domingo, 15 de setembro de 2013

A alma antiga de minha avó

"Minha avó falou que sabedoria é pensar com os pés; a cabeça gosta é de sonhar, mas os passos tecem a existência. Quem se cansa de andar abrevia a vida, quem prossegue afasta a morte para depois. E que as mãos servem para acarinhar, mesmo ao arredondarem em bolinhas a massa do pão de queijo" Frei Betto; A arte de semear estrelas.

Nas mãos finas da minha avó
cada ruga me deu um conselho
diziam elas para que eu comesse
diziam elas para que eu rezasse
diziam elas para que eu dormisse
enquanto picavam os alhos da eternidade

Nos cabelos longos de minha avó
cada cacho contou me uma história
diziam eles de seus namoros
diziam eles de seus dez filhos
diziam eles de suas doenças
enquanto os fios do passado caiam

Nos olhos cinzas de minha avó
cada pé de galinha forjou-me os passos
cacarejavam meus estudos
cacarejavam meu descanso
cacarejavam meu alimento
enquanto miravam no televisor meu futuro

Na casa grande de minha avó
aprendi a abraçar o sentido da vida
comendo bolinhos de batata
trepando no alto do abacateiro
matando taturana com unha afiada
enquanto o mundo girava em teorias

Na alma antiga de minha avó
vive uma menina de saias
guerreira de sabre empunhado
namoradeira de corpo em janela
e grávida de grandes conflitos.

Na alma antiga de minha avó
mora a luz do mais denso infinito.

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