domingo, 16 de setembro de 2012

Amar e endurecer/Conversa com o Espelho.

                                                                                    Aos meus companheiros de viaduto

       Olhei para o espelho na manhã de ontem e pensei:
-Não dou mais para poesia, hoje sou um tiquinho d'água. Logo eu que sempre fui o rio cheio de charcos, logo eu que sempre fui os ramos que puxavam, logo eu que era a tal cabeçada de um mulo que levou a noiva para a floresta escura, logo eu que nunca daria filhos e uma vida tranquila. Eu que sempre fui das cachoeiras a queda mais alta, eu que sempre fui a correnteza amedrontadora, eu que sempre fui o maremoto destruindo o barcos do meio caminho, eu que sempre fui a parte mais abissal do mar... Eu era a perdição. Fazia o chão de meus amores rachar ao meio, roubava as donzelas, matava dragões e agora... Agora eu me tornei, sem saber como um tiquinho d'água.
       Não sou mais Leonardo, agora sou o Noivo. Diurno e aterrado nos meus sonhos de futuro, sem nome... Só noivo. Vivendo para ser noivo, comendo como noivo, fazendo deveres de noivo, preparando as bodas para o orgulho de mamãe. Tiquinho d'água... ai tiquinho d'água que sou!
O reflexo respondeu:
-Toma vergonha rapaz! Levanta essa cabeça que tua barba já cresceu! O que há de mal em ser o noivo? Cumprir com os regrados deveres de noivo? Você agora deve zelar, amar, respeitar, acolher, buscar em casa, levar em casa, cuidar na bebedeira, ser compreensivo, entender, vestir o pijama! ai o pijama... Eduardo Marciano te avisou- Deus, livrai-me do pijama!- e você não escutou, melhor, você escutou bem e isso só te deu mais vontade de ser o Noivo para poder escrever um romance que nem o Sabino... Você não passava de um poetinha de quinta! Você não passava de um intelectualóide de mesa de bar, a única coisa que te dava a felicidade era puxar angústia embriagado de ego em cima de viaduto junto com teus camaradas... Mas e agora? Cadê teus camaradas? Cadê tua angústia? Cadê o ego? O Viaduto desabou e você ficou olhando. Hoje você só trabalha e não encontra nem tempo para ser noivo... Imagina só para ser camarada! Ou para ser poeta, ou para ser intelectualóide de mesa de bar.
          Eu olhei choroso:
-Minh'alma tiquinho d'água não dá mais para poesia...
Ele respondeu:
- Ai, como você é insuportável! "minh'alma tiquinho d'água não dá mais para poesia", ainda se dá ao luxo de ser dramático e tentar fazer poesia admitindo que não é mais poeta. Agora você é um noivo. Contente-se com tua posição, pois se contentar é o que fazem os não poetas, e é isso que você é... Um tiquinho d'água, um apoeta. Um Ator. É, um ator... Não dramaturgo, não diretor, não cenógrafo, você é um ator e ouviu a pouco tempo que o trabalho do ator está mais ligado ao de um pedreiro do que de um mestre de obras. Contente-se sendo um ator. Pois já é coisa demais(e gente adulta não pode ser muito). Você já é o Noivo e o Ator e chega, já está bom. Acabou por aí. Na palavra amadurecer o sufixo é a rigidez e o prefixo é o amor. Ame endurecer, ame limitar-se a não-poesia (que isso não dá dinheiro), ame limitar-se a uma só e não aos grandes e mais grandes amores que você viveu em teu passado de orgias e angústias, ame a formalidade do encontro com teus camaradas encharcados de nostalgia. Ame endurecer.
          Divaguei:
- É, é como disse o Pedrão "A tarde passa,  o porre passa, os quinze anos passam, São Paulo também passou e nós ficamos aqui em silêncio". Ai silêncio que me persegue, balançando na rede da minha casa de frente para a tela branca enquanto a tarde se põe. Mas que não se ponha... Por favor! Que pare de se por agora. Não quero que mais nada passe. Pois o passado fica, ai se fica... A verdade é que com ela é o mesmo. Não quero que passe nossos lençóis amarrotados de paixão, não quero que a Cotovia cante de manhã alertando que devo ir embora. Quero estar com ela. O que quero é ser Noivo, cansei de ser Leonardo, essa máscara já não cabe mais no meu rosto. Não devo nada, não devo cumprir as obrigações de noivo. Faço-as porque amo fazê-las e não sou um apoeta por isso. Vou ser sempre poeta, noivo ou não a poesia me convence e é a minha verdade. Mais do que as bodas, mais do que os camaradas, mais do que o viaduto, mais do que o palco, mais do que o orgulho de mamãe... É ela, é a poesia. Eu posso ser um tiquinho d'água. Mas a poesia... Ai a poesia é o rio cheio de charcos.
O reflexo concluiu:
- Acho que você fez um pouquinho de poesia.

Um comentário:

  1. Legal a ideia do diálogo com o espelho... as imagens são lindas, como sempre, embora na minha chatice ache que esse texto tem imagens demais... quanto ao tema não preciso falar nada, preciso?

    "Oh, como ele então era inocente! Deus rejeita os inocentes: não servem para nada. É preciso se perder primeiro, para depois se salvar. Antes, resistir bastante, para que a queda seja completa. Escarrapachar-se no chão, quebrar a cabeça. Pôs-se a rir: este era o privilégio do homem. Um direito, o direito de escolher. Um direito, ouviu? Deu um tapa nas costas da mulher."

    Ando católico esses dias.
    Ah, obrigado pela citação. Estou, de fato, ficando velho.
    E aumente a epígraphe.

    Um beijo do Pinto

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