sábado, 31 de agosto de 2013

Histórias que a garoa conta

Quando sinto o cheiro de úmido
e o barulho das folhas no ar
sei que chega uma história
que a garoa vem me contar:

Juraram eterno amor
com fogo beijaram na boca
depois saltaram do viaduto
-História que a Garoa me conta-

Abraçou-se com o pai
e arrumou as roupas na trouxa
depois se enfiou no pau de arara
-História que a garoa me conta-

Pegou seu amigo com ela
e a viu se fazendo de tonta
depois manchou o quarto de sangue
-História que a garoa me conta-

Emprenhou a menina
sem dinheiro para pagar as contas
depois fugiu para outro estado
-História que a garoa me conta-

Guardou os últimos trocados
deu ao filho o brinquedo de onça
depois voltaram a pé para casa
-História que a garoa me conta-

Jantou com a mãe
batizou com remédios a tônica
depois desovou o corpo na estrada
-História que a garoa me conta-

É aí que puxo minha lança
e afiando com gosto sua ponta
me ponho a escrever no papel
as histórias que a garoa me conta

Pois tudo que escrevo não é meu
são fábulas todas prontas,
são elas, palavras de Deus,
palavras da minha gente.
Histórias que a garoa me conta

Meu ofício de poeta
não envolve inovar de mazelas
é saber ouvir as histórias do povo
e tornar a escrever de novo
-As histórias que a garoa conta-

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Acre dito.

Dedicado com todo o carinho a André Cezar, Quilrio Farias, Juliana Albuquerque, Fabrícia Freire e Benjamin (minha dispersa Trupe de Solitários). E com agradecimentos tímidos a Dona Maria Socorro, Igor e Seu Paraiba por tanto creme de cupuaçu e carinho. Também a Sacha Cordeiro e Yuri Marcel por tanta Brahma e fama! E por fim a Iago e Dani Mirini, pelos corações de floresta.          Eta povo bão!



    Quando escuto atualmente comentários jocosos referentes a não existência do Acre, já me ponho em estado irritadiço. Como pode!? Quem esse povo do sul pensa que é para chamar o Norte de abstração? A antiga terra Boliviana não merece esse descaso de seus conterrâneos brasileiros, que como diz a velha anedota de bar, trocaram por dois cavalos e um coqueiro esse estado com a Bolívia... Um absurdo! Um absurdo!!!
     Mas depois de refletir um pouco sobre esse meu recente estado de nervos percebo que não devia me por nessa ebulição, afinal de contas, se refletirmos bem... De fato o Acre não existe! Não é possível que exista nesse Brasil pinel e super desenvolvido pela lei dos homens terra que todos ainda tiram os sapatos para entrar na casa dos vizinhos, um rio poderosíssimo e limpo que corta a capital de um estado no meio, um povo que enche as praças para tomar tacacá no final da tarde e teatros, muitos teatros públicos para uma cidade tão pequena como Rio Branco. É difícil acreditar na existência de uma terra tão simples e deliciosa como é a terra Acreana.
    Rio Branco não parece, aos meus olhos paulistanos, uma cidade grande... Se assemelha muito mais com uma cidade do interior. Claro que dentro de Rio Branco, como em toda capital, existe uma juventude vigorosa e forte, com ares cosmopolitas e à vangard... Mas mesmo essa juventude acaba por andar de mãos dadas com um certo tradicionalismo gracioso, digo gracioso pelo quão popular é o caráter de suas tradições... Como bem disse André Cezar (meu mestre de cerimônias), o Acre foi colonizado pelos nordestinos, sendo assim, ao mesmo tempo que existe aqui os típicos ares quentes e barrentos do norte brasileiro, há também um ar de nordeste tão autentico nos comércios, nas feiras, nos sotaques e nos costumes que, ás vezes, faz com que eu me sinta na Paraíba. Digo isso, para justificar o ponto de uma tradição popular atrelada a iminência de uma juventude com ganas progressistas... Essa mistura, gera um povo delicioso e, com certeza, um povo muito bom de se trabalhar teatro, tanto por suas ganas, tanto pelo seu imaginário simbólico tão rico que eu só consigo justificar na somatória de uma Amazônia que foi explorada pelos sertanejos nordestinos que migraram para fazer a vida e acabaram por fazer uma capital... Por fazer uma cultura.
    Mas amazônia? O que é esquisito, no sentido castellano da palavra é o fato de Rio Branco ser amazônia. Aqui com certeza não é Amazônia. Pelo menos não a Amazônia do meu imaginário; Um paulistano da gema, bobalhão e com manias de natureza. Aqui tudo tem nome de floresta; Arena da floresta, loja dos povos da floresta, biblioteca da floresta... No entanto, quando pergunto aos acreanos a onde fica a floresta ninguém sabe me responder exatamente. Isso se dá pois não há como responder essa pergunta, afinal de contas, a Amazônia não é uma coisa... É um Bioma e, talvez, o mais misterioso do planeta... Eu pergunto a eles- Como se chega na floresta? Onde tem um açude? Onde tem uma reserva?
- Tu num tem medo de Jacaré não maninha?- É uma das respostas que eu recebo.
E isso só mostra minha ignorância de filho desgarrado da Paulicéia. Afinal de contas, parafraseando o Guimarães Rosa, a floresta está nos nossos corações.
     Mas pegando por esse exemplo, mostro mais um tantinho dessa beleza de terra: "Maninha"... Todos lá se chamam de maninha, os jovens, os velhos, os homens para outros homens. Aproveito a deixa para dizer de maneira jocosa que lá é o paraíso espontâneo da militância de gênero. Não é preciso colar x no final das vogais para não diferenciar o gênero dos companheirxs. Todos são maninha, e lógico que lá no Acre isso não exclui o machismo, muito menos a diferença de gênero... Mas se pensarmos bem colocar o x no lugar da vogal aqui no sul no fim das contas não faz assim tanta diferença para o que realmente importa nas tão atuais discussões relacionadas a sexualidade.
    Mas polêmicas a parte... Termino essa crônica, começada em Rio Branco e terminada quase um mês depois de voltar de lá, aqui em Campinas, dizendo a todos que esse papo do Acre não existir no fim das contas é uma perda de tempo... É triste pensar em morrer sem nunca experimentar Tacacá, Tucupi, creme de Cupuaçu, Açaí de verdade, farinha de Cruzeiro do Sul, tapióca do mercado, rabada, Pato no Tucupi, o Kebe de macaxeira ou de arroz (conhecido aqui como Kibe) e principalmente o sorriso despreocupado e bonito desse povo cheio de cultura que é o povo do Acre. Sendo assim, eu Acre dito!

21 de Julho bebendo suco nas Margens do Rio Acre; 29 de Agosto embaixo do Abacateiro em Campinas.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Animais e carências

                                                                   Para Trisha e Alice.

Ao carente,
recomendo educar-se,
acalmar-se, endurecer-se,
regrar-se, calar-se
e fingir-se de contente

Talvez a posse de um bicho...
Um gato é o mais educativo
a clara zoomorfização do amante,
o animal que quando te queres, queres
e quando não queres tu mesmo é que superes
a eterna carência dos instantes

E ao seguro,
recomendo manter-se,
firmar-se, defender-se,
safar-se, esquecer-se
e permanecer inconsequente

Recomendo a posse dos cachorros
aos independentes de socorro.
São a zoomorfização do necessitado
um animal que te queres e queres
e quando não queres tu mesmo é que deves
levá-lo correndo ao veterinário

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Poeira paulista.

Mesmo que o vapor dos janeiros
invada a Rua Direita
e a expressa chuva dos fevereiros
inunde a Rego Freitas
São Paulo sempre será o inverno
e o paulista uma vela que enfeita,
a transparência dos candeeiros

Sou eu desgarrado do rebanho
que sai das vermelhas estações
onde está teu pastor ovelha de calças?
preso na abstração dos bancos?
nas gavetas das lojas de cambio?
ou nos bolsos do sacristão?

Tu, feto a germinar,
serás paulista, serás culpado,
serás herdeiro dos missionários
e do sangue que Francisco Matarazzo
jorrou  pelos muros Brás

E mesmo que nós arruaceiros
ergamos bandeiras de esquerda
mesmo que morram os banqueiros
a polícia e o velho careta
São Paulo sempre será a espreita
dos corações pouco serenos
banhados de asfalto e poeira

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Quintal

                                                         Para Tiago Liu e Tomás Flores, meus companheiros de quintal

Ao voltar ao quintal
dos vermelhos tomates
das imensas pitangueiras
dos brinquedos jogados
e das aventuras de varal
me percebo menino dos olhos
de pássaro atento
de pé sem relento
e corpo ainda sábio.

É na lembrança do jardim
dos cachorros amarelos
das ratazanas invasoras
das mangueiras jogadas
e dos insistentes capins
que mora minha poesia
provinciana de crise
de imagem sem cabide
e fraca matemática.

E olhando crescer no terreiro
as pragas ameaçadoras
as raízes descabidas
as gramas mal cortadas
e as malditas folhas de abacateiro
seguro firme na enxada
e com mãos de quem trabalha
recolho palha por palha
com ódio da repetição

Mas é nas crises de gramado
nas folhas com lendas
nos tomates com pragas
nas palhas com abacates
e nas desgraçadas raízes capengas
que enxergo a verdade da lida.
É necessário retirar o engodo
pois mesmo caindo folhas de novo
é preciso limpar o quintal.