quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Óde(o) ao cosmpolita. (Poema Reacionário)

A verdade é que o velhardar dos anos
mostra a decadência do cosmopolita.

                                                           [Não mais serve procrastinar]

Os cigarros caídos nas bocas
em cada lábio da boêmia paulista
repletos de conceitos mal entendidos
preenchem as mesas vermelhas
e mostram as três da manhã
nossa pequenez infernal
a onde nada do que dizemos é resposta.

Quando quase se rompe a manhã
me ponho a no fundo acreditar
que Deus resolve surgir
e com ele a esperança de um palpite
de como viver sem somente existir

É ai que cansamos de ser Baudaleire!
E que esquecemos a irônia de Belmondo!
E queimamos o sorriso de Antoine Doneill!

É ai que quero ser Zé!
e Zé é dificil demais....
É difícil acordar de manhã
tomar um ônibus cheio
e não ganhar o dinheiro dos pais...

É difícil,
Após oito horas de humanidade
por trás de um balcão de loja
falar de densidades
de poesia, de glosa,
sem ter em conta a verdade.

                                                      [Somente dinheiro para pagar a conta do bar]
Vindo de um cheque especial
bem requisitado por patrocinadores
-advogados, comerciantes ou professores-
que criaram uma prole de melhor educação
para fazer do seu dinheiro um grande mal

E é de fato um grande mal
beber a batalha de outros
fumar o suor de um velho
falar pela madrugada
a partir de outras tiras de couro
fingindo que é um homem sério.

Mas a noite acaba, cosmopolita!
O dia morre...
Com ele vão tuas células
e junto tuas tantas cédulas
que o trabalho de outro pagou

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Poema de Natal

-Por favor, me passe a maionese?

E espero receoso a guarnição
composta pelo casal indisposto,
pelo avô doente, pelo irmão vagabundo,
pelos projetos que não foram realizados
pelas saudades dos que já se foram
e pelos rancores que colorem as famílias

- Tio, me passe o Peru!

Esse, então, vem recheado
de mágoas escarola e queijo
em fatias de melancolia


-Lembra, quando a vovó cuidava de você?

-Lembro...
                                         [Memórias póstumas sobre as bandejas de prata]

- Olha o Pudim!!!

Lá vem a maldita sobremesa,
coberta por um caldo espesso
de pressões e cobranças
imersas em um futuro promissor.

-Que venha o café!

Mas ninguém bebe café nessa data
em ceias de Natal só é possível beber
as lágrimas brancas da mediocridade
que pela manhã, por contra-vontade,
molham a sacola de carvão
que deixaram embaixo da árvore.

Ceia de Natal

      Esse é um dia diferente. Na Avenida Paulista a coisa já está estranha desde Novembro... Me deparei andando por ali com um Papai Noel imenso em cima das Lojas Pernambucanas ao lado do Metrô da Linha Amarela e me assustei. Como pode? Um mendigo deitado ao pé da estação, pedindo esmolas e um Papai Noel cheio de presentes que se recusa a entregar umzinho ao cabra que com esperanças só tende a estender a mão suja a um passante. Uma sacanagem danada... Quase uma piada sem graça.
      Eu digo piada sem graça pois do lado da festa pagã que o cristianismo incorporou (festa que em suas origens servia para celebrar o solstício de inverno no hemisfério Norte, por isso Pinheiros, Perû e o caramba), passa uma mendiga com os peitos de fora embaixo do Papai Noel coberto de feltro e lã sofrendo um sol de rachar a cuca. A mulher dança uma música qualquer, como um rock ou um sertanejo para tentar a vida, implora por esmolas e acaba descolando uns poucos vinténs para beber seu elixir. Papai Noel em cima das Lojas Pernambucanas... Pois é... Piada sem graça... Piada de sofrer sem rir, piada que para a gente só representa o imperialismo e a tristeza de tanto comer coisas indigestas nesse calor de fritar as pacovitas.
      De qualquer forma, só passei por ali de manhã... Agora já é de madrugada e o menino Jesus já não é mais tão menino, já fez dois mil e doze anos. Já eu, na lira dos vinte, comemoro sem nem saber por que os meus vinte anos de família em meio aos dois mil e doze anos dessa alma iluminada. Vinte ciclos regados de Papai Noel e mendigos que estendem as mãos, postos ao imperialismo e a tristeza de tanto comer. No fim sou eu que estou preso sobre as lojas Pernambucanas, pois são elas que fazem o natal da minha casa. Mamãe serve a ceia em cima da mesa que eles construíram, depois a gente assiste a Globo na televisão das casas Bahia, e guarda a comida na geladeira do Ponto Frio... Por que? Por que? Por que?
      Mas enfim, em meio a esses tantos por ques, hoje me deparei com um por que mais essencial.
Eu venho de uma família grande. Meus avós vieram do Líbano no final do século XIX, daí em diante da-lhe cria atrás de crias que foram se dissipiando. Hoje, minha família mais próxima tem em torno de uns vinte poucos primos de primeiro grau, oito tios, um monte de primos de segundo grau e vai lá saber quantos de terceiro... Quando a gente se reúne em família bote uns cinqüenta que aparecem por ali.
      Normalmente aqui em casa juntam poucos. Daí que bate a coisa mais maluca. Vejam só que hoje mesmo nos encontramos em uns dez aqui em casa (os primos mais próximos). Mamãe fez um bacalhau, somos todos meio naturebas e na maior parte da ceia só tinha coisa verde ou peixe. É claro, muita bebida. Mas de comer era pouca coisa que dava enfarto. Com o tempo falamos de vovó, que já faleceu, de trabalho, de política, de espiritualidade... O namorado de mamãe tentando se inturmar... Todo mundo tentando alguma coisa, tentando e tentando cada vez mais dar sentido para aquela história toda. Mas sem conseguir... Conseguindo mais ou menos... Mas só por que no natal a gente fica mais aberto para conversar por que TEM QUE  conversar... Tem que fazer acontecer.
      Daí, em determinado momento, começaram a falar de mim. Tentei sair pela tangente, mas não foi fácil. Me fizeram voltar para mesa.  Minha mãe, cheia de orgulho começou a falar das coisas que eu escrevia e vai e vem a gente caiu na crônica que eu escrevi sobre a história de minha avó. Minha tia, foi falar do que ela não gostou e começou com um papo de que ela tinha sido mal interpretada em relação a sua própria vida na crônica. Foi então que caiu a páscoa em Maio... Um tentava explicar, o outro não sabia o que dizer, aquele nem sabia o que falar e eu... Sozinho nessa, não entendi nada do que aconteceu.
       Foi então que em meio a mesa, baixou sobre mim um papai noel fantasma que eu nem entendi por que estava lá. Vi minha familia discutindo sobre escritores, chegando a conclusões incríveis, dos papeis das crônicas, dos vínculos entre ficção e realidade... E eu, quieto e sentado, me comovi. Reparei que ali algo de fato estava acontecendo... Não se dava mais como mera formalidade, mas sim como um verdadeiro processo de vivência e enxerguei, pela primeira vez nessa festa, depois de velho, um espaço fértil.
       Mas um tempo depois saímos daquela conversa, acabou o bacalhau e a cerveja e como toda a festa de natal cada um foi saindo mais a francesa que o outro e eu acabei ficando sozinho, de frente para essa tela branca de computador.... Agora, abaixando a cabeça para os meus fantasmas e para esses tantos anos que a humanidade celebra essa data, só tenho como acabar essa crônica confusa e sem estrutura, porém, sincera e emocionada, desejando a todos que se emocionam com esses pequenos lapsos de verdade que dão razão a esse espécie de data, um profundo e verdadeiro, feliz Natal.

                                                                          25 de Dezembro de 2012

Grito mudo.

Quero gritar de cima da estátua da Mãe Preta:

-Sou dela por toda a vida!
e todos os homens apressados
hão de anotar em seus calendários
que um dia o poeta declarou seu amor.

Mas hão de esquecer também
a partir da semana seguinte
quando o trabalho e a família
engolirem o seu vigor...

Daí eu grito de novo!
E dessa vez da antena da Gazeta:

-Ei de amá-la por toda a existência!

E só por insistência
os mesmos homens hão de esquecer-me
dessa vez pelas amantes ou pelos Hotéis-Fazenda
ou mesmo pelas antigas ementas
que legitimam sua inocência
e um pouco do seu pavor

Daí grito outra vez:

-É por ela que vivo a vida!

E sei que ei de permear a lida
dos fortes homens cor de tesouro
que puxam a canoa do Monumento as Bandeiras...

Mas são homens de pedra
que continuarão puxando,
e trabalhando
e traindo
em meio aos rebuliços
dos tantos comandos
que a cidade os ditou.

Meu grito parado no ar
bate na densa nuvem de cinismo
e volta ao abismo dos meus ouvidos
para nunca mais poder tocar a cidade

e o verso,
               enfim,
                          desabar.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Amor

Desde a mais tenra infância
sempre gostei de maçãs
são elas as frutas mais autênticas
não há forma no mundo mais frutífera
que uma redonda e vermelha
suculenta e pecaminosa
maçã.

Basta as observarmos
cheias de um sabor amarelo
em meio aos dedos que abraçam
toque por toque do seu alimento

Basta sentirmos
a doçura do mel
a cor dos seus gestos
a casca de suas formas

É de fato minha fruta predileta, a maçã...

Mas de que vale tanto vale-las?
Se é esta a fala da serpente.
Se de tanto engoli-las uma hora degluto
o gosto duro do seu enjôo profano...
Se de tanto quere-las, parece que já não me querem...
Se de tanto tocar a carne dos lábios em seu corpo vermelho
parece que se endurecem em diferentes temporadas do ano.

Só gostar das maçãs não basta
é necessário cultivá-las
e saborear as fibras rosadas,
das suas imensas manhãs.

no(s) teu(s)



                        O     L     H     A        R                     V    I                    O                  F    A    R    O   L
                        v      a       o     m        a                       e                                                               a           o
                        u      b      m     o         n                                                   n                          s      s          
no(s) teu(s)     l       i       e      r          h                     r                                                 a      t      t      l    m
                        o      o      n      e          o                     d     p                    i                    r       r     r     h    b
                
              s    s    s   s   s             e  e            X         o    o  o  o  o
                                                               
                                                                                            me perdi.

Rio da Prata





                                                                         Para os queridos; Lázaro e Daniela.










Na calmaria abissal
dessas caudalosas águas azuis
existiam pedras preciosas
e por cada prata retirada por uma mão española
para ser convertida em plata
existiu uma ferida fria e escarlate
escorrendo nas costas douradas de um índio

Na calmaria aflitiva
do meu estômago de turista
existe uma moeda local
e por cada dóllar que troquei em um câmbio paralelo
para ser convertido em Peso Argentino
existiu uma ferida fria e escarlate
cortada nas palmas duras de um boliviano

Aqui estou eu.
Com os pés submersos nas águas vermelhas do Rio da Prata
metade espanhol,
metade selvagem.
Meu pulso direito é pálido e carrega um chicote
meu esquerdo é dourado e carrega um corte de sangue

Não sei se golpeio
não sei se recebo
Mas sei que as águas Porteñas não me podem curar
só podem fazer arder profundamente
minha eterna ferida aberta
de colonizado colonizador.

                                                                  Rio da Prata/Aeroporto EZE/ Dezembro de 2013

sábado, 21 de dezembro de 2013

Não existem velhos como os das grandes cidades.

Lugar nenhum produz velhos
como se produz uma metrópole.
Caminham entre o café da manhã e o almoço
apertando por baixo do braço seus jornais

Você diz a eles:
-Bom dia!

Alguns respondem surpresos por terem sido lembrados.
Outros curvam as sobrancelhas observando quem chama
e amargamente respondem um grave:
 -Bom dia... (Quando respondem)

Não existem velhos como os das grandes cidades
alguns, muito arrumados, vestem camisas pólo turquesa ou musgo
Outros são como são; Bermudas e varizes clareadas pelas ilhas de calor.

Uns por saudade bebem muito
e clamam ao dono do botequim que tudo mudou...

Outros se orgulham dos diplomas dos filhos
e sentem muita falta ao sentar para jantar.

Mas  todos, quando chega o poente,
cobrindo de escuridão os arranha-céus
se debruçam a esperar a morte
e se arrependem do que deixaram de fazer.

Não existem velhos como os das grandes cidades
Tanto faz se comem croissant
ou se bebem aguardente.

                                                                                              Buenos Aires; Dezembro de 2013