domingo, 1 de junho de 2014

Liberdade

                                                                                                                      Para Eleonor, a minha loucura.

É (in)certo
levar-me tão a sério.

Pois se quero
derramar-me pelo mundo
descobrindo absurdo
devo sozinho fundar o infundo

critério

teu corpopermitindo meu…

ai que sodade que deu

quando vi olhos d'outra
e o gosto de alcool
o gosto das ramas
o gosto de teu

ai que sodade que deu

do

teu corpopermitindo meu

e eu assim tão inferno
tão intérreo, tão mistério
querendo os latifúndios
os muros, os murmúrios,

virando surdo

por
teu braçoabraçando o meu

sou teu e sempre teu

mas sou da Itália
sou do teatro
sou do estudo
sou do esporte
sou das línguas
sou da orgia
sou de todas as desculpas
para não me tornar mais um dos seus

A liberdade é minha desculpa
mas só é desculpa...
pois ela só vive se te prendo
pois ao mesmo tempo que não me rendo
também não aguento
assumir a multa
de tornar-me ateu.

                                                                  [Só sou livre da tua gruta
                                                                  quando me prendo no que é meu.]

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Além.

Por que permaneço a devorar das fibras vermelhas
pelo vigor do sangrento prazer desejoso das carnes?
Eu assisti "A Carne é fraca!"
Me esbaldo com lentilhas e abobrinhas
e sei do vocalize ensurdecedor que fazem os porcos
quando são decididos para fazer a passagem.

Por que bebo a maldita espuma dos pães
fermentada pelas bundas de mulheres peladas?
Nunca gostei de loira!
Gosto quando acordo disposto e vivo.

                                                                       [Eu vi o pé de meu avô
                                                                       inchar junto com sua mágoa
                                                                       que por beber dessa água,
                                                                       destruiu sua família.]

Por que torno a entornar a velha chupeta de fumaça
saída dos lábios de um Cowboy parlador de inglês?
Não consigo subir em cavalo!
e quando adoeço vou em dobro
me perdendo entre os velhos catarros
manchados de vermelho pulmão

Por que entupo as artérias com goles de gás açucarado
saídas das mãos de escravos norte coreanos?
O homem encontrou um rato lá dentro!
e aos poucos seu corpo foi desentupido
pelo negro líquido vicioso
que o papai noel bebe em Dezembro

Por que não desligo o azul do livro dos rostos?
Que o tempo inteiro me chama pelas três notas agudas
apontando uma caixa no fundo da tela
a onde minha vida amorosa se afunda.

Por que os medicamentos para o sono?
Para a cabeça, para a tristeza, para o sexo,
para os olhos, para a barriga, para a lida
para os cornos?

Por que as tantas fronhas suadas?
Se sei que o melhor é deitar na cama
e deixar de fazer fama...

Por que mais de mil contos,
nas listas imensas, imersas
das caudalosas águas?
Que já não são nada.

Por que nesses tantos pontos
sei a coisa certa
e vou pela inquieta

Por que tão pouco?
Por que tantos  pontos?

                                                                                                       [Porque sou além de corpo.]

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Rascunho desejoso de litoral

Gostaria de carregar a pureza
das baixas vegetações do litoral...

Elas compreendem ao certo
que o que importa
é contemplar o horizonte
pela beira da areia
observando o movimento
das ondas azuis do mar

Gostaria de ser veloz
como os pequeninos carangueijos
que observam da margem
a água refletindo o céu
e quando qualquer perigo se aproxima
correm de lado
até enterrar-se no fim dos mundos






                                                                            fevereiro de 2014, Praia do Sono, São Paulo.

domingo, 18 de maio de 2014

Vai ou não vai.

                                                           se vôa pássarico


                                                       deverás de bico in bico
                                                       batalhar pelos caminitos
                                                                 
                                                               del mondo...


                                                           se ficas, piriquita


                                                         virarás pele de cuíca
                                                          de póro qui sistica
                                                         
                                                             e eu estrondo....

sábado, 5 de abril de 2014

En'canto

                                                                                  Para a minha bruxa, por ensinar-me da lua e das mãos

não só canta encantamentos da boca.
(vi)stiste na mira um canto
que exala sereia
piscando em pupila
su'rugir'indo um olho-leão
envaidedistribuído
pelo céu de verde'g'rama
que espanta por medo de "me apaixonei..."

pois eu que um dia me deitei
na 'g'ramacéu todanoite a teulado
para conhecer digitais leoas
quando tuas escamas gelósas de sereia
surpreenderam ao tocar os pelos
de tu'ma criatura mitológica.

pois teus fios
de forma nunca antes já feita
fizeram me gozar os prantos
das antigasminhas mulheres
e com sal das lágrimas jorradas
em meus dedos devanecidos de macho
aprendi a meninofeminino dormir sonhoso
enquanto caídormindo em teu ombro
em canto acordeitei em teu colo

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Bumerangue

                                                                                                                  Para Eleonor, a minha catástrofe...
                                                   
sou teu e sempre teu
te lanço aos ares sobre os caminhos verdes
e imploro para que siga tua sina
mas na curva do oeste
tendes a voltar
e eu a abraçar
o violento impacto
das tuas retinas.
basta chamar-me
pelos antigos olhos de outros poemas
e meu coração volta intacto
pronto para se rasgar
em pequenas centenas vermelhas
que provam esse meu pacto:

-Sou teu e só teu-

mas só sou teu
se prometeres não me teres compaixão
pois compaixão é quase pena
e já são mais de duzentas quarentenas
sujeitas ao meu coração.
por isso grito alto que a alta é minha decisão!
quando se trata de tratar a gangrena
pela fineza das tuas mãos...

que
volt1volt'volt'VOLTAM
e não ficam!
e onde se fincam?
em que região?

AH! Mas'aqui não!

Guardo tudo com chave de prisão:

meus olhos
                meu peito
                               meu TESÃO

                                                                                                                           [ai está a mentira]
                                                                                                                           [ai está o dilema]
...
sempre voltapoema
ie'u tomado de (i)razão.
voltocorrendo a arena
e percebo que teu sexo
supera tudo de complexo
e vira minha imensidão.

segunda-feira, 17 de março de 2014

De nada

De nada cativa
o funâmbulo que não trêpita
ao passear pela corda...

De nada interessa
se nesse percurso
com seu guarda-chuva
o artista não indica uma possível queda.

De nada  vale
ser somente feliz
se não caminhar rumo a ser tórpi

É necessário desequilibrar-se
querer matar-se
tropeçar na mais imensa das merdas
e desejar que signifique sorte!

De nada cativa
o sonâmbulo que não estica
os olhos quando acorda...

De nada me inquieta
se no meu busto
a paixão se põe muda
e meu coração não mais se cega

Quero os males
de olhar o meu nariz
fugindo no mais rápido dos trotes..

E se for preciso entregar-me
e finalmente atirar-me
na mais profunda das entregas
escutando o silêncio da morte

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Marca.



















                                                            Para Luiza Batalha, por conhecer cada uma das minhas marcas.



Nunca te tive tanto
como no dia em que me desenhaste.

Entrelinhas de carvão,
viste minhas marquinhas,
viste meu desgaste...

E eu vi que nunca tanto me amaste
como nas rasuras sozinhas
que rabiscaste pelos cantos
dos nossos anos de amizade.

Enquanto eu posava,
quieto, por contra-vontade,
aos poucos, revisitava,
minha'tua identidade
minha'tua grande saudade
de um tempo que nunca acaba
que deixou minha pele marcada
de tanta sensibilidade

Era tu que me desenhava!
Quem mais conhece minhas maldades...
Aos poucos tu via em meu corpo
tudo que eu tinha de morto
e toda nossa cumplicidade

Nunca vi tanto silêncio
enchendo as ruas dessa cidade
como no dia em que percorreste
as linhas da felicidade
e todo aquele ar suspenso
cheio de fragilidade
me fez ver por extenso
o retrato da minha verdade

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Uma volta

No meu gole de café
concebo a luz de mais um dia
que imberbe guarneceu a vida
na placenta da madrugada
que continua a ser inseminada
por fé e melancolia

E pela tarde ensaboada
de antigas horas divididas
vou partindo a salada
e desejo que cada fibra
mostre a vespertina esperança
que de fala mansa ou calada
o cheiro da terra aspira

Naquela noite fechada
que a dengosa lua clareia
meto uma colher da sopa
no meio da minha imensa boca
que de tão cansada
dormirá na escura badalada
no sonho de uma candeia

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Felicidade

Quantos dias desperdiçados
sem mostrar os dentes
em um farfalhar róseo de alegria?
Quantas noites sem esboçar um sorriso?
Há quanto tempo tornou-se uma utopia
meu gargalhar desvairado de menina?

Me cresceu barba.
e com ela o véu da noite cobrindo minha infância.
O bigode não me deixa sorrir...
Mas deixa que eu desconfie dos olhos dos homens bravos
e que eles desconfiem de mim...
Para jogarmos o jogo da maturidade.

Vou com seis pedras na mão
pois nunca fui bom de mira
e preciso com unhas me defender
de quem me atirar a primeira rocha
pois atrás dela vem quatro tochas
para queimar sem meu querer

Mas sei que por trás das barbas
e dos chapéus que sombreiam as caras
se esboça um sorriso de menina calada
que com força seca a mágoa
e faz com que minha impureza
torne-se nada mais do que nada.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Campinas

Nessa terra de Barão
tuas colinas são as costas de um escravo
repletas de feridas sangrentas
com nomes de avenidas
que correm pelo Largo do Rosário

Cambuí,
Vira Copos,
Barão Geraldo,

São terras de universitário...

E pelas Tam's que te sobrevoam
repletas de gordos homens faladores de inglês
Itatinga te observa
por baixo de uma peruca
e de um salto vermelho
de uma puta que procura um freguês.

Esse é teu pagamento, Campinas,
por não libertar teus pretos,
por apegar-se ao dinheiro,
menosprezando os seios
dos trabalhadores que te alimentam...

Continua a ser sinhazinha...
continua a ser a rica menina do meio
com falta de coração
e repleta de auto-estima.
Eis você, Campinas,
teus teatros demolidos,
teus prédios tão polidos,
refletidos nos olhos
de seus perversos prefeitos

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Máscara

             
                                                                                 



                                                                                                                Para Tom, meu parceiro...


És tu a minha máscara,
visto teus olhos de papel cortado
e da janela revindico ser Julieta!
Para sentir um pouco o sabor de sua indecisão
e no baile surpreender-me ao segurar sua mão
que me carrega para a varanda das nossas vidas
a onde veremos o mundo explodir...

E que se exploda mesmo!
Pois com seus pedaços
levantaremos o nosso castelo
de papel, gesso, argila
 e cerveja também...

Por que ninguém é de ferro...

Vista já minha máscara de Romeu!
pois sou o veneno de teu berro
e juntos somos o mundo que sonhamos
que está aqui, sendo modelado,
que está aqui, em nosso corpo machucado
de  pinga, suor e trabalho
suportando um próximo ano
ao lembrar que o outro doeu

Sou teu velho amigo,
 faça comigo o que tem que fazer
e faça com atenção
tudo o que eu nunca faria
para rasgarmos a fantasia
e finalmente arrancarmos com força
a máscara de nossa ilusão

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Os dedos que penso

                                                                              Para agradecer Solange por me trazer o chá de Tílea

O roçar tendencioso
das pernas de aranha do teu queixo
perdidos na lixa dura da minha bochecha
faz com que meus olhos percam o caminho
e sobrevoem o quarto até o lustre amarelo

É nesses dedos que penso
perdidos em suor e gozo
sobre os músculos duros
das minhas ancas melindrosas
retalhando meus pelos
enroscados nos teus fluídos
de paixão e merda

Sou eternamente teu por essa noite
enquanto for inteiramente meu
teu corpo profano de Coiote.

Assim terei para sempre
tua marca em meus culotes
teu sangue em meu ventre
e tua vista de holofote.