quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Três da tarde

Na Avenida Latina
o relógio do Unibanco
digitaliza três da tarde

É futurismo, menina!
é puro turismo...
É a tal da tropical melancolia
que exala das Ilhas de Calor
escondidas nas mais altas latrinas

É turismo, menina!
é o meu velho turismo nativo...

Dia após dia me surpreendo
com a cidade que aparece no espelho
dos olhos dos seus tantos filhos

Bote néon, fumaça, buzina, estribilho, boiada,
bicheiros, bicheira, bitucas, pastores, privadas,
repentes, serpentes, perucas, parentes, cambadas
e bichas ensanguentadas...
e pretas ensanguentadas...

Mas deixe para lá!
Não há tempo para sangrar...
Faça assim, menina mimada,
Bote chão pelo centro
e me dê uma moeda trocada!

-Ah não quer dar?
Apelemos para a poesia:

É tão bonita minha amada
ao vê-la tenho um lampejo
Seus olhos tem a cor do azulejo
que enfeita a Ponte Estaiada

-Nem assim deu...

-Já são três e cinco na capital!
disse o Mosteiro da São Bento
gritaram as bichas ensanguentadas
me avisou a menina mimada
pintou o relógio do Unibanco
e o sol bateu nas fachadas

-Pare de vaidade
Já são três e sete!

Não há tempo para turistas
não há tempo para sangrar
não há tempo para a poesia
não há tempo para os olhos de ninguém...

Azulejos da ponte Estaiada?
Ora, pare de vaidade, vá trabalhar!
ou escolha melhor a metáfora

Tá bom... Vou tentar:

Bote chão pelo Centro!
Pé ante pé pela Ipiranga
São João, Botuporanga
até a morada do cão!

Boto meu pranto que é tanto!

É nada...
É só a garoa calada.
Vai molhando as fachadas das casas
os namorados e as namoradas...
os poemas e as proezas...
os turistas e as tristezas...
de minha alma ensanguentada!

É turismo menina?
-Não, é só futurismo...

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