quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Três Filhas

                                                                                                              Dedicado às filhas de minha avó

          Eram três filhas. Três pequenas meninas que cresceram sob os lençóis passados por aquela Senhora. Senhora cuidadosamente mãe, Senhora regradamente de batalha, Senhora filha de São Lázaro e de todo seu sofrimento. Casou-se aos dezessete anos com um Homem de trinta e cinco cuja história antes desse caso nunca foi conhecida (eu mesmo, autor desse conto, não sei nada sobre ele). Aliás, a história desse Homem só começa na tarde de Agosto em que ele entrou na casa dessa Senhora ao lado do pai dela. Serviram café, bolo de fubá, e no fim da tarde o mandaram escolher a mulher que o acompanharia dali até o fim de sua vida. Ela foi escolhida. Amor à primeira vista? Amor depois de muitas vistas. Não vou dizer que ela não o amou, ou vice versa, mas vamos lembrar que os mais adaptados sobrevivem e depois de cinquenta anos de esforço na vida a dois a gente aprende a amar com a mesma facilidade que a gente aprende a odiar.
          Você agora deve estar pensando "Que terrível!", "Que horror!", mas não me pare nesses julgamentos. Lembre-se que não é de hoje que o casamento se tornou uma relação de negócios entre duas famílias. Bom... Se olharmos por um lado, nesse caso a aplicação do ritual foi  muito mais coerente do que muitos casamentos encharcados de desculpas de sentimentalismo que ainda ocorrem hoje em dia, Não é? Mas, enfim, estou divagando, vou voltar a falar da Senhorinha e de suas três filhas.
           A primeira filha nasceu quando a Senhora ainda era nova. Aprendeu a cozinhar desde cedo, vendo a mãe e as tias picando alho e cebola na boca da pia. Não demorou muito e era ela quem cozinhava nos almoços de domingo... Tanto que quando não era ela, toda a família se doía no estômago de saudade dos seus pratos amorosos. Era daquelas pessoas que nasceram para acarinhar e cuidar dos outros, uma natureza típica das vovós e das titias. Cresceu, começou a cursar a faculdade, mas largou para casar-se... Não demorou até mais tarde ser abandonada pelo marido. Daí não tinha jeito, acabou não ascendendo, continuou vivendo nas quebradas do mundaréu, mas tocou a boiada vingando na sua natureza de avó e tia. Por exemplo, na velhice ensinava a molecada da rua da frente a ler e depois se juntava com sua vizinha para falar da rua inteira, fazendo fuxico e contando da vida. Sempre foi católica, mas mais tarde se apegou ao terço e passou a rezar bastante. O pó branco da velhice já ia pintando seus cabelos, passou então a se dedicar inteiramente a criação de um neto lindo, que deu frutos ao mundo com sua bondade de espírito sempre viva nos filhos de vó.
          A Segunda filha nasceu com a senhora nova também. Mas já meio madura... Já tinha criado dois filhos e sabia o que fazer.  A menina sempre foi do tipo que gostava muito de estudar, era a primeira da sala, usava daqueles óculos garrafais imensos de quem lê demais desde pequenino. Agarrou a caneta, estudou, estudou e estudou tanto que conseguiu entrar em Medicina. Aos poucos, em meio a efervescência política dos anos de chumbo se tornou comunista, panfletária, crítica, agressiva e justa. Como pode ver, ela também nasceu para cuidar dos outros, mas de outro jeito, queria cuidar da banda geral, nasceu para acarinhar a gente da sua gente. O povo que nasceu na batalha e no limbo, perto do lixo e da opressão de gente rica e poderosa. O tempo passou,  veio a abertura política, veio a podridão debaixo do pano, uma democracia dos ricos escondida na aba do politicamente correto. Desiludida, largou a luta vermelha e encontrou uma luta espiritual. Com o tempo foi deixada pelo marido também. Aguentou e resistiu abraçando o budismo e a Yoga, por fim conseguindo criar quatro filhos lindos, amantes da arte e dos seres-vivos.
        A terceira filha nasceu quase vinte anos depois das outras duas irmãs. A Senhora já estava um pouco velha, mas apesar de cansada sabia cuidar de mais uma menina. Essa menina já foi diferente, se tornou a mistura de todas as outras... Sempre estudiosa e caseira, cozinhava e lia, lia e lia que nem maluca tudo o que era livro na frente dela. Resolveu cursar Arte. Os pais não entendiam o que era esse curso, mas já se punham cansados demais para contestar sobre isso; A menina botou a mala nas costas e foi morar com a segunda irmã e, obviamente, sem muita demora virou comunista. Mas foi rápido. Decidiu que o melhor jeito de cuidar dos outros era virando professora, assumiu isso no peito e deu vinte anos de aulas de arte em escolas públicas. Teve a primeira filha cedo, voltou a viver com a mãe na casa em que cresceu. Batalhou duro e colheu os frutos de sua peleja se tornando uma professora Universitária. Foi também abandonada pelo marido e teve que aguentar com sua força o aprendizado de viver sozinha. Mas superou, se apegou ao espiritismo e se consagrou criando dois filhos atuantes da arte e da igualdade social.
          A vida foi levando a senhora e essa três meninas. As três já nem se viam muito... Era raro, uma vez, duas vezes, três vezes por ano no máximo. Se viam quase sempre para agradar a Senhora em festas comemorativas, natal, ano novo, festa de aniversário, ou mesmo apelando para visitinhas básicas e ponderadas. Cada uma foi levando do seu jeitinho, às vezes, refugando uma a outra, ás vezes, esquecendo o quanto em sua estrutura eram iguaizinhos. Mas continuaram se amando... se amando de longe, pois, ás vezes, a vida leva a gente para longe.
          Aquela Senhora, mãe dessas três meninas, foi uma ótima esposa até o dia em que, afetado por um câncer, na altura da velhice o Homem morreu.  Teve mais muitos filhos fora as três. Dois falecidos, um morreu recém-nascido, outro na lira de seus vinte anos. O pai dela se suicidou cedo, provavelmente por dívida de jogo. A senhorinha resistiu. Aos setenta anos criou os netos na mesma casa em que criou os filhos; Casa que depois de tanto tempo já estava caindo aos pedaços e a filha que ainda morava lá não tinha um tostão furado para reformar, depois de fazer um pé de meia, a filha se mudou e levou os netinhos. Os outros filhos cheios de boas intenções tiraram a senhora da casa e a colocaram em um apartamento a onde ela poderia ter mais tranquilidade. Como solução a casa, reformaram... Mas reformaram tanto que transformaram em um estacionamento. Não muito tempo depois a cólera guardada pelos oitenta anos de vida dessa senhora manifestou-se em um câncer no estômago, e ela padeceu.
          Pois bem, era a hora. Era esse o momento em que as três iriam retribuir a criação de sua mãezinha. Não foi diferente. Retribuíram. A filha caçula, depois de ter sido abrigada tantos e tantos anos na casa da mãe, colocou a senhorinha dentro de sua casa, na sala de jantar, montando um quarto de hospital com biombos e tubos, porém, com mais cuidado e carinho do que os quartos hostis dos hospitais públicos. A filha do meio, veio de outra cidade para passar alguns meses ao lado da mãe enferma, era médica e sabia como ajudar. A filha mais velha veio para ser quase enfermeira naquele fim de ano que a senhora padeceu e, sabia como distrair a mãe com suas conversas e lembranças. A Senhora estava magra, com uma barriga inchada, com os olhos mais verdes do que nunca, tendo que botar goela abaixo aquela papa amarela que davam para ela comer... O estômago não funcionava mais, não tinha como se alimentar, era sofrer, cuidar e resistir. Mas não tinha problema, se alguém sabia o  verdadeiro significado dessas palavras; Esse alguém era ela.
          Foram três meses em que na noite escura ela gemia de dor pelos corredores da casa. As filhas perguntavam:
-Mamãe, você está com muita dor?
-Não, minha filha, não estou sentindo dor nenhuma.
 Mas aqueles gritos que ela deixava escapar enquanto dormia condenavam que, na verdade, a senhorinha só não queria dar trabalho para ninguém. A vida inteira ela não tinha dado trabalho... Porque o faria agora?  Em uma madrugada de Janeiro que ela gemeu demais, pediu ajuda, disse que estava com dor e quis ir ao médico. Ela ia morrer. Mas sei que ainda não tinha assumido isso para si mesma. Foi para a ala hospitalar e passou quase um dia inteiro desacordada na cama sem ceder. As três meninas, todas quietas se punham em volta da cama. A primeira filha rezava o pai nosso, a segunda rezava um mantra budista e a terceira fazia uma prece kardecista. Uma áurea lilás subiu por cima da cama em meio a todo aquele burburinho e, em um suspiro quebrado ao meio, a Senhora morreu.
          A vida continuou. A vida tem que continuar... Mas nos olhos negros dessas três meninas agora há o tempo de chuva trovejado por aquela Senhora. É da chuva a vida dessa Senhora, é do vento a vida das minhas tias, é do trovão a vida de minha mãe... Eu fui criado pelas noites de temporal. Quando chove sei que a água está em mim, é ela que encharca as minhas palavras. Na ventania vejo as minhas mulheres. Mas elas não são minhas, eu que sou delas, eu que sou do vento.

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