é ser Libanês!
          O primeiro tentava se explicar, mas o segundo não deixava, ficava repetindo só para irritar- Eu quero ser Libanês! Eu quero ser Libanês! Eu quero ser Libanês! Nós riamos para dedéu, o sujeito tinha quebrado as pernas do novo-rico... O Pedrão, com sua ironia casual aproveitou a deixa e disse:
- Mas não precisa ser Libanês para isso não! Meu avô, por exemplo, era alagoano e fazia a mesma coisa!
O Libanês começou a ficar meio bravo, pediu licença, levantou, pagou a conta e foi para a loja de móveis. O sujeito mais simples, ainda dando risada e repetindo que queria ser libanês, também se levantou e foi embora. Nós ficamos... Mas foi pouco tempo, uns cinco, dez minutos, sei lá... E depois caminhamos mais.
          O que fiquei mais espantado naquela tarde foi que o Libanês era o próprio progresso oportunista. Não largava as tradições que lhe convinham, mas ao mesmo tempo defendia a ascensão de sua loja de móveis. Pois bem... Esse Libanês é o próprio Pinheiros, Pinheiros é a própria São Paulo, e essa minha dura Paulicéia, ai... É o próprio Brasil caminhando em cima do muro. De um lado pesca o que é velho, do outro a busca é pela novidade. Ai minha terrinha... Como tuas ações são oportunas! Não mantém tua poesia, mas mantém tuas tradições religiosas, mantém teus comércios violentos, mantém teus prefeitos monarquistas, mantém tua desigualdade social.... As navegações nos traíram, a revolução também. Flanamos entre os viadutos e construções que se tornaram nossa terrinha...Ai minha terrinha garimpeira! Não caminhas buscando o homem, caminhas buscando o ouro.