domingo, 30 de dezembro de 2012

Os encalços dos amores

"No encalço dos amores
calço o pé que não me cabe.
Amores são como sapatos
e eu sou um homem descalço
que nunca achou um par perfeito
mas que sabe que se um dia encontrar
será preciso mandá-lo ao sapateiro.
-O amor é algo a se consertar-"

José Maurício Prado e Costa; Os encalços dos amores.


      Os encalços dos amores. Amores são como sapatos? Hoje calço uma loura, amanhã um negro, depois de amanhã uma japonesa e, dessa forma, me tomo a calçar os mais bonitos sapatos que me dão. Meu pé não tem tamanho e os sapatos muito menos. Daí caminho pela rota das perguntas. Meu pé se adequa? Ou o sapato que se adequa a meu pé? Sei que ele busca um par pefeito que não existe, pois nem sapato nem amor serve no pé e no coração encaixando direitinho.
      Ai se dão as coisas. É difícil demais... Em casal a gente vive uma loucura de sentir o pé apertado. Em solteiro a gente vive a loucura de pisar nas pedras descalços. Na velhice então, a gente vive o prazer de um pé quase já diminuído, onde não há porque nem sentido algum de se calçar outra coisa (só de já vestir o mesmo sapato velho que quando bate a criatividade a gente reforma no sapateiro).
      Vejo um casal de amigos... Me vejo quando eu era casal, tantas loucuras... Em prol de que? De uma vida junto? Às vezes, penso que tanto os calçados, quanto os amores, quanto a vida, quanto a poesia não tem sentido em si se não o que esses mesmos se dão.
       Felicidade? Se for felicidade são os mesmos estágios do sapato. Uma grande alegria em ter um novo e, quem sabe um dia a sorte de achar aquele par para a vida toda. Mas sempre lembrando que é preciso primeiro lacear para depois usar para sempre.
      É necessário ser um curioso a um extremo violentíssimo para amar. Mas também é preciso não ser só um curioso sedento, é preciso querer ceder... A paciência é necessária.
      Vejo meus amigos solteiros. Lá em casa é uma coisa de louco, moramos em sete meninos e toda vez que algum começa a namorar é quase uma traição para todos:
- Cadê o fulano?
-Tá na casa da fulana.
-EEE viu... Esse negócio já deu no que tinha que dar...
      Ciúmes dos sapatos dos outros? Olha, pode até ser, mas acho que se for ciúme não vem sozinho... Vem também com uma preocupação com o camarada, com coisas que a gente se rebela (como um relacionamento convencional), com o medo do cara perder parte da juventude, estar sendo feito de bobo ou qualquer outra coisa. É ai que a gente esquece como é se relacionar com alguém. O grau de complexidade que essa história chega. Não é fácil amarrar um sapato, não é facil laceá-lo. E na vida a dois, ou a três, ou a quantos preferir, esses que são brancos, pretos ou verdes que se entendam!
     Mas por fim, o pouco que aprendi sobre amores e sapatos, tanto lendo quanto vivendo. Não foi nada. Não há muito como aprender, não há nada o que aprender racionalmente... A gente só tem como vestir o sapato que escolheu. Às vezes o mesmo, às vezes um por noite, ou mais de um... Depende do evento, não é?
     De qualquer forma, meu querido leitor, peço para que não se assuste com a metáfora escolhida (os sapatos), e que me dê o espaço para que eu faça uma pequena auto-correção. No terceiro parágrafo dessa pequena crônica desorganizada, eu falei que os amores, os poemas e os sapatos só tem sentido neles mesmos. Mas nesse ultimo parágrafo acabo de perceber que no meu texto inteiro eu fiz o contrário a esse argumento pois atribui diversos sentidos ao amor usando de algo que está fora do amor como, no caso, os sapatos. Isso quer dizer que de fato as coisas não tem sentido nas próprias coisas, se tivessem, não faríamos nem amor, nem poesia. Nós somos seres de metáforas. Nós somos quase uma alegoria.

Por fim... Procuremos um bom sapato, então!

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