domingo, 25 de novembro de 2012

Poesia Culpada

Sinto culpa por roubar
sou culpado por trair
me culpo por matar
e até por iludir.
Torno a pagar me ferindo
criando chagas
vestindo espinhos
Mas não vou seguir permitindo
sentir culpa pelo que tenho sentido

Da masmorra dos meus pecados
enxergo as tochas dos meus fantasmas
carregam consigo um fruto cortado.
                                                                                    É meu coração fincado em espadas

Mas eu não me entrego!
continuo em cativeiro
o amor tornou me cego
e repleto de furos nos seios

Amei, e de fato amei
mas feito poeira o amor se danou
restaram poemas borrados
versos de pé quebrado
e rimas que o vento levou

Até que ponto
devo culpar-me
e responsabilizar-me
por quem eu cativo?
se o amor se foi
com ele vou eu
e mesmo que eu jure
perante a Deus!
só juro enquanto ele é vivo.

sábado, 24 de novembro de 2012

Conclusão

                                                                                                   A meu eterno enigma de olhos azuis...
                                                                                                         (Para ler escutando "Regra Três)


         Espero... É claro que eu espero! Ainda não cheguei ao nível de me sentar a toa em mesa de bar sem ninguém, vendo desfile de mulher calçadeira... Estou aqui em uma boa missão: Aguardar alguns amigos para comemorar um aniversário e relembrar os tempos de colégio e puberdade. Beberemos que nem porcos, tocaremos um samba daqueles e, por fim, tenho a certeza que vamos terminar a noite mais cedo do que antigamente... Hoje em dia as coisas mudaram. As namoradas, os namorados, o trabalho, a lei do psiu, a vida atual e o tédio que ela virou chamam mais alto do que a saudade dos companheiros. 
          Mas enquanto esses amigos não chegam me pego sozinho olhando a tradicional esquina a onde passei boa parte de minha adolescência. Sentado aqui, na mesma cadeira de plástico, na mesma mesa, no mesmo boteco, sinto-me velho olhando em frente aos meus olhos uma espuma quente de cerveja. Uma cerveja igualzinha a mim morrendo de braços dados a temperatura da rua.
          Eu já estava aqui antes dessa longa espera. Eu sempre estive aqui... Percebo que por esse motivo a cerveja ficou quente; O que fazer com ela? Dadas as circunstâncias, chego a uma conclusão- O negócio é mandar para dentro!- Viro o restinho do líquido e me pego divagando confuso sobre o que me ocorreu a cinco minutos... Algo que imaginária?  Olha, pode até ser que eu imaginasse... Mas imaginar antes de acontecer podia gerar muitos machucados e confusões e eu, no auge dos meus vinte anos, já me sinto velho para sofrer por amor. Pois nessa vida, ai... Como sofri por amor! E principalmente pelos amores platônicos.
          Veja você...  Na tarde de hoje sai de casa sem esperar mais nada. Ia encontrar uma amiga de tempos de escola no fim do dia. Não tinha reais pretensões, seria naquele mesmo bar, beberíamos uma cerveja, conversaríamos, ela iria embora e eu ia acabar comemorando o aniversário que me esperava junto com o pessoal das antigas, com o mesmo tédio e desesperança de sempre... Que coisa não é? Não havia passado pela minha cabeça a possibilidade do que me viria a acontecer. Uma faísca de esperança? Uma conclusão? Enfim... Estou sendo egoísta, deixem me contextualizar:
          Aos quinze anos eu era a peste em um corpo púbere. Cometi Deus lá sabe quantos pecados e perversões. Usei tudo quanto era droga, bebi do ralo podre, comecei a fumar, não ia na aula, me deitava sabe se lá com quem, reclamava de tudo, enfiava os pés em cima da mesa, comia de boca aberta, vivia grandes paixões e terminava tudo isso cruzando as pernas temperado de uma prepotência digna de colunista da Folha. Concluindo, dei trabalho! Em justa causa recebi de troco uma bela de uma repetência para ficar esperto. Resolvi insistir, continuei no colégio a onde eu estudava e refiz de cara amarrada o enfadonho primeiro colegial.
          Daí ocorreu o inesperado. Lembro que ao entrar na minha nova sala, avistei de longe essa minha velha amiga. Na época não era velha e nem amiga... Era somente uma loura, pititica e provinciana. Ficava toda bonitinha rabiscando umas pinturas nos papéis de caderno.Eu me encantava, mas achava ela muito pititica para mim.  Sentia-me na época um homem cheio de experiências e valores e, nunca (por orgulho de macho burro) assumiria essa minha paixão escondida. Com o passar do tempo viramos amigos. Daqueles amigos com "coisinhas". Quando digo amigos com "coisinhas" quero dizer que nós brincávamos dizendo um para outro que um dia casaríamos,  que bláblá e blablá e mais outras caraminholas sufocadas... Como bons amigos de "coisinhas". Nunca passamos dos blábláblás.
          No decorrer de um ano ela mudou. Cortou seu cabelo, deixou a cor natural, passou a beber e a sair por ai. Em consequência não demorou muito e ela estava namorando. Era um menino bonito, alto, cheio de opinião, um aninho mais novo. Eu, do lado de fora,  dizia que achava bom, que ficava feliz, que era tão bom encontrar alguém...Mas o meu orgulho de "macho burro"  me impedia de mostrar que no fundo eu remoia as dores de todo um amor que menosprezei por ela ser pítitica... Mas venhamos e convenhamos, acho que já deu para perceber que não era ela que era pititica. Mas sim eu, que era pititico de alma.
          Comecei então a jogar pelo mal de novo, dizia a ela para largar o imberbe, clamava que ela casasse comigo, que seriamos um casal lindo juntos, que tudo daria certo, blá, blá, blá e outras caraminholas, agora, mais pesadas. Enfim, a infernizei... Não passou muito tempo e recebi de troco o silêncio. Fui ignorado durante alguns meses e sofri pela primeira vez. Um tempo depois ela me perdoou. Pois bem, ficamos amigos! Voltamos a conversar, ela tinha crescido, estava bonita, altiva! Tinha virado uma ótima desenhista. Ia prestar Artes plásticas no vestibular e eu Artes cênicas, ficávamos conversando sobre os cursos, sobre os sonhos, sobre sair de casa e viver a vida, enfim, essas coisas de fim de colegial. E como um bom fim de colegial, em tradição, fomos viajar para comemorar a formatura.
         
Nessa viagem, talvez, pela beleza dela, talvez, pelo fulgor do momento de formatura acabei me apaixonando de novo. Em meio aos dias de curtição, ela se juntou com um colega nosso de sala. Fiquei inconformado ao saber. Meus ciúmes nasciam do pedaço mais negro da minha alma e a vontade que eu tinha era de pegá-la no colo e fugir dali! Resolvi, então, largar a macheza burra e falar tudo de uma vez. Em um momento depois de beber bastante, em meio a um samba que puxamos em um boteco, a chamei de lado e comecei a falar coisas em seu ouvido. Dessas coisas eu nem gosto de lembrar! Só sei que passei das sacanagens mais sujas até as mais dóceis declarações de amor. Ela refutava. Meu colega de sala, a meu lado, ficava ali observando a minha falta de ética e respeito.
          Para concluir, obviamente a minha tentativa violenta não deu certo. Mais uma vez, de troco, ela parou de olhar na minha cara e voltou a me odiar. Cego de orgulho escrevi uma carta apaixonada.  Eu falava que a queria e que eu tinha certeza de que ela me queria também. Escrevi poesias, fiz desenhos e no finalzinho da carta dizia para ela me encontrar em um café, às três horas da tarde de uma quinta-feira caso ela sentisse algo por mim. Ela foi, sentou na minha frente, me olhou com aqueles olhos azulados e disse:
-Você é louco, não sei da onde você tirou essa história toda! Eu nunca senti nada por você! Você não tem respeito algum! Quem você pensa que é para ficar dizendo o que os outros sentem? Só passei aqui porque tenho compromisso aqui perto...
          Não lembro se chorei. Devo ter chorado... Tudo o que ela disse era verdade mesmo e, clichês a parte- A verdade dói- Saí dali e encontrei um amigo de poesia e dor de corno. Sentamos em um boteco, eu pedi um conhaque e ele temperou a história cantando regra três do Vinicius de Moraes. Agora o negócio era seguir com a vida. Fiz isso, sai vivendo outros amores platônicos ou concretos. Passou um tempo, me falha a memória quando ou como, mas a vida e os amigos levaram a gente de volta um ao outro.
          Nessa história de idas e vindas eu e essa menina nunca nos tocamos. Foi de fato um platonismo só meu. Meu jeitinho patético de ser e meu orgulho foram juntos os néctares que me embebedaram e impediram a possibilidade de um dia vir a conquistar essa menina. Criei confusões e mais confusões, algumas nem contadas aqui e dessa forma, construí essa história na minha cabeça.
          Nessa tarde sai de casa para encontrá-la... Como já disse, no mesmo bar que estou agora, na mesma esquina de sempre (onde já já vamos comemorar um aniversário). Cheguei atrasado, sentei na cadeira de plástico vermelha, a onde continuo sentado, conversamos, falei coisas bonitas para ela e bebemos cerveja. Eu olhava aquela esquina, as cervejas, a menina... O tempo escapando entre os nossos dedos, o passado e as memórias se apagando nos nossos furacões de maturidade e só me vinha uma emoção. Paz... Por algum motivo hoje foi uma das primeiras vezes em que senti paz olhando aqueles olhos azuis. Uma paz de amigo, uma paz de gente que se entende. Difícil botar em palavras.
          Por fim, deu onze e meia, o ônibus já ia parar de passar. Ela ainda sentada me disse então que ia embora, falou para mandar lembranças ao aniversariante, levantou da mesa, olhou nos meus olhos, se aproximou e me deu um beijo na boca. Dobrou a esquina e sumiu entre os bares.


          Agora continuo esperando. Confuso e marcado pelo enigma eterno que são esses olhos azuis. Será que todo esse romantismo foi e sempre será só de minha cabeça? Será que não? De qualquer forma, sei que essas respostas não existem. Prefiro assim, permanecer nessa caldeira de plástico olhando esse beijo na boca tão carinhoso e tão delicado como um ponto final de uma história onde o autor não é verborrágico. Aquele beijo me foi um beijo de carinho. Um cobertor que acarinhou uma confusão platônica de quatro anos. Um perdão dado por ela... Uma conclusão.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Glória ao Passado

O que gorjeia a iminência das massas?
O que celebram os dias de glória?
Olhando os marcos da historia
me torno flutuante no espaço
Não quero caminhar pelas praças 
nem levantar os meus punhos de aço
somente insisto em clamar no encalço:

Abaixo a família!
Abaixo a carola!
Abaixo o imperador!
Abaixo o operário!
Abaixo o torturador!
Abaixo o alforriado!
Abaixo o vagabundo!
Abaixo o pacifista!
Abaixo o republicano!
Abaixo o ser humano!
E seus tantos mantos de horror...

-Mas ora diacho!
Quando digo abaixo... Não me rebaixo?

Olhando a vasta andança do gado
se aproximando no vão dos meses
enxergo todos como velhos fregueses
e dou graças ao feriado:

Evento de Dezembro
na terrinha de frigideira
que se queimem seus pinheiros
que falte pão na nossa ceia!

Novembro,
Te proclamo a "rés pública"!
que te trepem! que te urinem!
Será a sua serventia única...

Candeia Outubro branco
mês derretido em sete dias
as beatas te levam nas mãos
em torno da Aparecida

São largos os bigodes Setembrinos
que erguem a espada do imperador
são verdes os capacetes da pátria
que levantam os fuzis do senhor

Agosto,
És imenso e negro
não mereces muitos versos
mereces um descarrego!

Julio Cesar,
fizeste algo que presta...
tua maior conquista de guerra
foi proclamar um mês de férias

Chora meu Junho quilombola
a melanina de seus guerreiros
sob a áurea do dia da raça
vejo um eterno cativeiro

Maio,
Suas semanas só tem um dia
são as veias abertas de sangue
são as mãos de martelo feridas

Abre alas herói vazio
o estandarte da república é sua cabeça
segue fincada no primeiro de Abril
o verdadeiro dia da inconfidência

Março,
por onde tuas águas me levam?
Para um golpe de tortura em seu ultimo dia?
Quero ficar cego em sua vã poesia...

Fevereiro mascarado de três dias
mostra seu rosto e eu rasgo a fantasia!

Confraternize universo
desejando a paz em Janeiro!
que o próximo mês está perto
e depois dele o ano inteiro.

E na passagem de ano volta a boiada...
Volta o gado, volta o feriado,
Conjugam um brinde de glória ao passado
e erguem suas taças repleteas de nada

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Tremor Essêncial

Minhas mãos resmungam...
Não cansam de clamar caraminholas!
Querem cobrir-se nos bolsos
querem cruzar se entre as pernas
Desejo mostrá-las mas elas se escondem
Desejo entregá-las aos mais vastos amores.
Mas minhas mãozinhas inquietas
ansiosas e envergonhadas
se assumem mãos de mau poeta

Ai, como tremem minhas patas!
se cobrindo do resto do mundo
Ponho a culpa no cigarro, culpo mais bebida,
não desculpo os amores que me roubaram a vida
Imploro ao metacarpo- Calma!
Mas ele não para de sacudir...
e sai espalhando por ai
que a culpa desse tremor
é a essência de minh'alma

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Matéria Prima

Há algo que não entende
a maquineta veneta de vento
-É impossível medir o lamento,
a correnteza de amor, o tormento
quando deveras teu peito os sente

Foste em mim a enxurrada
tornaste meu sangue demente
hoje sou o navegante perdido
na maré de um pranto carente

Sou um crente excomungado
teu modo de amor provou-se ateu.
Para iluminar a saborosa escuridão
usaste do fogo de Prometeu

Dai-me Senhor o amor de cada dia!
e o pão virá em conseqüência...
o coração é minha matéria-prima
Faço poemas e não consciência

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Medida

Nascí preso a uma circunstância:
"O milagre da consciência"
Nos idos de minha infância
com a áurea da inocência,
assim como toda a criança
comecei a fazer ciência

Media passos e polegadas,
o nível da água, a cor do céu...
No meu empirismo de criança calada
descobri com as abelhas o gosto do mel

Fui medindo pelo vasto do mundo
e minha medida aumentando
Tornei-me homem, tornei-me curto,
tornei-me um etéreo pensando

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Sangue Azul



                                                                                                                 Para aquele menino louro

       
          Naquele dia eu estava bem vestido. A barba estava falha, mas isso só deixava mais latente meu jeitinho de romântico burguês. Me vestia de calças pretas, sapatos pretos, malha da mesma cor e em oposição um blazer verde que uma amiga antiga tinha me dado de presente. Punha-me meio poético e errante na grande Avenida Sumaré. Tragava um cigarro e andava por entre o lusco-fusco daquela tarde gelada de Junho, porteira de um inverno danado. Uma amiga me esperava em um bairro próximo e já tinha passado da hora combinada (não sou de me atrasar) morria de ansiedade e pressa. De algum jeito eu precisava atravessar a rua para pegar um ônibus mas me impedia o fato de não encontrar a bendita faixa de pedestres para resolver meu problema.
          Não estava alcoolizado. Permanecia na infelicidade sóbria das seis da tarde de um sexta-feira de trabalho árduo, mas carregava a sede de uma esperança boêmia naquela noite. Precisava tomar um ônibus na outra calçada mas de jeito algum a grande avenida me permitia atravessa-la. Parei , olhei os carros correndo, esperei o sinal fechar, tateei e analisei.
          Lembrei-me então de Agnes Heller. Na época eu tinha lido alguns textos da filosofa sobre alienação (coisa pouca, mas o suficiente para procrastinar por ai). Em algum deles, havia um exemplo sobre o conceito dizendo que se a gente analisar demais buscando ao máximo não nos colocarmos distantes de nossas ações não seria possível atravessar uma rua, pois calcularíamos e chegaríamos a conclusão de que não vale a pena tomar essa atitude, afinal de contas, imaginem só a quantidade de riscos presentes nisso. Concordei com a pensadora. Na vida concreta é preciso atravessar a rua, e resolvi executar a ação.
          Fui andando despretensioso, levantei o nariz e sai por entre os carros na Avenida. Tinha muito transito e o dia escurecia. Passei a primeira faixa, a segunda, a terceira, contornei um ônibus e quando eu estava chegando na outra calçada me deparei com a curiosidade de uma quarta faixa, bem menos larga e vazia; Pensei- "Ué... o que é isso?" até que ouvi lancinante uma buzina. Olhei para a direção do som, enxerguei um foco de luz redondo que se aproximava e senti de supetão um impacto violento que batia contra o meu joelho esquerdo. Pisquei. Quando abri os olhos novamente eu estava voando e girando ao mesmo tempo, vi as luzes dos carros no trânsito que se tornava uma grande pintura impressionista pela fotografia de minha piscadela. Pisquei novamente. E quando abri os olhos meu rosto se aproximava da guia da calçada. Estava a uns dez centímetros, tentei reagir gritando, mas choquei de cara com o pedaço de concreto. Rolei para um dos lados e no ímpeto tentei levantar, mas percebi que minha perna não aguentava. Finalizei o drama despejando-me no chão enquanto tentava me rastejar até o canteiro da avenida.
          Notei então que meu rosto formigava. Toquei meu nariz e o reparei diferente; Ele estava inchado e com um formato esquisito perto do normal. Daí percebi que eu sangrava muito, o blazer verde que minha amiga tinha me dado estava tingido de vermelho e um dos meus sapatos já tinha se perdido em meio aos carros. Reparei então que aquele lugar a onde meu corpo jazia era o "fantástico" corredor de motos fundado na gestão Kassabina da prefeitura de São Paulo; Mais um dos desenvolvimentismos do imperador. Lembrei da Agnes Heller e a culpei.
          Olhei para o lado, vi uma moto caída e um motoqueiro que começava a se levantar. Olhei para o outro lado e vi umas pessoas que corriam dos carros em minha direção. O primeiro a falar comigo foi um homem branco, magro e de cabelos negros:
-Por favor! Não se mexa!-Dizia isso pois eu tentava me rastejar em direção ao canteiro -Eu te vi sendo atropelado, trabalho com justiça. Vou já ligar para o SAMU!
Minha cabeça andava em círculos e eu já não tinha mais tanto discernimento das coisas. Não lembrei o que era o SAMU... Fiquei imaginando um homem imenso que vinha me bater, o Samuel, Sei lá! Morri de medo, disse para o homem não chamar o SAMUCA, insisti dizendo que a culpa era minha. Eu que tinha atravessado no lugar errado e etc. O homem me olhou com uma cara de interrogação... Fui percebendo que não tinha Samuel nenhum... E lembrei que era só o serviço público de ambulâncias.
          De qualquer forma haviam sim alguns Samucas por ali, e vieram mais rápido que o socorro paulistano. O Advogado tinha saído de perto para ligar, cinco motoqueiros aproveitaram a brecha e surgiram de não sei onde para tirar satisfação:
-Se sabe que a culpa foi sua, né mano?
-Sei sim... (Eu dizia amedrontado)
-Se alguém perguntar a culpa foi de quem?
- Foi minha...
E de fato era mea culpa; Mas ainda assim fiquei assustado com aqueles cinco caras em volta de mim me olhando com os olhos em fogo. Quando me deixaram em paz percebi o homem que me atropelou subindo na moto e se mandando sumaré abaixo sentido Parque Antártica. Não liguei para a fuga, era um problema a menos. Hoje não o culpo, sou eu mesmo o culpado, mas me intriga o fato de não ter nem sequer olhado a cara dele. Até hoje ele só me foi um foco de luz redondo e uma buzina.
          O véu da noite já tinha abraçado meu corpo estirado na grande Avenida. Era uma sexta-feira, sete horas da noite, o alvoroço da cidade era imenso e meu sangue se alongava devagar pelo asfalto frio. Começou a garoar e eu comecei a garoar pelos olhos junto com o céu. O advogado voltou ofegante, disse:
-Pronto, o SAMU já está chegando- Percebeu meu choro- Não fique assim não, eu sou advogado, trabalho com atropelamentos e acidentes... Nós vamos pegar aqueles caras, você vai ver!
-O que?- falei saindo da transe
-É, vamos processar esse cara!
- Mas a culpa foi minha oras!
-Mas ele não podia fugir, você tem que processa-lo.
Na hora eu não sabia, mas depois descobri que aquele advogado exercia uma função de abutre, no Brasil tem poucos, mas é muito comum em outros países da América-latina. São advogados que quando vêem um atropelamento tentam botar lenha na fogueira para conseguir tirar uma cascata de um cão ensanguentado.         Enrolei o cabra dizendo que ele podia deixar seu cartão no meu bolso e eu em breve o ligaria.
Ao invés de ligar para ele cometi uma breve ingenuidade de menino de dezessete anos. Liguei para a minha mãe:
-Oi mãe, tudo bom? Não se assuste tá?
-O QUE ACONTECEU? A ONDE VOCÊ ESTÁ? VOCÊ FOI PRESO MEU FILHO? O QUE HOUVE?
Demorei em torno de quinze minutos explicando o ocorrido. Paralelamente ouvia berros, gritos, broncas e gemidos de desespero. Aprendi então que os pais e mães quase sempre dão um jeito de piorar o piorado, mas não digo isso os culpando... O desespero de entender que sua choca foi acidentada é capaz de fazer tremer o coração de uma corujona.
          Em seguida chegou o Samu. Cortaram o tecido preto da minha calça, me encheram de gaze no nariz e por fim me imobilizaram em uma maca. Me despedi do advogado enquanto me colocavam para dentro da ambulância e por fim escutei uma conversa vinda da boca dos enfermeiros:
-Esse ai ta mal hein...
-É, e é só o primeiro, hoje é sexta-feira...
Nesse momento senti um embrulho doloroso no estômago. Era verdade. Fiquei imaginando a quantidade de pessoas que iam ainda se acidentar naquela noite e mais, fiquei pensando a quantidade de gente que aqueles dois enfermeiros iam carregar de um lado para o outro de São Paulo, banhando as mãos de tédio e sangue.      
          A dor que eu sentia era tanta que eu percebi o verdadeiro significado da expressão "sentir na pele". Muitos pensamentos passaram como cavalarias na minha cabeça enquanto eu olhava o teto branco do carro fúnebre. E se eu estiver com algo interno? E se amputarem minha perna? E se cortarem meus dedos fora? Será que eu vou ter que ficar no hospital muito tempo? Eu tenho aula... Eu tenho o teatro...Será que eu vou ficar com cicatrizes permanentes no rosto? Ai meu Deus!  Será que eu vou ter que parar de fumar? Enfim... Pensei tanto que na hora que vi já estava no hospital... A Santa Casa, no centro da Paulicéia. Os médicos me tiravam da maca rumo ao pronto socorro de Traumas e meus pais surgiam quase ao mesmo tempo. Estava entrando na sala e meu pai, me olhando sorrindo disse constrangido:
 -Poxa hem... Bem que você podia ter feito a barba...
          Ri. A risada doeu. Em seguída entrei no hospital e parei de me lembrar de muita coisa... Um enfermeiro negro e alto injetou algo no meu sangue que me chapou terrivelmente... Em diante, somente fotografias: Alguns mendigos passavam mal, meninos de rua machucados, homens amputados, homens com enfisema, senhoras em coma, crianças escorrendo o nariz, paredes  brancas, salas escuras, raio X, barulho de tosse, cheiro de morfina- Gosto de lágrima e sangue de gente fodida. No meio de toda a sinestesia há uma lembrança menos fotográfica. Em algum momento da noite surgiu no TRAUMA um menino de rua louro, cara de Pedro Bala e idade igual a minha.. Naquela madrugada ele tinha escolhido dormir em cima do COPAN por causa do perigo das ruas do centro; Deitou na marquise e acordou espatifado no chão. O menino gritava e olhava para mim. Eu com meu blazer verde, ele com suas roupas rasgadas, eu com meus pais,  ele com o diabo, eu com minha cama, ele com a marquise do COPAN, eu indo encontrar minha amiga, ele tentando fugir do perigo, eu com meus cigarros, ele com seus cachimbos, eu culpando meus pais, ele querendo os dele; Eu e ele juntos, na mesma cidade, no mesmo hospital, na mesma sala de pronto socorro, no mesmo vermelho do sangue... Mas sem outras mesmas coisas... Senti dor e apaguei. De manhã, Pedro Bala não estava mais lá.
          Nessa história toda a onde, por fim, me recuperei em uma semana, levei no corpo somente uma pequena cicatriz na altura do bigode e o resto acabou por sarar em pouquíssimo tempo. Recordo-me das dores no rosto, das dores na perna... Mas todas elas parecem pequenas perto da dor no coração que eu ainda carrego. Dor em ver os olhos daquele menino, dor de classe, dor de fé, dor de Ser humano... Dor paulistana que a gente nem repara mais andando pelo grande turbilhão urbano.

Ontem andei pelo Anhangabaú e toquei minha cicatriz, olhei o cinza do céu e pensei meio abobado... As janelas do COPAN são os olhos dos meninos de rua.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Amor, Insuficiência do Ego.

        Deixo de ser Leonardo, deixo de ser o Noivo e me torno hoje a Noiva, macia e com pescoço de dália, fácil de se cortar.... Só com essa pele de pétala pude entender no corpo as palavras de Garcia Lorca saídas da boca da Noiva em Bodas de Sangue. "Eu não queria, escuta bem! eu não queria! Teu filho era o meu fim, e eu não o enganei; mas o braço do outro me arrastou como um golpe de mar, como a cabeçada de um mulo e teria me arrastado sempre, sempre, sempre (...)". Nessa manhã novembrina, após fundar a lápide de um relacionamento me senti a mulher abrasada cantada pelo poeta espanhol. Isso porque na maior parte das vezes eu não queria estar com " o outro". Sabia, aliás que  era melhor não estar. As vezes pensava- Oras, mas ela tem muitas travas! deve ser só amor de ocasião- Mas percebi no meu jeito de noiva posteriormente que  não era amor de ocasião, o que eu sentia era amor... Amor de verdade. Por mais que eu não quisesse, aquela menina era " o outro", sentia dela a cabeçada de um mulo, o golpe de mar que levou a noiva, o imã equivocado que atrai os opostos e eu, não passava de um cão que abaixava as orelhas e aceitava voltar, lambia os pés e me punha patético perto de minha "dona". Mas nem assim funcionou. Nem eu nem ela suportamos a tempestade dos nossos olhos... Mas eu me pergunto: Será que suportaríamos uma só gota de lágrima? Pois no fundo, sei que o que gostamos mesmo é de emergir de uma maré salgada.
       O amor existe, mas não funciona. Temos o combustível mas a máquina está quebrada... Daí não vai para frente, afinal de contas  um carro não anda só com seu combustível. Fico pensando... Logo eu que não acredito direito em Deus! Logo eu que não acredito direito em Marx! Logo eu que só acreditava no amor. Fui traído pelo destino que mais uma vez não me foi carinhoso. Só amor não basta? Talvez não baste. Enchi meu peito de cicatrizes sorridentes, tornei-me contínuo e perpétuo arrastado entre as brasas que arrancavam minha pele no labirinto de um amor menino (amor impossível). Degustei da sensação dolorosa de perder-me entre os dentes do afeto sem suportar o que é concreto em um relacionamento e me entreguei mudando meus hábitos pueris. Não funcionou. A máquina não funcionou. Hoje entendo- Só amar basta pouco.
       O que será que será essa coisa que não sei botar em palavras? Nós abríamos a boca e o mundo se desmoronava, mas a bandeira luminosa celeste regia nosso corpo sobre o corpo do outro e nós finalmente nos entendíamos. Nosso entendimento existia em um âmbito que fazia o milagre divino da consciência incapaz de torna-lo possível. Pois é... Nada basta para nós... Percebi que o ego é capaz de sobrepor esse sentimento. Pois nem eu nem ela cedemos ao amor e, talvez, seja mesmo o certo a ser feito. Mas ainda assim, mesmo sendo certo acabar, sendo certo sofrer pelo ego... Eu, na minha ingenuidade apaixonada ainda me percebo a noiva. E garanto que, se em em meu casamento ela surgir, eu mesmo vou preparar os cavalos para corrermos juntos até a floresta escura a onde a morte nos chama.