domingo, 30 de dezembro de 2012

Os encalços dos amores

"No encalço dos amores
calço o pé que não me cabe.
Amores são como sapatos
e eu sou um homem descalço
que nunca achou um par perfeito
mas que sabe que se um dia encontrar
será preciso mandá-lo ao sapateiro.
-O amor é algo a se consertar-"

José Maurício Prado e Costa; Os encalços dos amores.


      Os encalços dos amores. Amores são como sapatos? Hoje calço uma loura, amanhã um negro, depois de amanhã uma japonesa e, dessa forma, me tomo a calçar os mais bonitos sapatos que me dão. Meu pé não tem tamanho e os sapatos muito menos. Daí caminho pela rota das perguntas. Meu pé se adequa? Ou o sapato que se adequa a meu pé? Sei que ele busca um par pefeito que não existe, pois nem sapato nem amor serve no pé e no coração encaixando direitinho.
      Ai se dão as coisas. É difícil demais... Em casal a gente vive uma loucura de sentir o pé apertado. Em solteiro a gente vive a loucura de pisar nas pedras descalços. Na velhice então, a gente vive o prazer de um pé quase já diminuído, onde não há porque nem sentido algum de se calçar outra coisa (só de já vestir o mesmo sapato velho que quando bate a criatividade a gente reforma no sapateiro).
      Vejo um casal de amigos... Me vejo quando eu era casal, tantas loucuras... Em prol de que? De uma vida junto? Às vezes, penso que tanto os calçados, quanto os amores, quanto a vida, quanto a poesia não tem sentido em si se não o que esses mesmos se dão.
       Felicidade? Se for felicidade são os mesmos estágios do sapato. Uma grande alegria em ter um novo e, quem sabe um dia a sorte de achar aquele par para a vida toda. Mas sempre lembrando que é preciso primeiro lacear para depois usar para sempre.
      É necessário ser um curioso a um extremo violentíssimo para amar. Mas também é preciso não ser só um curioso sedento, é preciso querer ceder... A paciência é necessária.
      Vejo meus amigos solteiros. Lá em casa é uma coisa de louco, moramos em sete meninos e toda vez que algum começa a namorar é quase uma traição para todos:
- Cadê o fulano?
-Tá na casa da fulana.
-EEE viu... Esse negócio já deu no que tinha que dar...
      Ciúmes dos sapatos dos outros? Olha, pode até ser, mas acho que se for ciúme não vem sozinho... Vem também com uma preocupação com o camarada, com coisas que a gente se rebela (como um relacionamento convencional), com o medo do cara perder parte da juventude, estar sendo feito de bobo ou qualquer outra coisa. É ai que a gente esquece como é se relacionar com alguém. O grau de complexidade que essa história chega. Não é fácil amarrar um sapato, não é facil laceá-lo. E na vida a dois, ou a três, ou a quantos preferir, esses que são brancos, pretos ou verdes que se entendam!
     Mas por fim, o pouco que aprendi sobre amores e sapatos, tanto lendo quanto vivendo. Não foi nada. Não há muito como aprender, não há nada o que aprender racionalmente... A gente só tem como vestir o sapato que escolheu. Às vezes o mesmo, às vezes um por noite, ou mais de um... Depende do evento, não é?
     De qualquer forma, meu querido leitor, peço para que não se assuste com a metáfora escolhida (os sapatos), e que me dê o espaço para que eu faça uma pequena auto-correção. No terceiro parágrafo dessa pequena crônica desorganizada, eu falei que os amores, os poemas e os sapatos só tem sentido neles mesmos. Mas nesse ultimo parágrafo acabo de perceber que no meu texto inteiro eu fiz o contrário a esse argumento pois atribui diversos sentidos ao amor usando de algo que está fora do amor como, no caso, os sapatos. Isso quer dizer que de fato as coisas não tem sentido nas próprias coisas, se tivessem, não faríamos nem amor, nem poesia. Nós somos seres de metáforas. Nós somos quase uma alegoria.

Por fim... Procuremos um bom sapato, então!

sábado, 29 de dezembro de 2012

O samba, meu avô e minha cidade.

      Não sei ao certo de onde nasceu minha paixão pelo samba. Não nasci em comunidade, meus pais não são músicos e eu não tinha amiguinhos que gostavam disso. O que eu me lembro é de em minha infância meu pai escutar muitas vezes uma coletânea em disco do grupo vocal Demônios da Garoa. Essa lembrança tem um gosto de encantamento e nostalgia. Era muito divertido escutar aquela italianada cantando.
      Na essência daquelas músicas existia uma boêmia peralta e meio estrangeira. Meu avô Toninho era filho de imigrantes, boêmio e fazia sacanagem com todo mundo. Daí, além de me divertir, na minha inocência de criança eu associava aquilo ao meu avô.
      Mas não foi exatamente pela lembrança do meu avô e pelo divertimento que esse gosto me baixou. Fui crescendo e fui reparando que associar o pai do meu pai ao samba daquela gente não era uma mera inocência de garoto. Digo isso porque o samba em São Paulo no século XX foi uma manifestação popular que cantou o desenvolvimento da metrópole. Isso se deu tanto do lado dos sambas de operários como do lado do pessoal de Pirapora e dos sambas dos engraxates.
       Quando percebi isso, me pegava pensando: Como pode toda essa integração de culturas? Imigrantes cantando música de preto e falando por meio de uma manifestação essencialmente do povo sobre o desenvolvimento da cidade?  No samba paulista há sem a mínima dúvida uma mescla grande de contradições e essas contradições são dadas por meio das crônicas sobre o cotidiano de uma metrópole em que o trabalho e a diversidade foram os pilares de seu crescimento.
       Isso me faz voltar ao meu avô. Ele, assim como muitos, conta histórias que só não deram em samba por que não tinha ninguém com um violão do lado, histórias do seu cotidiano enquanto operário e das saudades dos espaços que foram demolidos ou sobrecarregados por prédios em alto desenvolvimento.
Outro dia mesmo, sentado no banco que ele mesmo construiu, começou a puxar aquele sotaque antigo e carregado do povo da paulicéia, como se começasse a baixar alguma entidade contadora de histórias:
- Essa casa aqui fui eu mesmo que fiz tudo. Depois de conseguir botar as cerca e levantar os muro só me faltava fazer o esgoto. Naquele tempo era assim... Num tinha dinheiro para fazer, fazia a gente memo. Daí chamei o Milton, o Tatu e o Tião para me ajudar, pois eu precisava dos camarada para conseguir mexer naquela fossa cheia de porcaria que tinha antes do esgoto. Foi assim, enfiei o braço na fossa e fiquei com a cara quase no nível da água cheia de sujeira. Eu fiquei mexendo nas coisa com a mão lá embaixo e a única coisa que eu gritava pros camaradas era - NUM FAIZ ONDA, PELAMOR DE DEUS!- Naquele dia eu bebí uma garrafa inteira de cachaça... e não fez efeito!
        Daí dá para a gente ver quase um Joca e um Matogrosso, da saudosa música de Adoniran Barbosa, levantadores de um barracão. Gente que, como dizia Plínio Marcos, "Come da banda podre e só berra da geral sem influir no resultado", gente que foi desabrigada das casas que construiu para uma São Paulo crescer, gente que construiu a São Paulo que a desabrigou. Gente fodida, mas que segue acreditando e contando suas histórias.
       Mas não é sempre assim tão direto que na fala dele bate o progresso da Paulicéia. Outro dia mesmo ele engrenou para outra história:
- Se um dia tava calor, os operários todos deixavam o macacão pendurado na parte de fora da fábrica. Eu pegava lã de rocha, que coça pra caramba, e esfregava no macacão deles... Daí eles ficavam tudo se coçando para lá e para cá e eu fingia que tava me coçando também para ninguém descobrir que fui eu...
       Dá-lhe a peraltice, dá-lhe um jeito de tornar a vida de trabalhador uma coisa mais engraçada, pregando peças e coisas que só eram possíveis em um tempo em que havia mais liberdade. Eu digo liberdade porque apesar de penar demais dentro dos macacões, essa gente tinha uma cidade que de alguma forma era mais entregue aos seus entes. O povo ficava na rua, o céu ainda podia ser visto, o rio ainda podia ter gente nadando... Hoje, quando a gente passa pela rua, na maior parte das vezes, é indo de um lugar onde a gente se sente seguro (como uma propriedade privada, nossa casa ou a casa de amigos) até um lugar onde a gente também se sente seguro (consumindo de alguma forma, como um bar, um shopping ou qualquer outro espaço desses). Do rio a gente quer passar longe, e o céu, para ser visto, é preciso que o cabra se mexa para não ver só a sombra.
       Esse povo, que conta suas crônicas por meio do samba, ou por meio de um banquinho, é uma gente que conta a história dessas mudanças... Mudanças que, às vezes, ouvindo um samba que fala de demolição, a gente acha que ficaram no século XX e se esquece de associar com o que está sendo feito agora com o Largo da Batata, por exemplo, ou com outros lugares que estão deixando de ser espaços democráticos dentro do meio urbano, para se tornarem espaços cada vez mais privados e menos públicos.
       No samba que fala do progresso e do modus operandi da cidade de São Paulo, em meio ao seu crescimento, vejo as histórias do meu avô e em consequência, a história da garoa. Quando percebi isso, passei a escutar mais samba e mais o meu avô, e também passei a olhar mais para o espaço público. Enfim, concluo com um conselho... Não que eu seja grande exemplo para alguma coisa, mas acredito e arrisco dizer a nós, jovens paulistas... Escutemos mais os senhores de idade, escutemos mais os sambas antigos e, talvez, entendendo essas letras e essas histórias, a gente consiga um dia transformar nossa terrinha em um lugar menos turrão e inabitável. Agindo diferente das gerações que nos antecederam e construindo uma cidade mais nossa.

domingo, 23 de dezembro de 2012

São Paulo continua garoando.

      Permance reclamando do excesso de perna que a Gota construiu. Foram bons anos- Ô se foram!- Mas um dia vem a velhice e todas as cachaças, os cigarros e a falta de sono baixam na saúde da gente da forma mais ardilosa que se pode baixar. Esse é o Seu Chico... Com gota, água no pulmão e chinelos que se arrastam em moto contínuo pelo quintal que ele mesmo cimentou.
      Seu Chico começou cedo. Era um portuguêsinho daqueles! Filho do Seu José, o Dono da Quitanda e da Dona Maria que ajudava o marido com as frutas. Seus pais vieram de Portugal depois da segunda grande Guerra com uma mão na frente e outra atrás esperando uma São Paulo que ainda ia ser construída. O Seu José, surdo de um ouvido por causa de um estilhaço de granada olhou os destroços de sua Europa natal e resolveu se mandar para a terra da garoa a onde o progresso e o emprego propagandeavam um futuro promissor. Dona Maria foi com ele. Pegou os quatro filhos e pôs no navio em meio aquele bando de gente fedendo a dias sem banho e a um sol de rachar a cuca. Com o passar dos mêses os quatro filhos não vingaram... Morreram de peste. As condições não eram boas dentro do navio e pouquíssimas crianças conseguiram aguentar a rota de Cabral. No entanto aquela portuguesada batalhadora guentou firme! E para compensar tiveram logo mais quatro bebês ao chegar na terrinha.
      Foi dai que nasceu Seu Chico. Chico era o mais novo e desde que saiu do ventre da mãe se inaugurou como uma peste! O pai queria porque queria que seu filho caçula conseguisse continuar os estudos, talvez, virar um Doutor (oportunidade que não cedeu a nenhum dos outros rebentos), mas Chico preferindo o bate bola, a paquera e a bicicleta mandou os estudos para as cucuias e resolveu trabalhar na fábrica.
      Nunca foi fácil para ninguém apertar parafuso, muito menos para um bom malandro. Não demorou muito até ele ficar de saco cheio e cair na cachaça. Chegava bêbado em casa, pintava o sete e ainda contava piada de português só para irritar o Seu José. Não queria mais aquela dependência. Não tinha saco para cuidar de Quitanda e ficar aguentando um português ex-militar descendo caraminholas nos seus ouvidos. Para resolver o assunto, aos dezoito anos decidiu servir o exército para conseguir se livrar do velho. Mas deu em bola fora... O Sargento o dispensou pela a altura, Seu Chico era nanico demais e não ia vingar no batalhão.
      Daí teve que continuar. Trabalhava em São Miguel, morava no carrão, frequentava os sambas junto aos crioulos e as italianadas que pintavam a fauna paulistana, jogava sinuca, andava de bicicleta e namorava a linda Gertrude, da família dos espanhóis (mas nessa vida puxada namoro nenhum funciona). Seu Chico chegava do trabalho cansado, sentava ao lado dela no sofá e caía direto no sono assustando toda a família da moça com seus roncos. Um dia, brava com toda essa história, Gertrude chamou ele de lado e disse:
-Assim, não dá! se é para ser assim melhor a gente casar de uma vez!
E casaram...
      Nem por isso cessou das bebedeiras. Logo já tinha duas crias e ainda assim infernizava a vida da geral. Chegava fedendo a álcool, quebrando coisas, descendo a lenha na criançada e na esposa sem nem dar boa noite. O trabalho era pesado e a vida era dura. Para aguentar o dia a dia da fábrica só com mais uma dose e outra dose, tornando dose dupla conviver com o carrasco. Mas não era assim sempre, Seu Chico tinha lá suas qualidades. Quando ficava sóbrio mudava literalmente do vinho para a água e se tornava um doce, usando muitas vezes do seu tempo livre para mostrar seu verdadeiro talento o de engenheiro. Eu digo engenheiro por que as coisas que ele fazia em sua casa eram de cair a boca. Uma mesa reaproveitada de uma velha bicama, uma churrasqueira feita de tijolos com chaminé, um esgoto, pias, privadas e até brinquedos. A casa era quase toda de coisas recalchutadas que ele mesmo bolou e construiu com as mãos intuitivas que Deus lhe deu.
      Foi indo na cadência dessa rotina. Passaram os anos e seus pais foram encontrar os filhos que perderam de peste lá no céu, Gertrude foi logo a próxima. Morreu dormindo em uma noite sem lua. Não deu muito tempo e os filhos sairam de casa, tiveram suas próprias crias e suas próprias aventuras, Seu Chico acabou ficando sozinho... Já não trabalhava mais (viveu um acidente que até hoje ninguém sabe se foi intencional ou não e conseguiu um dinheiro de renda dado pela empresa até o resto de sua vida). Permanecia sentado no botéco que fica na esquina da casa em que ele sempre viveu, bebendo mé e contando piada.
      Paralelo a isso uma São Paulo crescia. Conforme foi perdendo as pessoas, foi perdendo também os hábitos. Não podia mais pescar no Rio Aricanduva, não dava mais para caçar rã, os lampiões viraram lâmpadas fluorescentes e as casas que não foram demolidas cresceram para cima... Até sua velha vila, onde sempre morou já não era mais a mesma. Ali existia um Largo a onde a criançada brincava de bola a tarde inteira, esse Largo hoje só tem carros estacionados e quem chutar bola ali vai se ver com quem estacionou. Ali existiam famílias de japoneses, de italianos, de negros, de espanhóis e de portuguêses. Todos se conheciam, a maior parte era comerciante ou operário. Hoje tem um shopping ali perto, as fábricas se mandaram para o interior por falta de espaço e ninguém mais se conhece. O Seu Chico é o único homem de mais de setenta anos morando na mesma casa. Nada permaneceu igual, nada se manteve nas tradições. Só ele... Só ele e o Botéco.
      Mas um dia, sentado na mesa do bar, Seu Chico viu passar um filhote de vira-lata. O bicho andava sozinho bebendo água do esgoto, morrendo de fome e sem ninhada que o acompanhasse. De alguma forma o velho se reconheceu. Foi andando até a valeta, virou a dose que ele guardava, pegou o bicho e pôs para dentro de sua morada. O nome dele ficou Roberto. Fez uma casinha de madeira com uns materiais que encontrou em uma caçamba e começou a criar o bicho. Só os dois se entendiam. Roberto latia, Seu Chico falava e os dois no decorrer de doze anos contaram um para o outro diversas histórias da Paulicéia, vivendo em uma boa felicidade, repleta de calma e carinho.
       Depois desses doze anos nem o Roberto nem o Seu Chico morreram. Os dois continuam vivos, Seu Chico arrastando os chinelos pelo quintal, com gota, água no pulmão e saudades. Roberto o acompanhando, meio manco mas ainda expressando uns latidos desafinados. O problema é que no quintal a onde Seu Chico arrasta as sandálias não bate mais sol. Brotou um prédio enorme que faz uma sombra danada. Esse prédio, como todos os outros, eu tenho a certeza que indiretamente Seu Chico ajudou a construir. Digo isso, pois nessa terra de progresso tudo foi feito pelas mãos dos operários, dos quitandeiros, das donas de casa, dos bons malandros e até dos Robertos. Esses entes, feitos de bicicletas, paqueras, botécos, lampiões e rãs continuam atravessando as sombras hiperbólicas do progresso. São eles as fachadas antigas vivas no centro velho, são eles os vira-latas que sobraram nas ruas, são eles que encostam como fantasmas em jovens que permanecem tocando samba nas calçadas (vencendo a lei do psiu e a burguesia decadente dos bairros altos). São eles que construíram as histórias que a garoa conta, usando da ordem, do progresso e da libertinagem.
       São Paulo está com Gota e água no pulmão, mas está viva! Seu Chico está vivo!  Roberto ainda uiva para um resto de lua, as fachadas estão ai, a garoa ainda cai na nossa cabeça. O problema é que não há ninguém escutando as histórias do Seu Chico, ninguém olhando as fachadas, ninguém sentindo a garoa... São Paulo é uma terra sem tradição.
      Por fim, de algo eu tenho certeza. Enquanto os velhos arrastarem suas chinelas escondidos dentro de suas casas, enquanto as fachadas antigas ainda se esconderem em cima das vitrines coloridas, enquanto os botécos vencerem a lei do psiu botando a banda geral para dentro e fechando as portas. Seu Chico continuará vivo e a cidade de São Paulo vai continuar garoando. Pois quando o céu fica cinza e o ar fica úmido pode ter certeza que a garoa veio nos contar uma nova história.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Independência

No baixo-ventre das fachadas antigas
há sempre uma vitrine colorida
e em qualquer sombra de vida
que hoje existe em Vera Cruz
nos encosta o fantasma suicida
de Dona Maria, a Louca,
com os presentes que nos deu a Coroa:

Falange das Lights,
das Nikes,
das High Societies
e até dos Gatos Blau
Eu evoco os regalos!
eu evoco o enfarte
que ei de ganhar de Natal!

Fico com meu semblante cafeeiro
um Hamlet na multidão
mas me perco ao pé dos letreiros
proclamando como um cavaleiro
a independência da Avenida São João

Mas sem mais hipocrisias!
Fiquemos com a morte:

A República sou eu!
A Alforria sou eu!
A Inconfidência sou eu!
                                                           [Só eu...]
Pregado na cruz da igreja da Sé
ouvindo, respirando e vendo.
Mas principalmente gritando:

- Por que me abandonaste pai Tietê?
Por que me abandonaste?

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

A passada

As procuras,
os encontros,
as passadas...

- Vamos dar uma passada?

Minhas vinte luas
meus vinte milhões de cigarros
meus vinte mil copos de bebida
meus vinte e cinco amores
que na mesma espelunca
me pentearam as crinas

-Até quando será?

Até nunca...

Me bate uma brisa na nuca
um encosto mesclado de culpa
um espectro de pureza divina...

Até culpa?

Me veio o éter, a cocaína,
as tentativas de alegria...
Restou melancolia.

-A solução deve estar na doutrina...
Ou na terapia!

-Mais um cigarro?

Bem que eu queria parar...

-Mais um copo?

Bem que eu queria parar

- Mais um amor?

Bem que eu queria casar!

Logo eu que jurei
te negar por três vezes
até o galo cantar?

Eu quero parar!
eu quero parar!
eu quero parar!
                                                   


-Canta logo Galo! Faz mais um dia raiar!

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Poema de primavera

Toda mãe é uma primavera

-Nasce do ventre um botão de rosa-

Há de crescer
com pétalas e espinhos
colorindo todos os caminhos
com teu corpo de alma formosa

Toda mãe é uma poetisa

-Olha o mundo com alma gulosa-

Há de vencer
com seus estribilhos
brindando na graça do vinho
as mais velhas mazelas da prosa

Todo o filho é uma conquista

-Das guerras mais ardilosas-

Há de viver
entre o azevinho
armado de dor e carinho
com sorriso de alma ditosa

Por isso quando conheço uma mãe
meu coração se aquieta
Não há artista maior
pois é de seu sangue e suor
que hão de nascer os poetas

Mas pai também é mãe
e é também primaveril
tenho em mim essa certeza
pois carrego a eterna tristeza
da minha rosa que nunca se abriu

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Estátua de Drummond

                                                                                                Em homenagem ao bebado
                                                                                                da clássica foto da estátua de Drummond


Meu Carlos de Copacabana,
solitário e dominical
sentado na mesma bancada,
os olhos sobre a calçada
e as costas na Pedra do sal

Carlos,
poeta das Rosas,
sempre na mesma posição
os dedos cruzados
a cabeça de lado
vivendo em total solidão

                                                            [Ora, mas agora tu tens companhia!]


Lá vai de alcool o falador,
que só quer ouvir os teus versos
Por que você não responde?
Por que não recita alguma coisa?
Vamos Carlos! Anda!
Anda com a falange dos Lázaros!
levanta-te mineiro calado!
Pois esse homem sentado ao teu lado
só quer olhar por trás dos teus óculos
de pacato funcionário do estado

Sentou pois apareceu uma estátua de pedra em seu caminho!
Sentou porque uma flor nasceu na sua bancada!
Sentou por que Fulana não lhe deu atenção!
Sentou por Stalingrado!
Sentou por Mariquita!
Sentou pela repartição!
Sentou pela passagem do ano!
Sentou pelo teu coração...

Mas sentou.
e não foi para ser fotografado...

Sou esse homem, Carlos,
só quero te olhar escrever
sou teu Sebastianista
sou o bêbado que te clama conquistas
e uma flor a esperar para nascer

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Três da tarde

Na Avenida Latina
o relógio do Unibanco
digitaliza três da tarde

É futurismo, menina!
é puro turismo...
É a tal da tropical melancolia
que exala das Ilhas de Calor
escondidas nas mais altas latrinas

É turismo, menina!
é o meu velho turismo nativo...

Dia após dia me surpreendo
com a cidade que aparece no espelho
dos olhos dos seus tantos filhos

Bote néon, fumaça, buzina, estribilho, boiada,
bicheiros, bicheira, bitucas, pastores, privadas,
repentes, serpentes, perucas, parentes, cambadas
e bichas ensanguentadas...
e pretas ensanguentadas...

Mas deixe para lá!
Não há tempo para sangrar...
Faça assim, menina mimada,
Bote chão pelo centro
e me dê uma moeda trocada!

-Ah não quer dar?
Apelemos para a poesia:

É tão bonita minha amada
ao vê-la tenho um lampejo
Seus olhos tem a cor do azulejo
que enfeita a Ponte Estaiada

-Nem assim deu...

-Já são três e cinco na capital!
disse o Mosteiro da São Bento
gritaram as bichas ensanguentadas
me avisou a menina mimada
pintou o relógio do Unibanco
e o sol bateu nas fachadas

-Pare de vaidade
Já são três e sete!

Não há tempo para turistas
não há tempo para sangrar
não há tempo para a poesia
não há tempo para os olhos de ninguém...

Azulejos da ponte Estaiada?
Ora, pare de vaidade, vá trabalhar!
ou escolha melhor a metáfora

Tá bom... Vou tentar:

Bote chão pelo Centro!
Pé ante pé pela Ipiranga
São João, Botuporanga
até a morada do cão!

Boto meu pranto que é tanto!

É nada...
É só a garoa calada.
Vai molhando as fachadas das casas
os namorados e as namoradas...
os poemas e as proezas...
os turistas e as tristezas...
de minha alma ensanguentada!

É turismo menina?
-Não, é só futurismo...

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Vini, Vide, Vici.


Vide a vida!
solidão perpétua
só lido de perto
com meus metros de ego
e meus quilometros de dividas

Vini a vida!
hiato de encontros
se nasce
se morre
se larga
se chega
eterno confronto
etérea proeza

Vici a vida!
habemus ela
apud esta
idem aquela
paleta que resta
uma velha aquarela

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Água na boca

Rasgo meus lábios
carentes de água
desejo cumprir o desejo
de tornar do meu beijo
a mais imensa das cataratas

Naveguei na ilusão
enfrentando a tempestade
hoje sou um sertão de saudades
seco no meu coração
e vermelho de tanta vontade

Adeus enxurro das águas!
se despeça de minha boca virgem.
Tornei-me um homem deserto
com um coração de concreto
flanando na mais densa vertigem