terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Ceia de Natal

      Esse é um dia diferente. Na Avenida Paulista a coisa já está estranha desde Novembro... Me deparei andando por ali com um Papai Noel imenso em cima das Lojas Pernambucanas ao lado do Metrô da Linha Amarela e me assustei. Como pode? Um mendigo deitado ao pé da estação, pedindo esmolas e um Papai Noel cheio de presentes que se recusa a entregar umzinho ao cabra que com esperanças só tende a estender a mão suja a um passante. Uma sacanagem danada... Quase uma piada sem graça.
      Eu digo piada sem graça pois do lado da festa pagã que o cristianismo incorporou (festa que em suas origens servia para celebrar o solstício de inverno no hemisfério Norte, por isso Pinheiros, Perû e o caramba), passa uma mendiga com os peitos de fora embaixo do Papai Noel coberto de feltro e lã sofrendo um sol de rachar a cuca. A mulher dança uma música qualquer, como um rock ou um sertanejo para tentar a vida, implora por esmolas e acaba descolando uns poucos vinténs para beber seu elixir. Papai Noel em cima das Lojas Pernambucanas... Pois é... Piada sem graça... Piada de sofrer sem rir, piada que para a gente só representa o imperialismo e a tristeza de tanto comer coisas indigestas nesse calor de fritar as pacovitas.
      De qualquer forma, só passei por ali de manhã... Agora já é de madrugada e o menino Jesus já não é mais tão menino, já fez dois mil e doze anos. Já eu, na lira dos vinte, comemoro sem nem saber por que os meus vinte anos de família em meio aos dois mil e doze anos dessa alma iluminada. Vinte ciclos regados de Papai Noel e mendigos que estendem as mãos, postos ao imperialismo e a tristeza de tanto comer. No fim sou eu que estou preso sobre as lojas Pernambucanas, pois são elas que fazem o natal da minha casa. Mamãe serve a ceia em cima da mesa que eles construíram, depois a gente assiste a Globo na televisão das casas Bahia, e guarda a comida na geladeira do Ponto Frio... Por que? Por que? Por que?
      Mas enfim, em meio a esses tantos por ques, hoje me deparei com um por que mais essencial.
Eu venho de uma família grande. Meus avós vieram do Líbano no final do século XIX, daí em diante da-lhe cria atrás de crias que foram se dissipiando. Hoje, minha família mais próxima tem em torno de uns vinte poucos primos de primeiro grau, oito tios, um monte de primos de segundo grau e vai lá saber quantos de terceiro... Quando a gente se reúne em família bote uns cinqüenta que aparecem por ali.
      Normalmente aqui em casa juntam poucos. Daí que bate a coisa mais maluca. Vejam só que hoje mesmo nos encontramos em uns dez aqui em casa (os primos mais próximos). Mamãe fez um bacalhau, somos todos meio naturebas e na maior parte da ceia só tinha coisa verde ou peixe. É claro, muita bebida. Mas de comer era pouca coisa que dava enfarto. Com o tempo falamos de vovó, que já faleceu, de trabalho, de política, de espiritualidade... O namorado de mamãe tentando se inturmar... Todo mundo tentando alguma coisa, tentando e tentando cada vez mais dar sentido para aquela história toda. Mas sem conseguir... Conseguindo mais ou menos... Mas só por que no natal a gente fica mais aberto para conversar por que TEM QUE  conversar... Tem que fazer acontecer.
      Daí, em determinado momento, começaram a falar de mim. Tentei sair pela tangente, mas não foi fácil. Me fizeram voltar para mesa.  Minha mãe, cheia de orgulho começou a falar das coisas que eu escrevia e vai e vem a gente caiu na crônica que eu escrevi sobre a história de minha avó. Minha tia, foi falar do que ela não gostou e começou com um papo de que ela tinha sido mal interpretada em relação a sua própria vida na crônica. Foi então que caiu a páscoa em Maio... Um tentava explicar, o outro não sabia o que dizer, aquele nem sabia o que falar e eu... Sozinho nessa, não entendi nada do que aconteceu.
       Foi então que em meio a mesa, baixou sobre mim um papai noel fantasma que eu nem entendi por que estava lá. Vi minha familia discutindo sobre escritores, chegando a conclusões incríveis, dos papeis das crônicas, dos vínculos entre ficção e realidade... E eu, quieto e sentado, me comovi. Reparei que ali algo de fato estava acontecendo... Não se dava mais como mera formalidade, mas sim como um verdadeiro processo de vivência e enxerguei, pela primeira vez nessa festa, depois de velho, um espaço fértil.
       Mas um tempo depois saímos daquela conversa, acabou o bacalhau e a cerveja e como toda a festa de natal cada um foi saindo mais a francesa que o outro e eu acabei ficando sozinho, de frente para essa tela branca de computador.... Agora, abaixando a cabeça para os meus fantasmas e para esses tantos anos que a humanidade celebra essa data, só tenho como acabar essa crônica confusa e sem estrutura, porém, sincera e emocionada, desejando a todos que se emocionam com esses pequenos lapsos de verdade que dão razão a esse espécie de data, um profundo e verdadeiro, feliz Natal.

                                                                          25 de Dezembro de 2012

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