quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Óde(o) ao cosmpolita. (Poema Reacionário)

A verdade é que o velhardar dos anos
mostra a decadência do cosmopolita.

                                                           [Não mais serve procrastinar]

Os cigarros caídos nas bocas
em cada lábio da boêmia paulista
repletos de conceitos mal entendidos
preenchem as mesas vermelhas
e mostram as três da manhã
nossa pequenez infernal
a onde nada do que dizemos é resposta.

Quando quase se rompe a manhã
me ponho a no fundo acreditar
que Deus resolve surgir
e com ele a esperança de um palpite
de como viver sem somente existir

É ai que cansamos de ser Baudaleire!
E que esquecemos a irônia de Belmondo!
E queimamos o sorriso de Antoine Doneill!

É ai que quero ser Zé!
e Zé é dificil demais....
É difícil acordar de manhã
tomar um ônibus cheio
e não ganhar o dinheiro dos pais...

É difícil,
Após oito horas de humanidade
por trás de um balcão de loja
falar de densidades
de poesia, de glosa,
sem ter em conta a verdade.

                                                      [Somente dinheiro para pagar a conta do bar]
Vindo de um cheque especial
bem requisitado por patrocinadores
-advogados, comerciantes ou professores-
que criaram uma prole de melhor educação
para fazer do seu dinheiro um grande mal

E é de fato um grande mal
beber a batalha de outros
fumar o suor de um velho
falar pela madrugada
a partir de outras tiras de couro
fingindo que é um homem sério.

Mas a noite acaba, cosmopolita!
O dia morre...
Com ele vão tuas células
e junto tuas tantas cédulas
que o trabalho de outro pagou

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Poema de Natal

-Por favor, me passe a maionese?

E espero receoso a guarnição
composta pelo casal indisposto,
pelo avô doente, pelo irmão vagabundo,
pelos projetos que não foram realizados
pelas saudades dos que já se foram
e pelos rancores que colorem as famílias

- Tio, me passe o Peru!

Esse, então, vem recheado
de mágoas escarola e queijo
em fatias de melancolia


-Lembra, quando a vovó cuidava de você?

-Lembro...
                                         [Memórias póstumas sobre as bandejas de prata]

- Olha o Pudim!!!

Lá vem a maldita sobremesa,
coberta por um caldo espesso
de pressões e cobranças
imersas em um futuro promissor.

-Que venha o café!

Mas ninguém bebe café nessa data
em ceias de Natal só é possível beber
as lágrimas brancas da mediocridade
que pela manhã, por contra-vontade,
molham a sacola de carvão
que deixaram embaixo da árvore.

Ceia de Natal

      Esse é um dia diferente. Na Avenida Paulista a coisa já está estranha desde Novembro... Me deparei andando por ali com um Papai Noel imenso em cima das Lojas Pernambucanas ao lado do Metrô da Linha Amarela e me assustei. Como pode? Um mendigo deitado ao pé da estação, pedindo esmolas e um Papai Noel cheio de presentes que se recusa a entregar umzinho ao cabra que com esperanças só tende a estender a mão suja a um passante. Uma sacanagem danada... Quase uma piada sem graça.
      Eu digo piada sem graça pois do lado da festa pagã que o cristianismo incorporou (festa que em suas origens servia para celebrar o solstício de inverno no hemisfério Norte, por isso Pinheiros, Perû e o caramba), passa uma mendiga com os peitos de fora embaixo do Papai Noel coberto de feltro e lã sofrendo um sol de rachar a cuca. A mulher dança uma música qualquer, como um rock ou um sertanejo para tentar a vida, implora por esmolas e acaba descolando uns poucos vinténs para beber seu elixir. Papai Noel em cima das Lojas Pernambucanas... Pois é... Piada sem graça... Piada de sofrer sem rir, piada que para a gente só representa o imperialismo e a tristeza de tanto comer coisas indigestas nesse calor de fritar as pacovitas.
      De qualquer forma, só passei por ali de manhã... Agora já é de madrugada e o menino Jesus já não é mais tão menino, já fez dois mil e doze anos. Já eu, na lira dos vinte, comemoro sem nem saber por que os meus vinte anos de família em meio aos dois mil e doze anos dessa alma iluminada. Vinte ciclos regados de Papai Noel e mendigos que estendem as mãos, postos ao imperialismo e a tristeza de tanto comer. No fim sou eu que estou preso sobre as lojas Pernambucanas, pois são elas que fazem o natal da minha casa. Mamãe serve a ceia em cima da mesa que eles construíram, depois a gente assiste a Globo na televisão das casas Bahia, e guarda a comida na geladeira do Ponto Frio... Por que? Por que? Por que?
      Mas enfim, em meio a esses tantos por ques, hoje me deparei com um por que mais essencial.
Eu venho de uma família grande. Meus avós vieram do Líbano no final do século XIX, daí em diante da-lhe cria atrás de crias que foram se dissipiando. Hoje, minha família mais próxima tem em torno de uns vinte poucos primos de primeiro grau, oito tios, um monte de primos de segundo grau e vai lá saber quantos de terceiro... Quando a gente se reúne em família bote uns cinqüenta que aparecem por ali.
      Normalmente aqui em casa juntam poucos. Daí que bate a coisa mais maluca. Vejam só que hoje mesmo nos encontramos em uns dez aqui em casa (os primos mais próximos). Mamãe fez um bacalhau, somos todos meio naturebas e na maior parte da ceia só tinha coisa verde ou peixe. É claro, muita bebida. Mas de comer era pouca coisa que dava enfarto. Com o tempo falamos de vovó, que já faleceu, de trabalho, de política, de espiritualidade... O namorado de mamãe tentando se inturmar... Todo mundo tentando alguma coisa, tentando e tentando cada vez mais dar sentido para aquela história toda. Mas sem conseguir... Conseguindo mais ou menos... Mas só por que no natal a gente fica mais aberto para conversar por que TEM QUE  conversar... Tem que fazer acontecer.
      Daí, em determinado momento, começaram a falar de mim. Tentei sair pela tangente, mas não foi fácil. Me fizeram voltar para mesa.  Minha mãe, cheia de orgulho começou a falar das coisas que eu escrevia e vai e vem a gente caiu na crônica que eu escrevi sobre a história de minha avó. Minha tia, foi falar do que ela não gostou e começou com um papo de que ela tinha sido mal interpretada em relação a sua própria vida na crônica. Foi então que caiu a páscoa em Maio... Um tentava explicar, o outro não sabia o que dizer, aquele nem sabia o que falar e eu... Sozinho nessa, não entendi nada do que aconteceu.
       Foi então que em meio a mesa, baixou sobre mim um papai noel fantasma que eu nem entendi por que estava lá. Vi minha familia discutindo sobre escritores, chegando a conclusões incríveis, dos papeis das crônicas, dos vínculos entre ficção e realidade... E eu, quieto e sentado, me comovi. Reparei que ali algo de fato estava acontecendo... Não se dava mais como mera formalidade, mas sim como um verdadeiro processo de vivência e enxerguei, pela primeira vez nessa festa, depois de velho, um espaço fértil.
       Mas um tempo depois saímos daquela conversa, acabou o bacalhau e a cerveja e como toda a festa de natal cada um foi saindo mais a francesa que o outro e eu acabei ficando sozinho, de frente para essa tela branca de computador.... Agora, abaixando a cabeça para os meus fantasmas e para esses tantos anos que a humanidade celebra essa data, só tenho como acabar essa crônica confusa e sem estrutura, porém, sincera e emocionada, desejando a todos que se emocionam com esses pequenos lapsos de verdade que dão razão a esse espécie de data, um profundo e verdadeiro, feliz Natal.

                                                                          25 de Dezembro de 2012

Grito mudo.

Quero gritar de cima da estátua da Mãe Preta:

-Sou dela por toda a vida!
e todos os homens apressados
hão de anotar em seus calendários
que um dia o poeta declarou seu amor.

Mas hão de esquecer também
a partir da semana seguinte
quando o trabalho e a família
engolirem o seu vigor...

Daí eu grito de novo!
E dessa vez da antena da Gazeta:

-Ei de amá-la por toda a existência!

E só por insistência
os mesmos homens hão de esquecer-me
dessa vez pelas amantes ou pelos Hotéis-Fazenda
ou mesmo pelas antigas ementas
que legitimam sua inocência
e um pouco do seu pavor

Daí grito outra vez:

-É por ela que vivo a vida!

E sei que ei de permear a lida
dos fortes homens cor de tesouro
que puxam a canoa do Monumento as Bandeiras...

Mas são homens de pedra
que continuarão puxando,
e trabalhando
e traindo
em meio aos rebuliços
dos tantos comandos
que a cidade os ditou.

Meu grito parado no ar
bate na densa nuvem de cinismo
e volta ao abismo dos meus ouvidos
para nunca mais poder tocar a cidade

e o verso,
               enfim,
                          desabar.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Amor

Desde a mais tenra infância
sempre gostei de maçãs
são elas as frutas mais autênticas
não há forma no mundo mais frutífera
que uma redonda e vermelha
suculenta e pecaminosa
maçã.

Basta as observarmos
cheias de um sabor amarelo
em meio aos dedos que abraçam
toque por toque do seu alimento

Basta sentirmos
a doçura do mel
a cor dos seus gestos
a casca de suas formas

É de fato minha fruta predileta, a maçã...

Mas de que vale tanto vale-las?
Se é esta a fala da serpente.
Se de tanto engoli-las uma hora degluto
o gosto duro do seu enjôo profano...
Se de tanto quere-las, parece que já não me querem...
Se de tanto tocar a carne dos lábios em seu corpo vermelho
parece que se endurecem em diferentes temporadas do ano.

Só gostar das maçãs não basta
é necessário cultivá-las
e saborear as fibras rosadas,
das suas imensas manhãs.

no(s) teu(s)



                        O     L     H     A        R                     V    I                    O                  F    A    R    O   L
                        v      a       o     m        a                       e                                                               a           o
                        u      b      m     o         n                                                   n                          s      s          
no(s) teu(s)     l       i       e      r          h                     r                                                 a      t      t      l    m
                        o      o      n      e          o                     d     p                    i                    r       r     r     h    b
                
              s    s    s   s   s             e  e            X         o    o  o  o  o
                                                               
                                                                                            me perdi.

Rio da Prata





                                                                         Para os queridos; Lázaro e Daniela.










Na calmaria abissal
dessas caudalosas águas azuis
existiam pedras preciosas
e por cada prata retirada por uma mão española
para ser convertida em plata
existiu uma ferida fria e escarlate
escorrendo nas costas douradas de um índio

Na calmaria aflitiva
do meu estômago de turista
existe uma moeda local
e por cada dóllar que troquei em um câmbio paralelo
para ser convertido em Peso Argentino
existiu uma ferida fria e escarlate
cortada nas palmas duras de um boliviano

Aqui estou eu.
Com os pés submersos nas águas vermelhas do Rio da Prata
metade espanhol,
metade selvagem.
Meu pulso direito é pálido e carrega um chicote
meu esquerdo é dourado e carrega um corte de sangue

Não sei se golpeio
não sei se recebo
Mas sei que as águas Porteñas não me podem curar
só podem fazer arder profundamente
minha eterna ferida aberta
de colonizado colonizador.

                                                                  Rio da Prata/Aeroporto EZE/ Dezembro de 2013

sábado, 21 de dezembro de 2013

Não existem velhos como os das grandes cidades.

Lugar nenhum produz velhos
como se produz uma metrópole.
Caminham entre o café da manhã e o almoço
apertando por baixo do braço seus jornais

Você diz a eles:
-Bom dia!

Alguns respondem surpresos por terem sido lembrados.
Outros curvam as sobrancelhas observando quem chama
e amargamente respondem um grave:
 -Bom dia... (Quando respondem)

Não existem velhos como os das grandes cidades
alguns, muito arrumados, vestem camisas pólo turquesa ou musgo
Outros são como são; Bermudas e varizes clareadas pelas ilhas de calor.

Uns por saudade bebem muito
e clamam ao dono do botequim que tudo mudou...

Outros se orgulham dos diplomas dos filhos
e sentem muita falta ao sentar para jantar.

Mas  todos, quando chega o poente,
cobrindo de escuridão os arranha-céus
se debruçam a esperar a morte
e se arrependem do que deixaram de fazer.

Não existem velhos como os das grandes cidades
Tanto faz se comem croissant
ou se bebem aguardente.

                                                                                              Buenos Aires; Dezembro de 2013

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Só confio no artista

Só confio no artista que não vê separação
entre viver e trabalhar.
Os olhos brilhantes de um aedo
nunca desabam em sono
pois só depois de madrugar os outonos
a morte há de chegar
e só quando o poeta estiver afônico
quando seu canto não se por histriônico
ele há de se permitir descansar

Só acredito no artista
que recusa a auto-piedade
pois poeta que não é de revista
torna a sua vida uma obra de arte

Não me interessam horários
agendas, cronogramas ou ementas
o artista não tem escapatória
teu coração é a própria palmatória
que faz dele a sua própria lenda

Só confio no artista que no meio da ilusão
entre viver e sonhar
acaba por preferir a primeira opção
pois a verdadeira utopia é trabalhar
e levantar passo por passo
a música que deseja dançar

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Domingo Paulistano

Nada me aflige mais
que um domingo paulistano.

Nele se forma o elo
das poucas conquistas
dos dias deixados para trás
com as grandes batalhas
dos próximos anos

E tudo isso olhando Fausto Silva
transmitir suas vídeo cacetadas...

No primeiro dia da semana
em toda a imensa metrópole
pais de bermuda e camisa pólo
invadem os parques da cidade
e gastam bifes de seus salários
comprando doces para suas crianças

E tudo isso com os parentes
dizendo que a casa está desarrumada...

No dia em que Deus descansou...
são paulo descansa acordado
teu sétimo dia de pouco salário
é transmitido com o Corinthians
distribuindo chutes pelo gramado

E tudo isso com a maionese caseira
que mais uma vez saiu empapada...

Nada me aflige mais
que um domingo em São Paulo
se eu fosse Deus trabalharia nesse dia
começaria explodindo os picolés dos casais
depois negaria a falsa esperança dos cinemas
quebraria a perna dura dos boleiros
e por fim, arrancaria os dedos rosados das tias gordas
para que nunca mais apertem as bochechas de seus sobrinhos




Nada me aflige mais
que notar o passar dos anos...

domingo, 3 de novembro de 2013

Triângulo

                              e se repete a mesma toada dos trezentos




                                EU                                                    ELE




                                                         
                                                           TU





                                     valsa ternária de pronomes pessoais
                                 

                                               em terno ritmo lento


                                                  nos toques finais
                                                   
                                                       do tom
                                                     
                                                         azul

                                                     
                                                         Daí
                                                     
                                                     um ponto
                                                  encontra outro
                                            que encontra mais outro
                                           e a valsa torna-se um blues.
                                           
                                            Então outra vez acabo a sós.
                                             Pois valsa se dança a dois
                                              pego a vassoura no salão
                                                e deixando o triângulo
                                                  o pronome pessoal
                                                      se torna eu
                                                        e deixa
                                                         de ser
                                                   
                                                     
                                                          NÓS
                                            

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Nós não somos de nada, Pedro...

                                                          Para Pedro Paes, por nossos eternos sonhos de botequim


Nós não somos de nada Pedro...
Nossos sonhos de feltro e esperança
de ir passo a passo na carreira das andanças
tornando o espírito menos negro
e a vida água mais mansa
são sonhos impossíveis,
são sonhos de criança.

Nós não somos de nada Pedro...
Sobre a luz das horas
uma avenida interminável nos chama
os viadutos criam as sombras
e uma procissão de pombas
reza o luto das nossas infâncias

Nós não somos de nada Pedro...
O vício nos construiu.
Na nossa eterna língua de lança
moram os imortais males do tabaco
e no fígado a vontade que não cansa
de se tornar da vida um capacho

Nós não somos de nada Pedro...
O desejo é de viver a cada dia
mas cada dia é pouco a pouco
e nosso peito é um peixe morto
lançado no mar das revelias

Nossos sonhos são nada, Pedro... Nada!
Uma companheira,
três filhos e pitar um cigarro.
Rir juntos das besteiras
depois de um dia inteiro de trabalho
e poder contar vantagem
dizendo que do Brasil
conhecemos cada palmo!

Nós não somos de nada...
A vida é dura! O sol é quente!
a lua se põe na porta
simbora que agora é hora
que amanhã é dia de gente!

Nós não somos de nada, Pedro...
Mas se de nada fomos feitos
podemos ser tudo
basta subir as escadas de malte
encher o peito de ar
e olhar nos olhos do mundo

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Homem de branco

A luz me cega os olhos
e os ouvidos se comovem
com o soar prateado das trombetas
de uma estridente máquina humana.
Lá está o homem de branco
na contra-luz saída do túnel
em uma das mãos armas afiadas
na outra o espelho polido
usado em seus julgamentos

-Fumaste muito!
Bebeste demais!
Comeste doces!
Enfiaste a boca onde não devia!
És tu culpado pelos excessos
e pelo uso das coisas à revelia!

Sozinho em clemência respondo:

-Mea culpa! Mea máxima culpa!
Pequei pela gula, pequei pela cobiça,
só imploro que realize logo esse ato
ou que dê chances a um derrotista!

E o mascarado de branco responde:

Não carrego as forças do mal
nem sou eu, cavaleiro da barbarie
O fato é que na sua arcada dentária
mora uma escura e profunda carie
será necessário abrir um canal
e retirar essa forma solitária.
Depois leve uma vida normal,
e dê o dinheiro a secretária

domingo, 6 de outubro de 2013

Travessia

           poesia é feita na                      
           Travessia torta rumo aos                       
           Restos antigos do TitaniC 
           A poesia foi cosida na mã
           Velha e fOrte, repleta de doR
           Eternamente sábia de uma   velhA
           Senhora.    A poesia se faz na emoÇÃO
           Seca de egoísmo e cheia de compaixão                                            
           A poesia é na forma a alma séria                                          
           Rainha risonha das criaturas etéras

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Engrenagem de terra

É na ciência das mãos
que enxergo a raiz de mim
é no calo do lápis, no rasgo da enxada,
nas palmas sujas de barro, nas juntas das mãos em reza,
nas pedras acimentadas, nas pragas dilaceradas
e no feijão com louro e alecrim

Já na mente que posterga passos
que profundamente analisa os fatos
que funciona na maquineta de mim
vejo as mãos voarem no espaço
meu fruto ficar opaco
e o corpo se amedrontar pelo fim

Mas é preciso botar as mãos na máquina
e a mente na massa...
Sou eu uma engrenagem de terra
uma mente repleta de pernas
com essência de alma mirim

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

De vagar pela cidade

                                                                                                Para Mayra



No passo
de vagar pela cidade
coberto pelas notórias
notívagas antigas sombras
da minha mais densa vaidade
Sou o antigo clássico universal
grito o conflito dos homens
mas repito o mesmo erro
volto a ser animal
e me refaço
Nos aços
do viaduto central
coberto pelas histórias
ditas no bico das pombas
mais antigas dessa capital
Vou no passo dessas verdades
eternas que me consomem
só espero meu enterro,
dou adeus ao padre
e me desfaço
pelos abraços
de todas as flores do mal




                                                                       MAS




                                                                                                        ei de
                                                                                                        dar cabo
                                                                                                        do que afago
                                                                                                        pecado por pecado
                                                                                                        no meu passo
                                                                                                       amargado



                   sou eu                                        
             o macabro                          
       sujeito rasgado                                                         
  de mil machucados    
      na espera caída
          do predicado                                                              
                                                                                                   



                                                                                                       objeto acabado
                                                                                                     direto do carnaval
                                                                                                    de lábios dormentes
                                                                                                    conjugado e carente                                                                                                                                                          -um clássico universal-





                                                   Mas vou me no entre-ato central
                                                  com internas crises de protagonismo
                                            devo eu ser meu Romeu, devo eu ser Otelo,
                                         devo eu ser Ulisses da minha própria existência
                                   -anacrônico sobre a jangada de pedra rumo a essência-
                                               
                                                     flutuo sobre a terra do pai Tietê
                                                   afinal, o homem está em movimento,
                                                afinal, eu ei de eternamente viver por você,
                                    afinal, sou tua terra, teu som, tua fúria, teu tormento,
                                                              afinal sou tu São Paulo!
                                                            sou tudo que estou a viver.
                                   

                                                                                                             

                       E de vagar                                                                           E de vagar
                                E de repente                                                   E de repente
   E de sopetão encontro a rua                                                  E de sopetão perco-me pela rua
         encontro me pela métrica                                                 perco me pela métrica
                         encontro me pela                                                 perco me pela
                                                   
                                                               

                                                                 SOLIDÃO

                                                                       o sol
                                                                      é    só


                                                                   I-LUSÃO






                                                                           
                                                                       


                                                                         MAS
                                                                                                                                        
                                                                                                                           
você
que está
a cantarolar
engasgo por engasgo
que incomoda
do marasmo



                                                                                                                                                                                                                                                                                                  você                                                                                                                                       dedicado                                                 aos     bombocados                                                                                                      do velho mercado
                                                                                                                         das conquistas
                                                                                                                      do antigo ducado
                                                                   
                                                                                                 



      objeto avançado
    de direito sacerdotal
    de corpo indiferente
    perpétuo em semente                                                                                                                  
-Tu cosmopolita universal-

                                                                                                                                                  Te encaixo
                                                                                                                                  na mais dura saudade
                                                                                                                     de cobrir das mais inglórias                                                                                                                            intrigas antigas das  bombas
                                                                                                               das suas preferidas autoridades
                                                                                                                És tu o novo clássico universal
                                                                                                               senhor daqueles que dormem
                                                                                                                              rei dos corpos do aterro
                                                                                                                                            de alma abissal
                                                                                                                                                   no espaço
                                                                                                                                                         opaco
                                                                                                                                       do viaduto central
                                                                                                                  Merecias a velha palmatória!
                                                                                                                          por seguir o cair das ondas
                                                                                                                              as tendências do umbral
                                                                                                                          e a velha normatividade
                                                                                                                                   daqueles que comem
                                                                                                                                    a perdiz e o bezerro
                                                                                                                                   e que rezam a madre                                                                                                                                                                      e seguram um maço
                                                                                                                                     de moedas de aço                                                                                                                                   o clássico do capital

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Melindroso olhar madrugueiro

                                                              são doces
                                                           os olhos negros
                                                          que na desinibida
                                                         batida da jazz band
                                                       cortejam meus inibidos
                                                       e embebidos por erros
                                                         olhos meio amargos
                                                               guardados
                                                               na espuma
                                                              das cervejas.
                                                       Desejo que não acabe
                                                   o  escondido nos entre meios
                                                 melindroso olhar madrugueiro
                                               chamando para entrar no compasso
                                                 dos mais novos e antigos passos
                                                 que como moço mais delicado
                                                  resguardo dentro dos seios
                                                   observando o rosado laço
                                                     de flores no seu cabelo.
                                                      Não quero suas coxas
                                                           nem seus beijos
                                                           nem abraçar-te
                                                       muito menos casar-me.
                                                     Quero somente o desinibido
                                                    olhar melindroso e sustenido
                                                   claro e eternamente conduzido
                                               pela incessante fanfarra da jazz band
                                                   Só quero            Os momentos
                                                   famintos             dos bacanais
                                                   negros                que se miram
                                                   olhos                    em líbidos
                                                   

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

PAR T UDO


Na                                                                                                                                                         No
                               parte por parte                 TEM                  tudo de tudo                                      
                               tudo de tudo                                                   parte por parte
PAR T                                                                                                                                            TRAP
           U                                                                                                                                        U
             D                                                                                                                                     D
               O                                                                                                                                 O
                                                             

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Pergunte ao funâmbulo

           Pergunte ao funâmbulo                                             a onde a queda é escura
                                                  se é possível te-la na vista
                                                  a onde é o desvio da pista
                                                                     ou se
                                      o desequilíbrio faz parte da cura



                                                  Pergunte ao funâmbulo
                                                  se há desejo perto dos vincos
                                                  se sua alma é de corda bamba
                                                  se é somente o peito que manda
                                                  se o fruto é tomado de extinto

Pergunte ao funâmbulo                                                                 Pergunte ao funâmbulo
se cada passo é decisivo                                                                se há uma rede de salvação
se seus braços são guarda-chuvas                                                   se seu eixo não bamboleia
se suas pernas são longas curvas                                                     se o cérebro não esperneia                                                   e se seus olhos são o infinito                                                      se é possível atirar-se no chão
                                               
                                                  Pergunte ao funâmbulo
                                                  se há do outro lado razão
                                                  se seu coração é de rocha
                                                  se sua mente é feita de tocha
                                                  e se seu sentimento é pura ilusão
                                               


            Pergunte ao funâmbulo                                        a onde mora a loucura
                                              se o equilíbrio é lugar ou conquista
                                                   se é possível te-lo na vista
                                                                  ou se
                         o equilíbrio é uma eterna procura 

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Legítima vontade humana

É legítima a vontade humana
de entre o correr das horas
até o clarão da aurora
passar um dia na cama
                                                                   [sem nada a desejar
                                                                      e tudo a esquecer]
A necessidade de calcular
A obrigação de trabalhar                          
O medo de padecer...
Não devem tomar o poder                        
sendo o único dever,
aquietar-se para se perder...

Poder com calma preparar
as três refeições do dia
de tardinha na rede pitar
e sem pressa observar
a vida que se abrevia
                                                                 [Pois se o céu há de nascer
                                                                          o céu há de descansar]
É legítima a vontade humana
de olhar para o agora
entender como a vida flora
e sentir como ela se dana

domingo, 15 de setembro de 2013

A alma antiga de minha avó

"Minha avó falou que sabedoria é pensar com os pés; a cabeça gosta é de sonhar, mas os passos tecem a existência. Quem se cansa de andar abrevia a vida, quem prossegue afasta a morte para depois. E que as mãos servem para acarinhar, mesmo ao arredondarem em bolinhas a massa do pão de queijo" Frei Betto; A arte de semear estrelas.

Nas mãos finas da minha avó
cada ruga me deu um conselho
diziam elas para que eu comesse
diziam elas para que eu rezasse
diziam elas para que eu dormisse
enquanto picavam os alhos da eternidade

Nos cabelos longos de minha avó
cada cacho contou me uma história
diziam eles de seus namoros
diziam eles de seus dez filhos
diziam eles de suas doenças
enquanto os fios do passado caiam

Nos olhos cinzas de minha avó
cada pé de galinha forjou-me os passos
cacarejavam meus estudos
cacarejavam meu descanso
cacarejavam meu alimento
enquanto miravam no televisor meu futuro

Na casa grande de minha avó
aprendi a abraçar o sentido da vida
comendo bolinhos de batata
trepando no alto do abacateiro
matando taturana com unha afiada
enquanto o mundo girava em teorias

Na alma antiga de minha avó
vive uma menina de saias
guerreira de sabre empunhado
namoradeira de corpo em janela
e grávida de grandes conflitos.

Na alma antiga de minha avó
mora a luz do mais denso infinito.

Eter(e)(n)o

Inevitável             A incerteza           Do eterno,
um amor              ruma                         ao agora,
pulsante              a verdade               hora após hora,
a desejar             no sentimento     um vento
do etéreo            presente                que bate
ao eterno            sentido                   que desmonora

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Poema de água.

Lá no útero coração
está a água primeira
somos filhos do casamento
entre as caldas cristalinas
e a negrura da lameira

É feita de água a existência.
Uma pitada de prosódia,
um dedo de carência
um toque de demagogia
um quilo de custódia
e uma grama de orgia

E o fundo da nossa essência
é da água uma boa paródia
nosso mar é de demência
nossos rios são de discórdia
nosso açude a decadência
e o esgoto a misericórdia

sábado, 31 de agosto de 2013

Histórias que a garoa conta

Quando sinto o cheiro de úmido
e o barulho das folhas no ar
sei que chega uma história
que a garoa vem me contar:

Juraram eterno amor
com fogo beijaram na boca
depois saltaram do viaduto
-História que a Garoa me conta-

Abraçou-se com o pai
e arrumou as roupas na trouxa
depois se enfiou no pau de arara
-História que a garoa me conta-

Pegou seu amigo com ela
e a viu se fazendo de tonta
depois manchou o quarto de sangue
-História que a garoa me conta-

Emprenhou a menina
sem dinheiro para pagar as contas
depois fugiu para outro estado
-História que a garoa me conta-

Guardou os últimos trocados
deu ao filho o brinquedo de onça
depois voltaram a pé para casa
-História que a garoa me conta-

Jantou com a mãe
batizou com remédios a tônica
depois desovou o corpo na estrada
-História que a garoa me conta-

É aí que puxo minha lança
e afiando com gosto sua ponta
me ponho a escrever no papel
as histórias que a garoa me conta

Pois tudo que escrevo não é meu
são fábulas todas prontas,
são elas, palavras de Deus,
palavras da minha gente.
Histórias que a garoa me conta

Meu ofício de poeta
não envolve inovar de mazelas
é saber ouvir as histórias do povo
e tornar a escrever de novo
-As histórias que a garoa conta-

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Acre dito.

Dedicado com todo o carinho a André Cezar, Quilrio Farias, Juliana Albuquerque, Fabrícia Freire e Benjamin (minha dispersa Trupe de Solitários). E com agradecimentos tímidos a Dona Maria Socorro, Igor e Seu Paraiba por tanto creme de cupuaçu e carinho. Também a Sacha Cordeiro e Yuri Marcel por tanta Brahma e fama! E por fim a Iago e Dani Mirini, pelos corações de floresta.          Eta povo bão!



    Quando escuto atualmente comentários jocosos referentes a não existência do Acre, já me ponho em estado irritadiço. Como pode!? Quem esse povo do sul pensa que é para chamar o Norte de abstração? A antiga terra Boliviana não merece esse descaso de seus conterrâneos brasileiros, que como diz a velha anedota de bar, trocaram por dois cavalos e um coqueiro esse estado com a Bolívia... Um absurdo! Um absurdo!!!
     Mas depois de refletir um pouco sobre esse meu recente estado de nervos percebo que não devia me por nessa ebulição, afinal de contas, se refletirmos bem... De fato o Acre não existe! Não é possível que exista nesse Brasil pinel e super desenvolvido pela lei dos homens terra que todos ainda tiram os sapatos para entrar na casa dos vizinhos, um rio poderosíssimo e limpo que corta a capital de um estado no meio, um povo que enche as praças para tomar tacacá no final da tarde e teatros, muitos teatros públicos para uma cidade tão pequena como Rio Branco. É difícil acreditar na existência de uma terra tão simples e deliciosa como é a terra Acreana.
    Rio Branco não parece, aos meus olhos paulistanos, uma cidade grande... Se assemelha muito mais com uma cidade do interior. Claro que dentro de Rio Branco, como em toda capital, existe uma juventude vigorosa e forte, com ares cosmopolitas e à vangard... Mas mesmo essa juventude acaba por andar de mãos dadas com um certo tradicionalismo gracioso, digo gracioso pelo quão popular é o caráter de suas tradições... Como bem disse André Cezar (meu mestre de cerimônias), o Acre foi colonizado pelos nordestinos, sendo assim, ao mesmo tempo que existe aqui os típicos ares quentes e barrentos do norte brasileiro, há também um ar de nordeste tão autentico nos comércios, nas feiras, nos sotaques e nos costumes que, ás vezes, faz com que eu me sinta na Paraíba. Digo isso, para justificar o ponto de uma tradição popular atrelada a iminência de uma juventude com ganas progressistas... Essa mistura, gera um povo delicioso e, com certeza, um povo muito bom de se trabalhar teatro, tanto por suas ganas, tanto pelo seu imaginário simbólico tão rico que eu só consigo justificar na somatória de uma Amazônia que foi explorada pelos sertanejos nordestinos que migraram para fazer a vida e acabaram por fazer uma capital... Por fazer uma cultura.
    Mas amazônia? O que é esquisito, no sentido castellano da palavra é o fato de Rio Branco ser amazônia. Aqui com certeza não é Amazônia. Pelo menos não a Amazônia do meu imaginário; Um paulistano da gema, bobalhão e com manias de natureza. Aqui tudo tem nome de floresta; Arena da floresta, loja dos povos da floresta, biblioteca da floresta... No entanto, quando pergunto aos acreanos a onde fica a floresta ninguém sabe me responder exatamente. Isso se dá pois não há como responder essa pergunta, afinal de contas, a Amazônia não é uma coisa... É um Bioma e, talvez, o mais misterioso do planeta... Eu pergunto a eles- Como se chega na floresta? Onde tem um açude? Onde tem uma reserva?
- Tu num tem medo de Jacaré não maninha?- É uma das respostas que eu recebo.
E isso só mostra minha ignorância de filho desgarrado da Paulicéia. Afinal de contas, parafraseando o Guimarães Rosa, a floresta está nos nossos corações.
     Mas pegando por esse exemplo, mostro mais um tantinho dessa beleza de terra: "Maninha"... Todos lá se chamam de maninha, os jovens, os velhos, os homens para outros homens. Aproveito a deixa para dizer de maneira jocosa que lá é o paraíso espontâneo da militância de gênero. Não é preciso colar x no final das vogais para não diferenciar o gênero dos companheirxs. Todos são maninha, e lógico que lá no Acre isso não exclui o machismo, muito menos a diferença de gênero... Mas se pensarmos bem colocar o x no lugar da vogal aqui no sul no fim das contas não faz assim tanta diferença para o que realmente importa nas tão atuais discussões relacionadas a sexualidade.
    Mas polêmicas a parte... Termino essa crônica, começada em Rio Branco e terminada quase um mês depois de voltar de lá, aqui em Campinas, dizendo a todos que esse papo do Acre não existir no fim das contas é uma perda de tempo... É triste pensar em morrer sem nunca experimentar Tacacá, Tucupi, creme de Cupuaçu, Açaí de verdade, farinha de Cruzeiro do Sul, tapióca do mercado, rabada, Pato no Tucupi, o Kebe de macaxeira ou de arroz (conhecido aqui como Kibe) e principalmente o sorriso despreocupado e bonito desse povo cheio de cultura que é o povo do Acre. Sendo assim, eu Acre dito!

21 de Julho bebendo suco nas Margens do Rio Acre; 29 de Agosto embaixo do Abacateiro em Campinas.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Animais e carências

                                                                   Para Trisha e Alice.

Ao carente,
recomendo educar-se,
acalmar-se, endurecer-se,
regrar-se, calar-se
e fingir-se de contente

Talvez a posse de um bicho...
Um gato é o mais educativo
a clara zoomorfização do amante,
o animal que quando te queres, queres
e quando não queres tu mesmo é que superes
a eterna carência dos instantes

E ao seguro,
recomendo manter-se,
firmar-se, defender-se,
safar-se, esquecer-se
e permanecer inconsequente

Recomendo a posse dos cachorros
aos independentes de socorro.
São a zoomorfização do necessitado
um animal que te queres e queres
e quando não queres tu mesmo é que deves
levá-lo correndo ao veterinário

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Poeira paulista.

Mesmo que o vapor dos janeiros
invada a Rua Direita
e a expressa chuva dos fevereiros
inunde a Rego Freitas
São Paulo sempre será o inverno
e o paulista uma vela que enfeita,
a transparência dos candeeiros

Sou eu desgarrado do rebanho
que sai das vermelhas estações
onde está teu pastor ovelha de calças?
preso na abstração dos bancos?
nas gavetas das lojas de cambio?
ou nos bolsos do sacristão?

Tu, feto a germinar,
serás paulista, serás culpado,
serás herdeiro dos missionários
e do sangue que Francisco Matarazzo
jorrou  pelos muros Brás

E mesmo que nós arruaceiros
ergamos bandeiras de esquerda
mesmo que morram os banqueiros
a polícia e o velho careta
São Paulo sempre será a espreita
dos corações pouco serenos
banhados de asfalto e poeira

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Quintal

                                                         Para Tiago Liu e Tomás Flores, meus companheiros de quintal

Ao voltar ao quintal
dos vermelhos tomates
das imensas pitangueiras
dos brinquedos jogados
e das aventuras de varal
me percebo menino dos olhos
de pássaro atento
de pé sem relento
e corpo ainda sábio.

É na lembrança do jardim
dos cachorros amarelos
das ratazanas invasoras
das mangueiras jogadas
e dos insistentes capins
que mora minha poesia
provinciana de crise
de imagem sem cabide
e fraca matemática.

E olhando crescer no terreiro
as pragas ameaçadoras
as raízes descabidas
as gramas mal cortadas
e as malditas folhas de abacateiro
seguro firme na enxada
e com mãos de quem trabalha
recolho palha por palha
com ódio da repetição

Mas é nas crises de gramado
nas folhas com lendas
nos tomates com pragas
nas palhas com abacates
e nas desgraçadas raízes capengas
que enxergo a verdade da lida.
É necessário retirar o engodo
pois mesmo caindo folhas de novo
é preciso limpar o quintal.

terça-feira, 9 de julho de 2013

Poente

Estou doente.

O corpo já não resiste
aos anseios da mocidade
e meu eu que não desiste
das instantâneas felicidades
é invadido pela patologia
das grandiosas enfermidades

Já fui decente.

Mas isso já não existe...
foi uma mera falsidade
hoje só vivo o limite
da minha terrena identidade
contrária das liturgias
e cheia de imaturidade

Sou um carente.

Com os olhos cor de triste
tomados pela sensibilidade
que hoje sei que consiste
na falta de jovialidade,
na falta de ideologia
e na ausência de boa vontade

Sou um grande expoente

da doença que subsiste
nessa imensa sociedade
carrego essa arma em riste
pronta para fazer maldades
com toda essa gente sadia
e escassa de maturidade

Quero o poente

Da luz acesa por ti
só na lua existe a verdade
que acaba com os cacoetes
presentes na claridade.

O que quero é  findar as heresias
e finalmente fazer a passagem...

Ser e Estar

Recuso ser
O incormável homem de punhos cerrados
O sacerdote negro de vinho e corpus
O indomável catastrofista pós-moderno
Os malditos americanóides do Green Peace
Os infernais europeus da academia
O maldito esfomeado nordestino
O sedento desgraçado africano
O paulista constitucionalista
O mineiro inconfidente
O punk, o junk, o funk, o sambista yankee
e qualquer outra assinatura de revista...

Devo estar
Na massa sedenta por pão e terra
Na missa sedenta de vinho e hóstia
Na domini catastrofe contemporânea
Na salvação das baleias
Na aplicação da pesquisa
Nos institutos sociais
Na luta pelo apartheid
Na revolução,
Na federação,
Na dança dos punks, dos funks, dos sambas yankees
e poder assinar as revistas...

Mas não sei ser sem estar...
dizem que para os Russos,
para os japoneses,
para os estadunidenses,
tanto ser, quanto estar,
dá no mesmo pronome indecente

Mas aqui,
onde estão as Palmeiras, onde são os sabiás,
Não se é nem se está...
Da forma que soa o canto de cá
os objetos das frases vem para dividir-me
pois entre a essência e a imanência
o significado de ser é possuir-se

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Desdém

Não deverias prestar-se a prática
de doar teu fruto a alguém.
Pensas o amor como sátira
como mera matemática
aplicada ao seu próprio bem

Quem ama, ama alguém,
o próprio verbo é transitivo...
Só se ama um objeto conciso
que não envolve mero desdém

Já te vi amar meninos
sempre por seu próprio deleite
faz promessas indecentes,
de mais um amor ascendente
que mascara seus próprios caprichos

E se não entendes essa forma
da gramática e das normas
não mereces esse ofício
pois vives apenas o artíficio
de fingir envolver-se com alguém

Mas se amas verdadeiramente
e agradeces pelo encontro
arranca essa pele de serpente
e percebe que simplesmente
-Amar é doar-se para o outro-

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Medíocre

O mártir não deixa ultrapassar-se
pela vontade de um outro
mártir morre por seu desejo
pelo que julga ser um lampejo
da vontade de Deus sobre seu corpo

Não sou desses fortes
não cubro a carne de heroísmo
nem ideal tenho a defender
não sou santo, não sou menino,
nem ouso o mundo buscar entender

O maldito também não se ultrapassa
pela supracitada vontade do outro.
Esse não morre de qualquer jeito
é vaso ruim, é o velho defeito,
dos desejos do chamado demônio

Não sou desses fortes
não encho minha mente de vandalismo
nem maldade sou de defender
não sou perverso, não sou promíscuo
me preocupo com depois de morrer

Sou desses mornos...
Dos que não pecam nem despécam
na fronte não me nasceram cornos
nem no alto a dourada auréola
sou dos que purgam, que penam
e que ficam para sempre na terra