sábado, 24 de novembro de 2012

Conclusão

                                                                                                   A meu eterno enigma de olhos azuis...
                                                                                                         (Para ler escutando "Regra Três)


         Espero... É claro que eu espero! Ainda não cheguei ao nível de me sentar a toa em mesa de bar sem ninguém, vendo desfile de mulher calçadeira... Estou aqui em uma boa missão: Aguardar alguns amigos para comemorar um aniversário e relembrar os tempos de colégio e puberdade. Beberemos que nem porcos, tocaremos um samba daqueles e, por fim, tenho a certeza que vamos terminar a noite mais cedo do que antigamente... Hoje em dia as coisas mudaram. As namoradas, os namorados, o trabalho, a lei do psiu, a vida atual e o tédio que ela virou chamam mais alto do que a saudade dos companheiros. 
          Mas enquanto esses amigos não chegam me pego sozinho olhando a tradicional esquina a onde passei boa parte de minha adolescência. Sentado aqui, na mesma cadeira de plástico, na mesma mesa, no mesmo boteco, sinto-me velho olhando em frente aos meus olhos uma espuma quente de cerveja. Uma cerveja igualzinha a mim morrendo de braços dados a temperatura da rua.
          Eu já estava aqui antes dessa longa espera. Eu sempre estive aqui... Percebo que por esse motivo a cerveja ficou quente; O que fazer com ela? Dadas as circunstâncias, chego a uma conclusão- O negócio é mandar para dentro!- Viro o restinho do líquido e me pego divagando confuso sobre o que me ocorreu a cinco minutos... Algo que imaginária?  Olha, pode até ser que eu imaginasse... Mas imaginar antes de acontecer podia gerar muitos machucados e confusões e eu, no auge dos meus vinte anos, já me sinto velho para sofrer por amor. Pois nessa vida, ai... Como sofri por amor! E principalmente pelos amores platônicos.
          Veja você...  Na tarde de hoje sai de casa sem esperar mais nada. Ia encontrar uma amiga de tempos de escola no fim do dia. Não tinha reais pretensões, seria naquele mesmo bar, beberíamos uma cerveja, conversaríamos, ela iria embora e eu ia acabar comemorando o aniversário que me esperava junto com o pessoal das antigas, com o mesmo tédio e desesperança de sempre... Que coisa não é? Não havia passado pela minha cabeça a possibilidade do que me viria a acontecer. Uma faísca de esperança? Uma conclusão? Enfim... Estou sendo egoísta, deixem me contextualizar:
          Aos quinze anos eu era a peste em um corpo púbere. Cometi Deus lá sabe quantos pecados e perversões. Usei tudo quanto era droga, bebi do ralo podre, comecei a fumar, não ia na aula, me deitava sabe se lá com quem, reclamava de tudo, enfiava os pés em cima da mesa, comia de boca aberta, vivia grandes paixões e terminava tudo isso cruzando as pernas temperado de uma prepotência digna de colunista da Folha. Concluindo, dei trabalho! Em justa causa recebi de troco uma bela de uma repetência para ficar esperto. Resolvi insistir, continuei no colégio a onde eu estudava e refiz de cara amarrada o enfadonho primeiro colegial.
          Daí ocorreu o inesperado. Lembro que ao entrar na minha nova sala, avistei de longe essa minha velha amiga. Na época não era velha e nem amiga... Era somente uma loura, pititica e provinciana. Ficava toda bonitinha rabiscando umas pinturas nos papéis de caderno.Eu me encantava, mas achava ela muito pititica para mim.  Sentia-me na época um homem cheio de experiências e valores e, nunca (por orgulho de macho burro) assumiria essa minha paixão escondida. Com o passar do tempo viramos amigos. Daqueles amigos com "coisinhas". Quando digo amigos com "coisinhas" quero dizer que nós brincávamos dizendo um para outro que um dia casaríamos,  que bláblá e blablá e mais outras caraminholas sufocadas... Como bons amigos de "coisinhas". Nunca passamos dos blábláblás.
          No decorrer de um ano ela mudou. Cortou seu cabelo, deixou a cor natural, passou a beber e a sair por ai. Em consequência não demorou muito e ela estava namorando. Era um menino bonito, alto, cheio de opinião, um aninho mais novo. Eu, do lado de fora,  dizia que achava bom, que ficava feliz, que era tão bom encontrar alguém...Mas o meu orgulho de "macho burro"  me impedia de mostrar que no fundo eu remoia as dores de todo um amor que menosprezei por ela ser pítitica... Mas venhamos e convenhamos, acho que já deu para perceber que não era ela que era pititica. Mas sim eu, que era pititico de alma.
          Comecei então a jogar pelo mal de novo, dizia a ela para largar o imberbe, clamava que ela casasse comigo, que seriamos um casal lindo juntos, que tudo daria certo, blá, blá, blá e outras caraminholas, agora, mais pesadas. Enfim, a infernizei... Não passou muito tempo e recebi de troco o silêncio. Fui ignorado durante alguns meses e sofri pela primeira vez. Um tempo depois ela me perdoou. Pois bem, ficamos amigos! Voltamos a conversar, ela tinha crescido, estava bonita, altiva! Tinha virado uma ótima desenhista. Ia prestar Artes plásticas no vestibular e eu Artes cênicas, ficávamos conversando sobre os cursos, sobre os sonhos, sobre sair de casa e viver a vida, enfim, essas coisas de fim de colegial. E como um bom fim de colegial, em tradição, fomos viajar para comemorar a formatura.
         
Nessa viagem, talvez, pela beleza dela, talvez, pelo fulgor do momento de formatura acabei me apaixonando de novo. Em meio aos dias de curtição, ela se juntou com um colega nosso de sala. Fiquei inconformado ao saber. Meus ciúmes nasciam do pedaço mais negro da minha alma e a vontade que eu tinha era de pegá-la no colo e fugir dali! Resolvi, então, largar a macheza burra e falar tudo de uma vez. Em um momento depois de beber bastante, em meio a um samba que puxamos em um boteco, a chamei de lado e comecei a falar coisas em seu ouvido. Dessas coisas eu nem gosto de lembrar! Só sei que passei das sacanagens mais sujas até as mais dóceis declarações de amor. Ela refutava. Meu colega de sala, a meu lado, ficava ali observando a minha falta de ética e respeito.
          Para concluir, obviamente a minha tentativa violenta não deu certo. Mais uma vez, de troco, ela parou de olhar na minha cara e voltou a me odiar. Cego de orgulho escrevi uma carta apaixonada.  Eu falava que a queria e que eu tinha certeza de que ela me queria também. Escrevi poesias, fiz desenhos e no finalzinho da carta dizia para ela me encontrar em um café, às três horas da tarde de uma quinta-feira caso ela sentisse algo por mim. Ela foi, sentou na minha frente, me olhou com aqueles olhos azulados e disse:
-Você é louco, não sei da onde você tirou essa história toda! Eu nunca senti nada por você! Você não tem respeito algum! Quem você pensa que é para ficar dizendo o que os outros sentem? Só passei aqui porque tenho compromisso aqui perto...
          Não lembro se chorei. Devo ter chorado... Tudo o que ela disse era verdade mesmo e, clichês a parte- A verdade dói- Saí dali e encontrei um amigo de poesia e dor de corno. Sentamos em um boteco, eu pedi um conhaque e ele temperou a história cantando regra três do Vinicius de Moraes. Agora o negócio era seguir com a vida. Fiz isso, sai vivendo outros amores platônicos ou concretos. Passou um tempo, me falha a memória quando ou como, mas a vida e os amigos levaram a gente de volta um ao outro.
          Nessa história de idas e vindas eu e essa menina nunca nos tocamos. Foi de fato um platonismo só meu. Meu jeitinho patético de ser e meu orgulho foram juntos os néctares que me embebedaram e impediram a possibilidade de um dia vir a conquistar essa menina. Criei confusões e mais confusões, algumas nem contadas aqui e dessa forma, construí essa história na minha cabeça.
          Nessa tarde sai de casa para encontrá-la... Como já disse, no mesmo bar que estou agora, na mesma esquina de sempre (onde já já vamos comemorar um aniversário). Cheguei atrasado, sentei na cadeira de plástico vermelha, a onde continuo sentado, conversamos, falei coisas bonitas para ela e bebemos cerveja. Eu olhava aquela esquina, as cervejas, a menina... O tempo escapando entre os nossos dedos, o passado e as memórias se apagando nos nossos furacões de maturidade e só me vinha uma emoção. Paz... Por algum motivo hoje foi uma das primeiras vezes em que senti paz olhando aqueles olhos azuis. Uma paz de amigo, uma paz de gente que se entende. Difícil botar em palavras.
          Por fim, deu onze e meia, o ônibus já ia parar de passar. Ela ainda sentada me disse então que ia embora, falou para mandar lembranças ao aniversariante, levantou da mesa, olhou nos meus olhos, se aproximou e me deu um beijo na boca. Dobrou a esquina e sumiu entre os bares.


          Agora continuo esperando. Confuso e marcado pelo enigma eterno que são esses olhos azuis. Será que todo esse romantismo foi e sempre será só de minha cabeça? Será que não? De qualquer forma, sei que essas respostas não existem. Prefiro assim, permanecer nessa caldeira de plástico olhando esse beijo na boca tão carinhoso e tão delicado como um ponto final de uma história onde o autor não é verborrágico. Aquele beijo me foi um beijo de carinho. Um cobertor que acarinhou uma confusão platônica de quatro anos. Um perdão dado por ela... Uma conclusão.

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