segunda-feira, 24 de junho de 2013

Desdém

Não deverias prestar-se a prática
de doar teu fruto a alguém.
Pensas o amor como sátira
como mera matemática
aplicada ao seu próprio bem

Quem ama, ama alguém,
o próprio verbo é transitivo...
Só se ama um objeto conciso
que não envolve mero desdém

Já te vi amar meninos
sempre por seu próprio deleite
faz promessas indecentes,
de mais um amor ascendente
que mascara seus próprios caprichos

E se não entendes essa forma
da gramática e das normas
não mereces esse ofício
pois vives apenas o artíficio
de fingir envolver-se com alguém

Mas se amas verdadeiramente
e agradeces pelo encontro
arranca essa pele de serpente
e percebe que simplesmente
-Amar é doar-se para o outro-

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Medíocre

O mártir não deixa ultrapassar-se
pela vontade de um outro
mártir morre por seu desejo
pelo que julga ser um lampejo
da vontade de Deus sobre seu corpo

Não sou desses fortes
não cubro a carne de heroísmo
nem ideal tenho a defender
não sou santo, não sou menino,
nem ouso o mundo buscar entender

O maldito também não se ultrapassa
pela supracitada vontade do outro.
Esse não morre de qualquer jeito
é vaso ruim, é o velho defeito,
dos desejos do chamado demônio

Não sou desses fortes
não encho minha mente de vandalismo
nem maldade sou de defender
não sou perverso, não sou promíscuo
me preocupo com depois de morrer

Sou desses mornos...
Dos que não pecam nem despécam
na fronte não me nasceram cornos
nem no alto a dourada auréola
sou dos que purgam, que penam
e que ficam para sempre na terra

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Homem delicado

De escárnio vivo crispado
entre as mazelas do romantismo.
Sou eu, sentimental, entregue,
o  mesmo.
O mesmo animal alegre
vivendo de platonismo

De longe, Ofélia me olha,
e já quero ser pai de seus filhos
se Isolda por carinho me abraça
lhe entrego as canções de amigo
se tomo um beijo de Julieta
enxergo uma vida perfeita
dividindo comida e abrigo

Mas não são atraentes os delicados
muito menos os de peito machucado.
É preciso ser homem
daqueles que cospem
que coçam as partes
que bebem, fumam, que comem,
e que mascam charuto apagado

No entanto, vou de sonhos,
vivendo meu eterno pecado.
Sou aquele que vira monstro,
e quando a lua se enche de gosto
devora o ser amado

quarta-feira, 5 de junho de 2013

O Primeiro Mês

                                                                Para Manuel Bandeira e sua primeira namorada...


Ela era linda,
azulada e amarela
o corpo úmido,
o olhar aquarela,
e o gosto do beijo
de praia e canela

Ela era a vida.
Seus olhos, janelas,
abertos de dia,
abertos de madrugada,
e eu, perdido em bocejos,
recitava sonetos,
para a minha nova namorada

Mas o tempo passou,
e veio a ferida...
Tornou-se mais quieta,
insone, pouco poeta,
negando a comida
por vaidade sapeca

Eu não entendia por que!
Ela esqueceu nossas noites?
Ela esqueceu o primeiro mês?
O mês que durou mais de um ano
feito de amores e abandonos,
do tamanho do oceano...

Mas ela não foi
quando eu tinha seis anos
da vida, a paixão perpétua.
No fim do mês ela adoeceu
e hoje lembro como doeu
quando morreu minha Peixe Beta.

Poema de Luz

Crepúsculo outrora observa
a escura cortina estirada,
negra memória de minh'alma,
icorporada nas asas caídas
de uma espira desmedida
que a fruta dos seus olhos acalma

Fiat Lux, espande se a cor,
floresta natura se alumiou,
e meu coração de galhos secos
embrasou-se de fogo e tormento
pelo pincel que seus olhos pintou

Agora technicolor.
Engolidor de profanas maçãs,
da serpente que sou,
remordo meu rabo,
e sem cansar de multilá-lo
vejo que das horas do dia
tu és a mais bela manhã.

Entender

Na lupa tua, felina,
espelho de tu'alma
me marca a mirada
que te mostra menina

No comum de teu semblante
quase sempre cizudo
se ninam tuas sobrancelhas
dormem teus olhos fundos

De repente te bate no olhar
a criança que um dia tu foste
ela vive na escuridão
que a luz da tua áurea me trouxe

É por ela que tenho carinho
pela pureza que inda te resta
mas como dizer que te quero?
Se algo em ti não me presta

Não entendo tua dureza
teus demônios, teu dizer,
mas lembro, numa flechada de sono,
que entender é quase o abandono
de um amor que se tem para viver

Calmaria

Corta esta âncora que te carrega
e navega sobre meu mar
quero ser tua catrina
teu maremoto
tua piscina
e os ventos que te podem levar

Sei que na calmaria existe a beleza
de perder o olhar no infinito
parar as aventuras
acalmar os instintos
e viver sem ter que parar

Mas se um dia compreender
que só se ama na desventura,
e que só do tormento
nasce a ternura
abro minha rosa dos ventos
e entrego todo o meu tempo
para viver tua amargura

domingo, 2 de junho de 2013

Querer

A viciosa virtude do homem
é querer quereres
Mas quando busca uma completude
pela salvação dos saberes
acaba por esquecer-se
da incompletude que é querer ser.

Só de querer ser já sou incompleto,
nem a lagarta que vira borboleta
de tanto querer voar a sorte
para o desejo ao bater suas asas.
Só se é no dia da morte