quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Acre dito.

Dedicado com todo o carinho a André Cezar, Quilrio Farias, Juliana Albuquerque, Fabrícia Freire e Benjamin (minha dispersa Trupe de Solitários). E com agradecimentos tímidos a Dona Maria Socorro, Igor e Seu Paraiba por tanto creme de cupuaçu e carinho. Também a Sacha Cordeiro e Yuri Marcel por tanta Brahma e fama! E por fim a Iago e Dani Mirini, pelos corações de floresta.          Eta povo bão!



    Quando escuto atualmente comentários jocosos referentes a não existência do Acre, já me ponho em estado irritadiço. Como pode!? Quem esse povo do sul pensa que é para chamar o Norte de abstração? A antiga terra Boliviana não merece esse descaso de seus conterrâneos brasileiros, que como diz a velha anedota de bar, trocaram por dois cavalos e um coqueiro esse estado com a Bolívia... Um absurdo! Um absurdo!!!
     Mas depois de refletir um pouco sobre esse meu recente estado de nervos percebo que não devia me por nessa ebulição, afinal de contas, se refletirmos bem... De fato o Acre não existe! Não é possível que exista nesse Brasil pinel e super desenvolvido pela lei dos homens terra que todos ainda tiram os sapatos para entrar na casa dos vizinhos, um rio poderosíssimo e limpo que corta a capital de um estado no meio, um povo que enche as praças para tomar tacacá no final da tarde e teatros, muitos teatros públicos para uma cidade tão pequena como Rio Branco. É difícil acreditar na existência de uma terra tão simples e deliciosa como é a terra Acreana.
    Rio Branco não parece, aos meus olhos paulistanos, uma cidade grande... Se assemelha muito mais com uma cidade do interior. Claro que dentro de Rio Branco, como em toda capital, existe uma juventude vigorosa e forte, com ares cosmopolitas e à vangard... Mas mesmo essa juventude acaba por andar de mãos dadas com um certo tradicionalismo gracioso, digo gracioso pelo quão popular é o caráter de suas tradições... Como bem disse André Cezar (meu mestre de cerimônias), o Acre foi colonizado pelos nordestinos, sendo assim, ao mesmo tempo que existe aqui os típicos ares quentes e barrentos do norte brasileiro, há também um ar de nordeste tão autentico nos comércios, nas feiras, nos sotaques e nos costumes que, ás vezes, faz com que eu me sinta na Paraíba. Digo isso, para justificar o ponto de uma tradição popular atrelada a iminência de uma juventude com ganas progressistas... Essa mistura, gera um povo delicioso e, com certeza, um povo muito bom de se trabalhar teatro, tanto por suas ganas, tanto pelo seu imaginário simbólico tão rico que eu só consigo justificar na somatória de uma Amazônia que foi explorada pelos sertanejos nordestinos que migraram para fazer a vida e acabaram por fazer uma capital... Por fazer uma cultura.
    Mas amazônia? O que é esquisito, no sentido castellano da palavra é o fato de Rio Branco ser amazônia. Aqui com certeza não é Amazônia. Pelo menos não a Amazônia do meu imaginário; Um paulistano da gema, bobalhão e com manias de natureza. Aqui tudo tem nome de floresta; Arena da floresta, loja dos povos da floresta, biblioteca da floresta... No entanto, quando pergunto aos acreanos a onde fica a floresta ninguém sabe me responder exatamente. Isso se dá pois não há como responder essa pergunta, afinal de contas, a Amazônia não é uma coisa... É um Bioma e, talvez, o mais misterioso do planeta... Eu pergunto a eles- Como se chega na floresta? Onde tem um açude? Onde tem uma reserva?
- Tu num tem medo de Jacaré não maninha?- É uma das respostas que eu recebo.
E isso só mostra minha ignorância de filho desgarrado da Paulicéia. Afinal de contas, parafraseando o Guimarães Rosa, a floresta está nos nossos corações.
     Mas pegando por esse exemplo, mostro mais um tantinho dessa beleza de terra: "Maninha"... Todos lá se chamam de maninha, os jovens, os velhos, os homens para outros homens. Aproveito a deixa para dizer de maneira jocosa que lá é o paraíso espontâneo da militância de gênero. Não é preciso colar x no final das vogais para não diferenciar o gênero dos companheirxs. Todos são maninha, e lógico que lá no Acre isso não exclui o machismo, muito menos a diferença de gênero... Mas se pensarmos bem colocar o x no lugar da vogal aqui no sul no fim das contas não faz assim tanta diferença para o que realmente importa nas tão atuais discussões relacionadas a sexualidade.
    Mas polêmicas a parte... Termino essa crônica, começada em Rio Branco e terminada quase um mês depois de voltar de lá, aqui em Campinas, dizendo a todos que esse papo do Acre não existir no fim das contas é uma perda de tempo... É triste pensar em morrer sem nunca experimentar Tacacá, Tucupi, creme de Cupuaçu, Açaí de verdade, farinha de Cruzeiro do Sul, tapióca do mercado, rabada, Pato no Tucupi, o Kebe de macaxeira ou de arroz (conhecido aqui como Kibe) e principalmente o sorriso despreocupado e bonito desse povo cheio de cultura que é o povo do Acre. Sendo assim, eu Acre dito!

21 de Julho bebendo suco nas Margens do Rio Acre; 29 de Agosto embaixo do Abacateiro em Campinas.

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