terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Grito mudo.

Quero gritar de cima da estátua da Mãe Preta:

-Sou dela por toda a vida!
e todos os homens apressados
hão de anotar em seus calendários
que um dia o poeta declarou seu amor.

Mas hão de esquecer também
a partir da semana seguinte
quando o trabalho e a família
engolirem o seu vigor...

Daí eu grito de novo!
E dessa vez da antena da Gazeta:

-Ei de amá-la por toda a existência!

E só por insistência
os mesmos homens hão de esquecer-me
dessa vez pelas amantes ou pelos Hotéis-Fazenda
ou mesmo pelas antigas ementas
que legitimam sua inocência
e um pouco do seu pavor

Daí grito outra vez:

-É por ela que vivo a vida!

E sei que ei de permear a lida
dos fortes homens cor de tesouro
que puxam a canoa do Monumento as Bandeiras...

Mas são homens de pedra
que continuarão puxando,
e trabalhando
e traindo
em meio aos rebuliços
dos tantos comandos
que a cidade os ditou.

Meu grito parado no ar
bate na densa nuvem de cinismo
e volta ao abismo dos meus ouvidos
para nunca mais poder tocar a cidade

e o verso,
               enfim,
                          desabar.

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