quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Olhos de progresso.

                                                                                                                 Para o Pedrão; Trovador de Pinheiros


          Em nostalgia as batidas de perna pelo bairro de Pinheiros, na Zona Oeste de São Paulo, resolvi em um sábado dar voltas por aquelas ruas de minha vida, acompanhado pelo meu velho companheiro de caneta, prosa e mesa, Pedro Augusto Pinto (patriota nativo do distrito). Flanamos como o nosso velho costume dita, percebendo as atrocidades que o "novo" é capaz de provocar e observando a saudade das histórias que existem em cada tijolo demolido do velho bairro. Progressismos à parte, sei meu leitor, que pode soar de um conservadorismo burguês e cristão, mas atentem-se ao nosso pranto sincero e humano- Dói demais ver um bairro mudar! Tuas figuras se apagam na solidão dos apartamentos, teus lugares tornam-se não-lugares e tua fantasia se torna a realidade cinzenta de um urbanismo descartável.
          Pedrão parafraseou Caetano e Torquato sabiamente em uma das suas ultimas crônicas "Ai de ti Largo da Batata!" Ai de ti Pinheiros! Ai de ti São Paulo! Ai de mim... Onde estão suas mesas na calçada? A onde estão seus poetas de viaduto? A onde estão seus boêmios vendo a rua passar? A onde estão seus padeiros? Seus floristas, suas vizinhas fuxiqueiras, suas carolas, sua feira, seus estudantes, a onde estão? Na feira não se pode mais gritar e seus estudantes hoje tem os corações batendo no ritmo da música eletrônica, imperialista, enfadonha e repetitiva. As casas se tornaram obsoletas, os bares muito antiquados; Nascem prédios como se fossem trepadeiras, nascem boates como se fossem capim santo e de súbito, em menos de uma década um belo bairro é esmagado como se fosse um Pernilongo, ou melhor, não é esmagado... É verticalizado.  Ai de ti minha São Paulo! Ai de ti pai Tietê! Ai de mim... Acabaste com teu horizonte e tornaste teus poetas obsoletos.
          Naquela tarde de nostalgia eu e meu parceiro resolvemos resistir fazendo exatamente como sempre fizemos, procrastinamos filosofia moderna e poesia caminhando pelas calçadas do "novo" bairro. Em meio ao bate perna, Na Fradique Coutinho entre a Cardeal Arco-Verde e a Rua Teodoro Sampaio encontramos um botequim simpático, com mesas na calçada. Sentamos e olhamos o movimento... Aos poucos o Pedrão começou a cantar um samba de Noel Rosa e eu com um isqueiro e a garrafa de cerveja fui marcando o ritmo da música:
"O Amor vem por princípio, ordem por base
o progresso é que deve vir por fim
desprezaste essa lei de Augusto Comte
e foste ser feliz longe de mim"
          Mais um e outro gole de cerveja, duas ou três gargalhadas, algumas olhadas pela rua e a tristeza dos meus olhos que vagavam pela saudade. Na mesa do lado dois sujeitos conversavam. Um deles vestido de novo-rico, cabelo batido, cara de árabe... O outro bem simples, feições de nordestino, camiseta regata, e  sorriso na cara. Bebericavam cerveja, mas ao ouvir o samba o sujeito mais abastado de repente interrompeu nossa música e falou para o Pedrão:
- Ê rapaz! você gosta de samba? Sabia que meu pai ganhou o samba enredo da Rosas de Ouro há um tempo atrás?
- É mesmo? Que bacana! Não entendo muito de samba enredo, gosto mais desses sambas antigos...
Daí o papo se engrenou, o sujeito mais simples só murmurava uma e outra palavra, o mais abastado era mais sério, conversava com grandes ares sobre o samba de seu pai. O nível da bebedeira foi crescendo e lá pelas tantas nós todos já estávamos um pouco bamboleando. Como um bom bêbado, o figura que tinha jeitão de novo-rico,  resolveu reforçar há quanto tempo vivia naquele bairro e o quanto o conhecia:
- Meu pai tem loja aqui há mais de vinte anos! Temos uma loja de móveis na Teodoro Sampaio!
Lembrei que loja que era. Umas dessas construções riquíssimas e violentas que tomaram a Teodoro. Me preparei, apontei e agulhei:
-Pois é... As coisas mudaram muito aqui, né?
O homem me olhou, o álcool parou na garganta, ele sabia do que eu estava falando, mas não ficou agressivo e em um tom professoral, começou:
- É... Veja bem... A coisa funciona assim...
          Nessa hora eu não ouvi bem o que ele falava. Tinha a ver com o preço do aluguel da loja de móveis e com o salário de seus funcionários, algo a ver com a ascensão que o progresso tinha lhe causado, enfim, não lembro direito... Fiquei somente admirando o modos operandi daquele bêbado novo-rico. Repare, meu caro leitor, o quanto é incrível  esse trejeito dos bêbados, toda a vez que algum assunto de maior polêmica ou seriedade surge na mesa do bar, o ébrio é sempre o primeiro a se impostar com ares de professor e dizer com uma propriedade academicista o como “a coisa”  funciona, desde o sentido da vida até o funcionamento de uma mera loja de móveis.
-Hmmm... Entendi- Respondi sereno; Mas o homem não parou, continuou contando e contando do salário de seus empregados, do quanto eles ganhavam, o quanto ele conseguia tirar de um e de outro e etc, etc, etc.
De repente, o sujeito que estava murmurando ao lado do novo-rico soltou- Libanês é fogo! Vocês acreditam que além de fazer isso com os empregados dele esse filha da puta tem três mulheres!?
O outro se enraiveceu, mas se segurou no seu tom formal:
-É veja bem... A coisa funciona assim... Meu pai sempre me ensinou que eu posso ter quantas mulheres eu quiser é só dar a mesma vida para todas. O Corão permite.
O sujeito mais simples disse:
- Mas você está no Brasil pô... Já sei! Eu quero é ser Libanês!
          O primeiro tentava se explicar, mas o segundo não deixava, ficava repetindo só para irritar- Eu quero ser Libanês! Eu quero ser Libanês! Eu quero ser Libanês! Nós riamos para dedéu, o sujeito tinha quebrado as pernas do novo-rico... O Pedrão, com sua ironia casual aproveitou a deixa e disse:
- Mas não precisa ser Libanês para isso não! Meu avô, por exemplo, era alagoano e fazia a mesma coisa!
O Libanês começou a ficar meio bravo, pediu licença, levantou, pagou a conta e foi para a loja de móveis. O sujeito mais simples, ainda dando risada e repetindo que queria ser libanês, também se levantou e foi embora. Nós ficamos... Mas foi pouco tempo, uns cinco, dez minutos, sei lá... E depois caminhamos mais.
          O que fiquei mais espantado naquela tarde foi que o Libanês era o próprio progresso oportunista. Não largava as tradições que lhe convinham, mas ao mesmo tempo defendia a ascensão de sua loja de móveis. Pois bem... Esse Libanês é o próprio Pinheiros, Pinheiros é a própria São Paulo, e essa minha dura Paulicéia, ai... É o próprio Brasil caminhando em cima do muro. De um lado pesca o que é velho, do outro a busca é pela novidade. Ai minha terrinha... Como tuas ações são oportunas! Não mantém tua poesia, mas mantém tuas tradições religiosas, mantém teus comércios violentos, mantém teus prefeitos monarquistas, mantém tua desigualdade social.... As navegações nos traíram, a revolução também. Flanamos entre os viadutos e construções que se tornaram nossa terrinha...Ai minha terrinha garimpeira! Não caminhas buscando o homem, caminhas buscando o ouro.

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