terça-feira, 15 de outubro de 2013

Nós não somos de nada, Pedro...

                                                          Para Pedro Paes, por nossos eternos sonhos de botequim


Nós não somos de nada Pedro...
Nossos sonhos de feltro e esperança
de ir passo a passo na carreira das andanças
tornando o espírito menos negro
e a vida água mais mansa
são sonhos impossíveis,
são sonhos de criança.

Nós não somos de nada Pedro...
Sobre a luz das horas
uma avenida interminável nos chama
os viadutos criam as sombras
e uma procissão de pombas
reza o luto das nossas infâncias

Nós não somos de nada Pedro...
O vício nos construiu.
Na nossa eterna língua de lança
moram os imortais males do tabaco
e no fígado a vontade que não cansa
de se tornar da vida um capacho

Nós não somos de nada Pedro...
O desejo é de viver a cada dia
mas cada dia é pouco a pouco
e nosso peito é um peixe morto
lançado no mar das revelias

Nossos sonhos são nada, Pedro... Nada!
Uma companheira,
três filhos e pitar um cigarro.
Rir juntos das besteiras
depois de um dia inteiro de trabalho
e poder contar vantagem
dizendo que do Brasil
conhecemos cada palmo!

Nós não somos de nada...
A vida é dura! O sol é quente!
a lua se põe na porta
simbora que agora é hora
que amanhã é dia de gente!

Nós não somos de nada, Pedro...
Mas se de nada fomos feitos
podemos ser tudo
basta subir as escadas de malte
encher o peito de ar
e olhar nos olhos do mundo

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Homem de branco

A luz me cega os olhos
e os ouvidos se comovem
com o soar prateado das trombetas
de uma estridente máquina humana.
Lá está o homem de branco
na contra-luz saída do túnel
em uma das mãos armas afiadas
na outra o espelho polido
usado em seus julgamentos

-Fumaste muito!
Bebeste demais!
Comeste doces!
Enfiaste a boca onde não devia!
És tu culpado pelos excessos
e pelo uso das coisas à revelia!

Sozinho em clemência respondo:

-Mea culpa! Mea máxima culpa!
Pequei pela gula, pequei pela cobiça,
só imploro que realize logo esse ato
ou que dê chances a um derrotista!

E o mascarado de branco responde:

Não carrego as forças do mal
nem sou eu, cavaleiro da barbarie
O fato é que na sua arcada dentária
mora uma escura e profunda carie
será necessário abrir um canal
e retirar essa forma solitária.
Depois leve uma vida normal,
e dê o dinheiro a secretária

domingo, 6 de outubro de 2013

Travessia

           poesia é feita na                      
           Travessia torta rumo aos                       
           Restos antigos do TitaniC 
           A poesia foi cosida na mã
           Velha e fOrte, repleta de doR
           Eternamente sábia de uma   velhA
           Senhora.    A poesia se faz na emoÇÃO
           Seca de egoísmo e cheia de compaixão                                            
           A poesia é na forma a alma séria                                          
           Rainha risonha das criaturas etéras

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Engrenagem de terra

É na ciência das mãos
que enxergo a raiz de mim
é no calo do lápis, no rasgo da enxada,
nas palmas sujas de barro, nas juntas das mãos em reza,
nas pedras acimentadas, nas pragas dilaceradas
e no feijão com louro e alecrim

Já na mente que posterga passos
que profundamente analisa os fatos
que funciona na maquineta de mim
vejo as mãos voarem no espaço
meu fruto ficar opaco
e o corpo se amedrontar pelo fim

Mas é preciso botar as mãos na máquina
e a mente na massa...
Sou eu uma engrenagem de terra
uma mente repleta de pernas
com essência de alma mirim