domingo, 23 de dezembro de 2012

São Paulo continua garoando.

      Permance reclamando do excesso de perna que a Gota construiu. Foram bons anos- Ô se foram!- Mas um dia vem a velhice e todas as cachaças, os cigarros e a falta de sono baixam na saúde da gente da forma mais ardilosa que se pode baixar. Esse é o Seu Chico... Com gota, água no pulmão e chinelos que se arrastam em moto contínuo pelo quintal que ele mesmo cimentou.
      Seu Chico começou cedo. Era um portuguêsinho daqueles! Filho do Seu José, o Dono da Quitanda e da Dona Maria que ajudava o marido com as frutas. Seus pais vieram de Portugal depois da segunda grande Guerra com uma mão na frente e outra atrás esperando uma São Paulo que ainda ia ser construída. O Seu José, surdo de um ouvido por causa de um estilhaço de granada olhou os destroços de sua Europa natal e resolveu se mandar para a terra da garoa a onde o progresso e o emprego propagandeavam um futuro promissor. Dona Maria foi com ele. Pegou os quatro filhos e pôs no navio em meio aquele bando de gente fedendo a dias sem banho e a um sol de rachar a cuca. Com o passar dos mêses os quatro filhos não vingaram... Morreram de peste. As condições não eram boas dentro do navio e pouquíssimas crianças conseguiram aguentar a rota de Cabral. No entanto aquela portuguesada batalhadora guentou firme! E para compensar tiveram logo mais quatro bebês ao chegar na terrinha.
      Foi dai que nasceu Seu Chico. Chico era o mais novo e desde que saiu do ventre da mãe se inaugurou como uma peste! O pai queria porque queria que seu filho caçula conseguisse continuar os estudos, talvez, virar um Doutor (oportunidade que não cedeu a nenhum dos outros rebentos), mas Chico preferindo o bate bola, a paquera e a bicicleta mandou os estudos para as cucuias e resolveu trabalhar na fábrica.
      Nunca foi fácil para ninguém apertar parafuso, muito menos para um bom malandro. Não demorou muito até ele ficar de saco cheio e cair na cachaça. Chegava bêbado em casa, pintava o sete e ainda contava piada de português só para irritar o Seu José. Não queria mais aquela dependência. Não tinha saco para cuidar de Quitanda e ficar aguentando um português ex-militar descendo caraminholas nos seus ouvidos. Para resolver o assunto, aos dezoito anos decidiu servir o exército para conseguir se livrar do velho. Mas deu em bola fora... O Sargento o dispensou pela a altura, Seu Chico era nanico demais e não ia vingar no batalhão.
      Daí teve que continuar. Trabalhava em São Miguel, morava no carrão, frequentava os sambas junto aos crioulos e as italianadas que pintavam a fauna paulistana, jogava sinuca, andava de bicicleta e namorava a linda Gertrude, da família dos espanhóis (mas nessa vida puxada namoro nenhum funciona). Seu Chico chegava do trabalho cansado, sentava ao lado dela no sofá e caía direto no sono assustando toda a família da moça com seus roncos. Um dia, brava com toda essa história, Gertrude chamou ele de lado e disse:
-Assim, não dá! se é para ser assim melhor a gente casar de uma vez!
E casaram...
      Nem por isso cessou das bebedeiras. Logo já tinha duas crias e ainda assim infernizava a vida da geral. Chegava fedendo a álcool, quebrando coisas, descendo a lenha na criançada e na esposa sem nem dar boa noite. O trabalho era pesado e a vida era dura. Para aguentar o dia a dia da fábrica só com mais uma dose e outra dose, tornando dose dupla conviver com o carrasco. Mas não era assim sempre, Seu Chico tinha lá suas qualidades. Quando ficava sóbrio mudava literalmente do vinho para a água e se tornava um doce, usando muitas vezes do seu tempo livre para mostrar seu verdadeiro talento o de engenheiro. Eu digo engenheiro por que as coisas que ele fazia em sua casa eram de cair a boca. Uma mesa reaproveitada de uma velha bicama, uma churrasqueira feita de tijolos com chaminé, um esgoto, pias, privadas e até brinquedos. A casa era quase toda de coisas recalchutadas que ele mesmo bolou e construiu com as mãos intuitivas que Deus lhe deu.
      Foi indo na cadência dessa rotina. Passaram os anos e seus pais foram encontrar os filhos que perderam de peste lá no céu, Gertrude foi logo a próxima. Morreu dormindo em uma noite sem lua. Não deu muito tempo e os filhos sairam de casa, tiveram suas próprias crias e suas próprias aventuras, Seu Chico acabou ficando sozinho... Já não trabalhava mais (viveu um acidente que até hoje ninguém sabe se foi intencional ou não e conseguiu um dinheiro de renda dado pela empresa até o resto de sua vida). Permanecia sentado no botéco que fica na esquina da casa em que ele sempre viveu, bebendo mé e contando piada.
      Paralelo a isso uma São Paulo crescia. Conforme foi perdendo as pessoas, foi perdendo também os hábitos. Não podia mais pescar no Rio Aricanduva, não dava mais para caçar rã, os lampiões viraram lâmpadas fluorescentes e as casas que não foram demolidas cresceram para cima... Até sua velha vila, onde sempre morou já não era mais a mesma. Ali existia um Largo a onde a criançada brincava de bola a tarde inteira, esse Largo hoje só tem carros estacionados e quem chutar bola ali vai se ver com quem estacionou. Ali existiam famílias de japoneses, de italianos, de negros, de espanhóis e de portuguêses. Todos se conheciam, a maior parte era comerciante ou operário. Hoje tem um shopping ali perto, as fábricas se mandaram para o interior por falta de espaço e ninguém mais se conhece. O Seu Chico é o único homem de mais de setenta anos morando na mesma casa. Nada permaneceu igual, nada se manteve nas tradições. Só ele... Só ele e o Botéco.
      Mas um dia, sentado na mesa do bar, Seu Chico viu passar um filhote de vira-lata. O bicho andava sozinho bebendo água do esgoto, morrendo de fome e sem ninhada que o acompanhasse. De alguma forma o velho se reconheceu. Foi andando até a valeta, virou a dose que ele guardava, pegou o bicho e pôs para dentro de sua morada. O nome dele ficou Roberto. Fez uma casinha de madeira com uns materiais que encontrou em uma caçamba e começou a criar o bicho. Só os dois se entendiam. Roberto latia, Seu Chico falava e os dois no decorrer de doze anos contaram um para o outro diversas histórias da Paulicéia, vivendo em uma boa felicidade, repleta de calma e carinho.
       Depois desses doze anos nem o Roberto nem o Seu Chico morreram. Os dois continuam vivos, Seu Chico arrastando os chinelos pelo quintal, com gota, água no pulmão e saudades. Roberto o acompanhando, meio manco mas ainda expressando uns latidos desafinados. O problema é que no quintal a onde Seu Chico arrasta as sandálias não bate mais sol. Brotou um prédio enorme que faz uma sombra danada. Esse prédio, como todos os outros, eu tenho a certeza que indiretamente Seu Chico ajudou a construir. Digo isso, pois nessa terra de progresso tudo foi feito pelas mãos dos operários, dos quitandeiros, das donas de casa, dos bons malandros e até dos Robertos. Esses entes, feitos de bicicletas, paqueras, botécos, lampiões e rãs continuam atravessando as sombras hiperbólicas do progresso. São eles as fachadas antigas vivas no centro velho, são eles os vira-latas que sobraram nas ruas, são eles que encostam como fantasmas em jovens que permanecem tocando samba nas calçadas (vencendo a lei do psiu e a burguesia decadente dos bairros altos). São eles que construíram as histórias que a garoa conta, usando da ordem, do progresso e da libertinagem.
       São Paulo está com Gota e água no pulmão, mas está viva! Seu Chico está vivo!  Roberto ainda uiva para um resto de lua, as fachadas estão ai, a garoa ainda cai na nossa cabeça. O problema é que não há ninguém escutando as histórias do Seu Chico, ninguém olhando as fachadas, ninguém sentindo a garoa... São Paulo é uma terra sem tradição.
      Por fim, de algo eu tenho certeza. Enquanto os velhos arrastarem suas chinelas escondidos dentro de suas casas, enquanto as fachadas antigas ainda se esconderem em cima das vitrines coloridas, enquanto os botécos vencerem a lei do psiu botando a banda geral para dentro e fechando as portas. Seu Chico continuará vivo e a cidade de São Paulo vai continuar garoando. Pois quando o céu fica cinza e o ar fica úmido pode ter certeza que a garoa veio nos contar uma nova história.

2 comentários:

  1. Mesmo sem você leio seus textos em voz alta! hahaha
    Muito bonito este conto, de verdade. Falar que você escreve bem já até se torna repetitivo de minha parte.

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  2. Dá uns arremates no texto, e lembra que foi a 1a Guerra, não a Segunda! Aí tem Samba!

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