sábado, 29 de dezembro de 2012

O samba, meu avô e minha cidade.

      Não sei ao certo de onde nasceu minha paixão pelo samba. Não nasci em comunidade, meus pais não são músicos e eu não tinha amiguinhos que gostavam disso. O que eu me lembro é de em minha infância meu pai escutar muitas vezes uma coletânea em disco do grupo vocal Demônios da Garoa. Essa lembrança tem um gosto de encantamento e nostalgia. Era muito divertido escutar aquela italianada cantando.
      Na essência daquelas músicas existia uma boêmia peralta e meio estrangeira. Meu avô Toninho era filho de imigrantes, boêmio e fazia sacanagem com todo mundo. Daí, além de me divertir, na minha inocência de criança eu associava aquilo ao meu avô.
      Mas não foi exatamente pela lembrança do meu avô e pelo divertimento que esse gosto me baixou. Fui crescendo e fui reparando que associar o pai do meu pai ao samba daquela gente não era uma mera inocência de garoto. Digo isso porque o samba em São Paulo no século XX foi uma manifestação popular que cantou o desenvolvimento da metrópole. Isso se deu tanto do lado dos sambas de operários como do lado do pessoal de Pirapora e dos sambas dos engraxates.
       Quando percebi isso, me pegava pensando: Como pode toda essa integração de culturas? Imigrantes cantando música de preto e falando por meio de uma manifestação essencialmente do povo sobre o desenvolvimento da cidade?  No samba paulista há sem a mínima dúvida uma mescla grande de contradições e essas contradições são dadas por meio das crônicas sobre o cotidiano de uma metrópole em que o trabalho e a diversidade foram os pilares de seu crescimento.
       Isso me faz voltar ao meu avô. Ele, assim como muitos, conta histórias que só não deram em samba por que não tinha ninguém com um violão do lado, histórias do seu cotidiano enquanto operário e das saudades dos espaços que foram demolidos ou sobrecarregados por prédios em alto desenvolvimento.
Outro dia mesmo, sentado no banco que ele mesmo construiu, começou a puxar aquele sotaque antigo e carregado do povo da paulicéia, como se começasse a baixar alguma entidade contadora de histórias:
- Essa casa aqui fui eu mesmo que fiz tudo. Depois de conseguir botar as cerca e levantar os muro só me faltava fazer o esgoto. Naquele tempo era assim... Num tinha dinheiro para fazer, fazia a gente memo. Daí chamei o Milton, o Tatu e o Tião para me ajudar, pois eu precisava dos camarada para conseguir mexer naquela fossa cheia de porcaria que tinha antes do esgoto. Foi assim, enfiei o braço na fossa e fiquei com a cara quase no nível da água cheia de sujeira. Eu fiquei mexendo nas coisa com a mão lá embaixo e a única coisa que eu gritava pros camaradas era - NUM FAIZ ONDA, PELAMOR DE DEUS!- Naquele dia eu bebí uma garrafa inteira de cachaça... e não fez efeito!
        Daí dá para a gente ver quase um Joca e um Matogrosso, da saudosa música de Adoniran Barbosa, levantadores de um barracão. Gente que, como dizia Plínio Marcos, "Come da banda podre e só berra da geral sem influir no resultado", gente que foi desabrigada das casas que construiu para uma São Paulo crescer, gente que construiu a São Paulo que a desabrigou. Gente fodida, mas que segue acreditando e contando suas histórias.
       Mas não é sempre assim tão direto que na fala dele bate o progresso da Paulicéia. Outro dia mesmo ele engrenou para outra história:
- Se um dia tava calor, os operários todos deixavam o macacão pendurado na parte de fora da fábrica. Eu pegava lã de rocha, que coça pra caramba, e esfregava no macacão deles... Daí eles ficavam tudo se coçando para lá e para cá e eu fingia que tava me coçando também para ninguém descobrir que fui eu...
       Dá-lhe a peraltice, dá-lhe um jeito de tornar a vida de trabalhador uma coisa mais engraçada, pregando peças e coisas que só eram possíveis em um tempo em que havia mais liberdade. Eu digo liberdade porque apesar de penar demais dentro dos macacões, essa gente tinha uma cidade que de alguma forma era mais entregue aos seus entes. O povo ficava na rua, o céu ainda podia ser visto, o rio ainda podia ter gente nadando... Hoje, quando a gente passa pela rua, na maior parte das vezes, é indo de um lugar onde a gente se sente seguro (como uma propriedade privada, nossa casa ou a casa de amigos) até um lugar onde a gente também se sente seguro (consumindo de alguma forma, como um bar, um shopping ou qualquer outro espaço desses). Do rio a gente quer passar longe, e o céu, para ser visto, é preciso que o cabra se mexa para não ver só a sombra.
       Esse povo, que conta suas crônicas por meio do samba, ou por meio de um banquinho, é uma gente que conta a história dessas mudanças... Mudanças que, às vezes, ouvindo um samba que fala de demolição, a gente acha que ficaram no século XX e se esquece de associar com o que está sendo feito agora com o Largo da Batata, por exemplo, ou com outros lugares que estão deixando de ser espaços democráticos dentro do meio urbano, para se tornarem espaços cada vez mais privados e menos públicos.
       No samba que fala do progresso e do modus operandi da cidade de São Paulo, em meio ao seu crescimento, vejo as histórias do meu avô e em consequência, a história da garoa. Quando percebi isso, passei a escutar mais samba e mais o meu avô, e também passei a olhar mais para o espaço público. Enfim, concluo com um conselho... Não que eu seja grande exemplo para alguma coisa, mas acredito e arrisco dizer a nós, jovens paulistas... Escutemos mais os senhores de idade, escutemos mais os sambas antigos e, talvez, entendendo essas letras e essas histórias, a gente consiga um dia transformar nossa terrinha em um lugar menos turrão e inabitável. Agindo diferente das gerações que nos antecederam e construindo uma cidade mais nossa.

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