terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Poema de Natal

-Por favor, me passe a maionese?

E espero receoso a guarnição
composta pelo casal indisposto,
pelo avô doente, pelo irmão vagabundo,
pelos projetos que não foram realizados
pelas saudades dos que já se foram
e pelos rancores que colorem as famílias

- Tio, me passe o Peru!

Esse, então, vem recheado
de mágoas escarola e queijo
em fatias de melancolia


-Lembra, quando a vovó cuidava de você?

-Lembro...
                                         [Memórias póstumas sobre as bandejas de prata]

- Olha o Pudim!!!

Lá vem a maldita sobremesa,
coberta por um caldo espesso
de pressões e cobranças
imersas em um futuro promissor.

-Que venha o café!

Mas ninguém bebe café nessa data
em ceias de Natal só é possível beber
as lágrimas brancas da mediocridade
que pela manhã, por contra-vontade,
molham a sacola de carvão
que deixaram embaixo da árvore.

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