domingo, 22 de fevereiro de 2015

Capibaribe dos meus sonhos

                                                   
Dedicado ao Candeia, Aguinaldo, Ariana, Yanninha e Cristiano...
         
             I

Verve vermífoga das praças
antígas de urina e suor...

Hoje é domingo
observo sereno o pinto do Brennand
na sonóra salmoura do Marco-Zero


             II

Feira livre de siriguela:

"Aproveita hoje que tá baratinho
amanhã só vou te fazer carinho!"

Qué?
Meu pé no Mercado São José!

Ouço um grito
das ramas verdes de uma velha rachada
tá lá:

cana, shark, água, cachimbo
palha trançada, barquinho, vagem
chapéu, facão, postal, cura pro mal
anágua, janela, brinquedo e carimbo

salada de catravagem
que não cabe em casa

Mas eu queria tanto que coubesse!

             III

trincando pela central
uma garrafa de cerveja abraça meu corpo
alivia o abafamento suado da cidade
e o perfume do rio corrente...

O jovem cosmopolita inflama-se numa discussão


deve estudar cinema.


Ai...
Como são lindos esses meninos
cheios de destino!

lembro do verso;

"saudade que me trouxe pelo braço"

E digo:
Sou eu quem chegou.

Sou eu, Recife,
teu anti-severino
retirado de avião
de pé no Capibaribe


             IV

-Terra à vishta!
Armado até os dentes gritou o Holandês
                                                         [só que em Holandês]

e disse que tudo era tão bonito que  a terra ia se chamar "A linda"
mas como falava o idioma holandês, anglosaxonês,
na hora de registrar no cartório, como já é tradição,
confundiu-se nos percalços da tradução
e em número e grau errou o gênero
ficou "Olinda".

              V

Taca galinha na gaiola
que pela currióla, corre nego cheio
nega prenha, e um menino amarelo,
buchudo, comedor de farinha
- Ô coisinha! pare de pisar no meu pé!
Diz a véia, com inhame nas sacolas
pinga, para, sobe, para pinga, sobe,
Tudo em pé, buscando chegar no destino...

Ônibus de saudades nordestino

               VI

Das rachaduras do chão de uma pele
escuto palavras áridas:

-Aqui só morava lavrador

Um dia o dono da usina
amarrou a morada de cada
com uma corda na madrugada
um grande e imenso trator
foi se os meninos e as meninas
e quem não morreu com essa sina
hoje é seu trabalhador

               VII

Nada do boi se joga fora:

Seus miúdos são os aglomerados de gente

Mora na tua corcóva o Maracatú
nos teus cascos o Carimbó
na tua canela o Carralo-Marin
na tua língua o Bumba
seu coração é Samba
sua coxa é Congado
teu rabo as Pastorinhas
teu pau a macumba
teu coro é carnaval


e nos teus chifres reizados

mora a permissão pro pecado

               VIII

Escuto o raio da silibrina
que toca com clarões os becos
onde uma bicha se raspa na outra

E já que já
estou assim meio morto...

Desejo ser servido à cabidela!


terra de ferro e frevo
onde fervo meu nervo


só quero viver se for com ela.

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