terça-feira, 6 de novembro de 2012

Sangue Azul



                                                                                                                 Para aquele menino louro

       
          Naquele dia eu estava bem vestido. A barba estava falha, mas isso só deixava mais latente meu jeitinho de romântico burguês. Me vestia de calças pretas, sapatos pretos, malha da mesma cor e em oposição um blazer verde que uma amiga antiga tinha me dado de presente. Punha-me meio poético e errante na grande Avenida Sumaré. Tragava um cigarro e andava por entre o lusco-fusco daquela tarde gelada de Junho, porteira de um inverno danado. Uma amiga me esperava em um bairro próximo e já tinha passado da hora combinada (não sou de me atrasar) morria de ansiedade e pressa. De algum jeito eu precisava atravessar a rua para pegar um ônibus mas me impedia o fato de não encontrar a bendita faixa de pedestres para resolver meu problema.
          Não estava alcoolizado. Permanecia na infelicidade sóbria das seis da tarde de um sexta-feira de trabalho árduo, mas carregava a sede de uma esperança boêmia naquela noite. Precisava tomar um ônibus na outra calçada mas de jeito algum a grande avenida me permitia atravessa-la. Parei , olhei os carros correndo, esperei o sinal fechar, tateei e analisei.
          Lembrei-me então de Agnes Heller. Na época eu tinha lido alguns textos da filosofa sobre alienação (coisa pouca, mas o suficiente para procrastinar por ai). Em algum deles, havia um exemplo sobre o conceito dizendo que se a gente analisar demais buscando ao máximo não nos colocarmos distantes de nossas ações não seria possível atravessar uma rua, pois calcularíamos e chegaríamos a conclusão de que não vale a pena tomar essa atitude, afinal de contas, imaginem só a quantidade de riscos presentes nisso. Concordei com a pensadora. Na vida concreta é preciso atravessar a rua, e resolvi executar a ação.
          Fui andando despretensioso, levantei o nariz e sai por entre os carros na Avenida. Tinha muito transito e o dia escurecia. Passei a primeira faixa, a segunda, a terceira, contornei um ônibus e quando eu estava chegando na outra calçada me deparei com a curiosidade de uma quarta faixa, bem menos larga e vazia; Pensei- "Ué... o que é isso?" até que ouvi lancinante uma buzina. Olhei para a direção do som, enxerguei um foco de luz redondo que se aproximava e senti de supetão um impacto violento que batia contra o meu joelho esquerdo. Pisquei. Quando abri os olhos novamente eu estava voando e girando ao mesmo tempo, vi as luzes dos carros no trânsito que se tornava uma grande pintura impressionista pela fotografia de minha piscadela. Pisquei novamente. E quando abri os olhos meu rosto se aproximava da guia da calçada. Estava a uns dez centímetros, tentei reagir gritando, mas choquei de cara com o pedaço de concreto. Rolei para um dos lados e no ímpeto tentei levantar, mas percebi que minha perna não aguentava. Finalizei o drama despejando-me no chão enquanto tentava me rastejar até o canteiro da avenida.
          Notei então que meu rosto formigava. Toquei meu nariz e o reparei diferente; Ele estava inchado e com um formato esquisito perto do normal. Daí percebi que eu sangrava muito, o blazer verde que minha amiga tinha me dado estava tingido de vermelho e um dos meus sapatos já tinha se perdido em meio aos carros. Reparei então que aquele lugar a onde meu corpo jazia era o "fantástico" corredor de motos fundado na gestão Kassabina da prefeitura de São Paulo; Mais um dos desenvolvimentismos do imperador. Lembrei da Agnes Heller e a culpei.
          Olhei para o lado, vi uma moto caída e um motoqueiro que começava a se levantar. Olhei para o outro lado e vi umas pessoas que corriam dos carros em minha direção. O primeiro a falar comigo foi um homem branco, magro e de cabelos negros:
-Por favor! Não se mexa!-Dizia isso pois eu tentava me rastejar em direção ao canteiro -Eu te vi sendo atropelado, trabalho com justiça. Vou já ligar para o SAMU!
Minha cabeça andava em círculos e eu já não tinha mais tanto discernimento das coisas. Não lembrei o que era o SAMU... Fiquei imaginando um homem imenso que vinha me bater, o Samuel, Sei lá! Morri de medo, disse para o homem não chamar o SAMUCA, insisti dizendo que a culpa era minha. Eu que tinha atravessado no lugar errado e etc. O homem me olhou com uma cara de interrogação... Fui percebendo que não tinha Samuel nenhum... E lembrei que era só o serviço público de ambulâncias.
          De qualquer forma haviam sim alguns Samucas por ali, e vieram mais rápido que o socorro paulistano. O Advogado tinha saído de perto para ligar, cinco motoqueiros aproveitaram a brecha e surgiram de não sei onde para tirar satisfação:
-Se sabe que a culpa foi sua, né mano?
-Sei sim... (Eu dizia amedrontado)
-Se alguém perguntar a culpa foi de quem?
- Foi minha...
E de fato era mea culpa; Mas ainda assim fiquei assustado com aqueles cinco caras em volta de mim me olhando com os olhos em fogo. Quando me deixaram em paz percebi o homem que me atropelou subindo na moto e se mandando sumaré abaixo sentido Parque Antártica. Não liguei para a fuga, era um problema a menos. Hoje não o culpo, sou eu mesmo o culpado, mas me intriga o fato de não ter nem sequer olhado a cara dele. Até hoje ele só me foi um foco de luz redondo e uma buzina.
          O véu da noite já tinha abraçado meu corpo estirado na grande Avenida. Era uma sexta-feira, sete horas da noite, o alvoroço da cidade era imenso e meu sangue se alongava devagar pelo asfalto frio. Começou a garoar e eu comecei a garoar pelos olhos junto com o céu. O advogado voltou ofegante, disse:
-Pronto, o SAMU já está chegando- Percebeu meu choro- Não fique assim não, eu sou advogado, trabalho com atropelamentos e acidentes... Nós vamos pegar aqueles caras, você vai ver!
-O que?- falei saindo da transe
-É, vamos processar esse cara!
- Mas a culpa foi minha oras!
-Mas ele não podia fugir, você tem que processa-lo.
Na hora eu não sabia, mas depois descobri que aquele advogado exercia uma função de abutre, no Brasil tem poucos, mas é muito comum em outros países da América-latina. São advogados que quando vêem um atropelamento tentam botar lenha na fogueira para conseguir tirar uma cascata de um cão ensanguentado.         Enrolei o cabra dizendo que ele podia deixar seu cartão no meu bolso e eu em breve o ligaria.
Ao invés de ligar para ele cometi uma breve ingenuidade de menino de dezessete anos. Liguei para a minha mãe:
-Oi mãe, tudo bom? Não se assuste tá?
-O QUE ACONTECEU? A ONDE VOCÊ ESTÁ? VOCÊ FOI PRESO MEU FILHO? O QUE HOUVE?
Demorei em torno de quinze minutos explicando o ocorrido. Paralelamente ouvia berros, gritos, broncas e gemidos de desespero. Aprendi então que os pais e mães quase sempre dão um jeito de piorar o piorado, mas não digo isso os culpando... O desespero de entender que sua choca foi acidentada é capaz de fazer tremer o coração de uma corujona.
          Em seguida chegou o Samu. Cortaram o tecido preto da minha calça, me encheram de gaze no nariz e por fim me imobilizaram em uma maca. Me despedi do advogado enquanto me colocavam para dentro da ambulância e por fim escutei uma conversa vinda da boca dos enfermeiros:
-Esse ai ta mal hein...
-É, e é só o primeiro, hoje é sexta-feira...
Nesse momento senti um embrulho doloroso no estômago. Era verdade. Fiquei imaginando a quantidade de pessoas que iam ainda se acidentar naquela noite e mais, fiquei pensando a quantidade de gente que aqueles dois enfermeiros iam carregar de um lado para o outro de São Paulo, banhando as mãos de tédio e sangue.      
          A dor que eu sentia era tanta que eu percebi o verdadeiro significado da expressão "sentir na pele". Muitos pensamentos passaram como cavalarias na minha cabeça enquanto eu olhava o teto branco do carro fúnebre. E se eu estiver com algo interno? E se amputarem minha perna? E se cortarem meus dedos fora? Será que eu vou ter que ficar no hospital muito tempo? Eu tenho aula... Eu tenho o teatro...Será que eu vou ficar com cicatrizes permanentes no rosto? Ai meu Deus!  Será que eu vou ter que parar de fumar? Enfim... Pensei tanto que na hora que vi já estava no hospital... A Santa Casa, no centro da Paulicéia. Os médicos me tiravam da maca rumo ao pronto socorro de Traumas e meus pais surgiam quase ao mesmo tempo. Estava entrando na sala e meu pai, me olhando sorrindo disse constrangido:
 -Poxa hem... Bem que você podia ter feito a barba...
          Ri. A risada doeu. Em seguída entrei no hospital e parei de me lembrar de muita coisa... Um enfermeiro negro e alto injetou algo no meu sangue que me chapou terrivelmente... Em diante, somente fotografias: Alguns mendigos passavam mal, meninos de rua machucados, homens amputados, homens com enfisema, senhoras em coma, crianças escorrendo o nariz, paredes  brancas, salas escuras, raio X, barulho de tosse, cheiro de morfina- Gosto de lágrima e sangue de gente fodida. No meio de toda a sinestesia há uma lembrança menos fotográfica. Em algum momento da noite surgiu no TRAUMA um menino de rua louro, cara de Pedro Bala e idade igual a minha.. Naquela madrugada ele tinha escolhido dormir em cima do COPAN por causa do perigo das ruas do centro; Deitou na marquise e acordou espatifado no chão. O menino gritava e olhava para mim. Eu com meu blazer verde, ele com suas roupas rasgadas, eu com meus pais,  ele com o diabo, eu com minha cama, ele com a marquise do COPAN, eu indo encontrar minha amiga, ele tentando fugir do perigo, eu com meus cigarros, ele com seus cachimbos, eu culpando meus pais, ele querendo os dele; Eu e ele juntos, na mesma cidade, no mesmo hospital, na mesma sala de pronto socorro, no mesmo vermelho do sangue... Mas sem outras mesmas coisas... Senti dor e apaguei. De manhã, Pedro Bala não estava mais lá.
          Nessa história toda a onde, por fim, me recuperei em uma semana, levei no corpo somente uma pequena cicatriz na altura do bigode e o resto acabou por sarar em pouquíssimo tempo. Recordo-me das dores no rosto, das dores na perna... Mas todas elas parecem pequenas perto da dor no coração que eu ainda carrego. Dor em ver os olhos daquele menino, dor de classe, dor de fé, dor de Ser humano... Dor paulistana que a gente nem repara mais andando pelo grande turbilhão urbano.

Ontem andei pelo Anhangabaú e toquei minha cicatriz, olhei o cinza do céu e pensei meio abobado... As janelas do COPAN são os olhos dos meninos de rua.

Um comentário:

  1. Você é um sensível.

    E sensíveis, em São Paulo, devem ser atropelados.
    Ou assaltados.

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