sábado, 15 de fevereiro de 2014

Marca.



















                                                            Para Luiza Batalha, por conhecer cada uma das minhas marcas.



Nunca te tive tanto
como no dia em que me desenhaste.

Entrelinhas de carvão,
viste minhas marquinhas,
viste meu desgaste...

E eu vi que nunca tanto me amaste
como nas rasuras sozinhas
que rabiscaste pelos cantos
dos nossos anos de amizade.

Enquanto eu posava,
quieto, por contra-vontade,
aos poucos, revisitava,
minha'tua identidade
minha'tua grande saudade
de um tempo que nunca acaba
que deixou minha pele marcada
de tanta sensibilidade

Era tu que me desenhava!
Quem mais conhece minhas maldades...
Aos poucos tu via em meu corpo
tudo que eu tinha de morto
e toda nossa cumplicidade

Nunca vi tanto silêncio
enchendo as ruas dessa cidade
como no dia em que percorreste
as linhas da felicidade
e todo aquele ar suspenso
cheio de fragilidade
me fez ver por extenso
o retrato da minha verdade

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Uma volta

No meu gole de café
concebo a luz de mais um dia
que imberbe guarneceu a vida
na placenta da madrugada
que continua a ser inseminada
por fé e melancolia

E pela tarde ensaboada
de antigas horas divididas
vou partindo a salada
e desejo que cada fibra
mostre a vespertina esperança
que de fala mansa ou calada
o cheiro da terra aspira

Naquela noite fechada
que a dengosa lua clareia
meto uma colher da sopa
no meio da minha imensa boca
que de tão cansada
dormirá na escura badalada
no sonho de uma candeia

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Felicidade

Quantos dias desperdiçados
sem mostrar os dentes
em um farfalhar róseo de alegria?
Quantas noites sem esboçar um sorriso?
Há quanto tempo tornou-se uma utopia
meu gargalhar desvairado de menina?

Me cresceu barba.
e com ela o véu da noite cobrindo minha infância.
O bigode não me deixa sorrir...
Mas deixa que eu desconfie dos olhos dos homens bravos
e que eles desconfiem de mim...
Para jogarmos o jogo da maturidade.

Vou com seis pedras na mão
pois nunca fui bom de mira
e preciso com unhas me defender
de quem me atirar a primeira rocha
pois atrás dela vem quatro tochas
para queimar sem meu querer

Mas sei que por trás das barbas
e dos chapéus que sombreiam as caras
se esboça um sorriso de menina calada
que com força seca a mágoa
e faz com que minha impureza
torne-se nada mais do que nada.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Campinas

Nessa terra de Barão
tuas colinas são as costas de um escravo
repletas de feridas sangrentas
com nomes de avenidas
que correm pelo Largo do Rosário

Cambuí,
Vira Copos,
Barão Geraldo,

São terras de universitário...

E pelas Tam's que te sobrevoam
repletas de gordos homens faladores de inglês
Itatinga te observa
por baixo de uma peruca
e de um salto vermelho
de uma puta que procura um freguês.

Esse é teu pagamento, Campinas,
por não libertar teus pretos,
por apegar-se ao dinheiro,
menosprezando os seios
dos trabalhadores que te alimentam...

Continua a ser sinhazinha...
continua a ser a rica menina do meio
com falta de coração
e repleta de auto-estima.
Eis você, Campinas,
teus teatros demolidos,
teus prédios tão polidos,
refletidos nos olhos
de seus perversos prefeitos

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Máscara

             
                                                                                 



                                                                                                                Para Tom, meu parceiro...


És tu a minha máscara,
visto teus olhos de papel cortado
e da janela revindico ser Julieta!
Para sentir um pouco o sabor de sua indecisão
e no baile surpreender-me ao segurar sua mão
que me carrega para a varanda das nossas vidas
a onde veremos o mundo explodir...

E que se exploda mesmo!
Pois com seus pedaços
levantaremos o nosso castelo
de papel, gesso, argila
 e cerveja também...

Por que ninguém é de ferro...

Vista já minha máscara de Romeu!
pois sou o veneno de teu berro
e juntos somos o mundo que sonhamos
que está aqui, sendo modelado,
que está aqui, em nosso corpo machucado
de  pinga, suor e trabalho
suportando um próximo ano
ao lembrar que o outro doeu

Sou teu velho amigo,
 faça comigo o que tem que fazer
e faça com atenção
tudo o que eu nunca faria
para rasgarmos a fantasia
e finalmente arrancarmos com força
a máscara de nossa ilusão